quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

CARA OU COROA

Pensei numa proposta para o ultimo post do ano em nel mezzo del cammim.

Retrospectiva? Clichê!
Poesia de amor? Piegas!?
Críticas? Inoportunas!

Não fiz maiores projetos, minha arquitetura é sempre lírica e se ficasse buscando o método, indubitavelmente, sairia mais do mesmo.

Que o ultimo post fosse a face do improviso, ficou-me este desejo latente!

Sim! Isso! Com palavras atiradas dentro do texto, regurgitadas, sem amarras e amarrações, sem vestimentas luxuosas, que fossem elas, todas elas, as palavras e as frases, nuas... Nuas...

O ultimo post deveria reverenciar o futuro e não o passado!

2010 será para mim, surgiu-me a revelação, uma moeda com duas faces emblemáticas.

De um lado, cara, a esperança de um tempo melhor!
De outro, coroa, a certeza de um tempo melhor!

O ultimo post do ano sugere que escolhas:

Cara?
Coroa?

E que atire a moeda para cima!
Esqueça tudo o que aprendeu sobre sorte e azar...

Aqui... Neste jogo, você faz suas escolhas e a moeda acompanha tua decisão.

Então, o que vai ser 2010 para você?

Cara ou coroa?

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

NOITES PARA SE FAZER POESIA


Numa dessas noites sem qualquer inspiração
Que quiseres fazer poesia...
Lembre-se sempre que
Poesia nunca pode ser feita assim...
De uma forma negligente e sem tempero.


A poesia sempre foi e é exuberante,
Está sempre vestida elegantemente,
Ela entrega o seu melhor e exige de todos nós o melhor.
Não se faz poesia com a mesma urgência
Que se bebe um copo d’água para matar a sede.
Poesia se faz saciado, satisfeito.
Ela gesta em você e escolhe sua hora de nascer,
Sem tempos prematuros, sem abortos.
A poesia é senhora de si.



Queres um conselho?
(Será que existem conselhos no que tange poesia?)


Estejas sempre pronto para ela.
Mantenha em você um estado permanente
De atenção, sejas sempre receptivo.
O embrião da poesia é a idéia,
Uma frase mágica que ansiosa
Escapa do todo e surge como um fragmento em voce.
Pegue-a!
Acaricie-a!
Puxe devagarzinho este trecho,
A ponta do novelo e, de repente,
Ei-la: poesia!


Numa dessas noites sem qualquer inspiração,
Que lhe assaltares a vontade de fazer poesia,
E a poesia não se lhe mostrar...
Aquiete-te!
Durma...
Ou saia de tua casa!


Há noites que foram feitas para outras coisas...
Não para poesia!!!


Ilustração:
  1. Quadro de Van Gogh, 1889, The Starry Night
  2. Quadro de Van Gogh, 1888, Starry Night over the Rhone

domingo, 27 de dezembro de 2009

NEL MEZZO DEL CAMMIM




Por um tempo, breve até, acreditei-o uma janela por onde me debruçava para ficar observando o fantástico oceano virtual. Deixei de pensar assim, essa constatação reduzia nel mezzo del cammim.

Por outro tempo, breve até, acreditei-o uma porta por onde adentrava para encontrar com outras pessoas no mundo virtual. Deixei de pensar assim, essa idéia também simplificava nel mezzo del cammim.

Por outro tempo, breve até, acreditei-o uma nave espacial muito possante que me levava para outros universos (os amigos são universos!) virtuais. Ainda que fosse um pensamento com o qual flertasse, abandonei-o à própria sorte, ele também diminuía nel mezzo del cammim.

Hoje eu o vejo como algo além de mim. Ele sou eu, eu sou ele. Ambos misturados num único ente que possui vida própria. É este pensamento que me sustenta agora. Nel mezzo del cammim é um ser virtual que necessita de mim para alimentá-lo (com textos e poesias) e de voces todos que o visitam, para amá-lo – Todos necessitamos de amor!

Esta nova concepção pacificou-me porque ela é democrática e conciliadora. Ela não destrói as outras teses que a precedeu, pelo contrário, as incorpora e se utiliza delas para criar a personalidade própria do blog – Sim! Blogs tem personalidade e até uma alma.

E, por obséquio, não se limitem as aparências deste texto. Ele não é ufanista. Não busca a autopromoção, algo tão tolo. Observem, observem melhor, além, vejam o pulsar do coração desse texto, é o duplo coração de nel mezzo del cammim, uma batida formada pelo coração dele e o meu. Eu o entendo agora, sei o que ele é e o que pretende dizer com tanta veemência e paixão – nel mezzo del cammim vocifera que ama voces, nossos amigos e amigas todos! Um amor construído com a força de dois corações!!!



Ilustração: Banner original de nel mezzo del cammim, foto recolhida no site www.olhares.com, aliás, de onde vem boa parte das ilustrações aqui postadas.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

ENTÃO É NATAL....




NOITE DE NATAL...



E EU????



Dormindo....



Deus! Tenho de dar um jeito em minha vida...

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

SONETO PARA A FUGA DE POESIAS



Houve uma época que as poesias eram comuns em mim,
Nasciam de uma forma natural, imperceptível.
Elas me amavam e para elas dedicava meu tempo, enfim,
Um acordo tácito, sem nada escrito em papel.


Hoje, quando elas fugiram para um local desconhecido,
Quando as busco sôfrego, em todo instante,
Hoje quando me fiz alguém na vida e me sinto perdido,
Sinto falta das poesias, minhas amigas, minhas amantes.


A folha de papel em branco continua branca.
A caneta sequer esquenta na palma de minha mão.
Das pupilas vertem lagrimas que não estancam,


Da cabeça não salta nenhum verso,
Do peito não nasce nenhuma emoção,
As poesias fugiram para outro universo...

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

FRAGMENTOS DO DIÁRIO NUNCA ESCRITO POR MIM

Eu devia ter ficado em silêncio... Em silêncio...
Tão politicamente correto o silêncio... O silêncio!
Mas, aonde esconderia minha indignação, minha honra, o homem que sou?
No armário?
Na bolsa?
Deixaria em casa?

Eu devia ter ficado em silêncio... Em silêncio... Mas não fiquei!
Não sei mais o que é certo... Somente sei que consigo olhar-me no espelho agora e lá enxergo um homem!
Às favas o politicamente correto!
Às favas o calar-se!

domingo, 20 de dezembro de 2009

SORRISO DE AMOR


Hoje acordei
Minha nudez refletiu no espelho,
Ao lado você se estendia,
Dormindo.
Vi nos seus lábios um sorriso!

Puxei o lençol suavemente,
Constatei também sua nudez.
Busquei na memória entorpecida
Pela sonolência, os momentos.

Ah! Os momentos...

Paixão...
Volúpia...
Beijos e abraços...
Intimidades reveladas...
Fazer amor...
Orgasmos...
Felicidade...

Suave, cobri-a novamente!
Deitei-me sem perceber
Que enquanto adormecia,
Um sorriso
(também!)
Nascia em meus lábios.

sábado, 19 de dezembro de 2009

WHAT A WONDERFUL WORLD



As pessoas dizem para me sentir feliz.
Tocam no estéreo Louis Armstrong
E sua canção “What a wonderful world!!"
O mundo é belo, dizem-me.
Vamos viver enquanto há tempo.
Este é o ultimo dia do resto de nossas vidas...,”
Continuam eles.
As pessoas sorriem, bebem e dançam.
Não consigo me divertir.
Não consigo fechar os olhos para Copenhague.
Não consigo fechar os olhos para Brasília.
Tanta coisa errada, imperfeita.
Tanta desigualdade.
Falo disso para as pessoas e elas
Riem com escárnio.
Você não pode resolver os problemas
Do mundo cara!
Acorde e viva a vida... Viva a vida!”
Abaixo a cabeça e deixo-me dominar
Pelo egoísmo e pela inércia das pessoas.
Nada posso fazer! Resigno-me.
E com os ouvidos na hipócrita canção
What a Wonderful World”
Levanto meus olhos às estrelas no céu
E confidencio-me com meu Pai criador:


Deus! Perdoe-me! Não sei o que fazer...

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

SE TU SOUBESSES O QUANTO EU TE AMO!


Ah! Se soubesses o quanto és por mim amada,
Não deixaria que as banalidades que nos
Cercam te desmotivassem e te esmorecesse.
Pois nós não somos nada mais na vida
Do que joguetes de um destino calculista e frio.


Ah! Se realmente soubesses o quanto és por mim amada,
E te visses pressionada por este mundo grande e selvagem,
Deixarias-te mergulhar em meu mundo,
Onde és nele a rainha, minha amada rainha,
E estais protegida deste mundo que
A pressiona e não te quer...


Ah! Se soubesses... Se realmente soubesses
O quanto és por mim amada,
Não deixaria que dificuldades lhe trouxessem infelicidade.
Porque tudo o que levamos de concreto desta
Vida é o amor e este você encontra em mim
Uma fonte inesgotável.
Um amor que te aquece nas noites de frio
E te refresca nos dias de muito sol.
Um amor que nada te cobra e tudo lhe dá.


Ah! Se soubesses.... Se soubesses o quanto
És por mim amada,
Jamais me deixaria assim tão só
E viria ser feliz do meu lado.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

CREPÚSCULOS

Todas as tardes o casal de idosos sentava-se à frente de sua casa, em duas velhas cadeiras de fio, sem maiores propósitos, para olhar o preguiçoso cair da tarde, a lenta chegada da noite e as pessoas que iam e vinham dos mais diferentes destinos.

Eu passava apressado com os pensamentos sobrecarregados com as preocupações do cotidiano. Sempre os cumprimentava, um aceno de mão, um meneio com a cabeça, e seus olhos e seus sorrisos devolviam-me saudações afetivas e silenciosas.

Pareceu-me que, para eles, estar ali era um ritual dos seus fins de tarde. Entendi que o interesse deles não se fixava nos transeuntes, quem vem, quem vai, com quem vem, com quem vai, estas coisas pequenas que inebria parcela da população - essa parcela que vê na vida do outro mais atrativos que na sua própria. 

Oh! Estar ali para eles transcendia a isso. Gostavam era de ver o cair da tarde, o sol se escondendo no horizonte trocando de cores de uma forma mágica: O amarelo meio dia se alaranjando para as cinco horas até vestir-se do rubro ocaso das seis horas.

Ficavam ali em silêncio, sentindo a brisa fresca vespertina que sussurravam poesias esquecidas no vento e captavam desses segredos inspirações diversas para a vida e para todas as coisas.

Ficavam ali até que a lua surgia tímida e pálida e, com o avançar das horas, entusiasmava-se e ganhava formas e aparência singular mostrando-se desinibida.

Algumas pessoas chegam ao final de suas vidas melancólicas e rancorosas e passam a refletir nos outros frustrações que são unicamente suas. O casal de idosos não é assim! Todas as coisas parecem resolvidas para eles, não possuem frustrações em suas existências, viveram do jeito que quiseram ter vivido, e, vivem agora do jeito que querem viver, não lhes interessa o que os outros fazem, eles sabem que somos todos livres e cada qual pagará o preço de suas escolhas.

Tudo o que eles querem agora é viver intensamente uma alvorada, um crepúsculo, um cantar de pássaros, sentir a beleza de uma flor, sorrir para a chegada pacífica da noite. Eles estão no fim e, no fim, estas coisas ganham uma notoriedade estranha à juventude.

De repente, vejo-me longe deles, meus passos conduzem-me para um caminho alheio ao do velho casal. No entanto, eles ensinaram-me algo e este algo me torna melhor. Fecho os olhos, sinto a brisa beijar meu rosto e escuto seus segredos e sua poesia – delicio-me com esta caricia gratuita.

Olho, olho para o sol que se põe, o crepúsculo é lindo e mágico. Eu fico tão pequeno diante disso tudo, os problemas ficam tão pequenos diante disso tudo. O casal fica para trás, perdidos nel mezzo del cammim, mas eu sigo com eles... Fica-me a certeza plena que, no sentimento, agora e doravante, seremos iguais!!!

sábado, 12 de dezembro de 2009

E POR QUERER-TE TANTO ASSIM...


Meu amor, minha vida,
Não espero muito de ti.
Não quero que espere mais de mim.
Que façamos um pacto então...
Pois nossas expectativas estão nos estragando...


Sejamos no alvorada, como anjos!
Sejamos no crepúsculo, dois demônios:
incubo, súcubo,
Que não conhecem quaisquer regras,
Que não possuem quaisquer outros desejos,
Que não seja buscar uma nova forma de amar!


E, se assim estivermos combinados,
Oscule meus lábios demoradamente.
Tomarei sua mão com carinho.
Tocarei seu coração com sentimento.
E no ocaso, sem acasos,
Tomarei seu corpo com volúpia.
Invadirei você com sofreguidão.
Conhecerás o melhor de mim!
Conhecerás o pior de mim!
Amor e ódio, pura energia, penetrando sua feminilidade!
Amor e ódio misturando-se sem fim!
Amor a mim por saber amar-te tanto assim...
Ódio a mim por só ter um coração para querer-te enfim...

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

BRAVO NOVO MUNDO

O guri colou o rostinho na janela e ficou olhando para dentro como se visse um admirável mundo novo.
Lá dentro, o profissional trabalhava atento em seu ofício.
Olhou para o lado, viu o guri.
O guri olhou para ele, sorriu, fez um sinal de positivo.

Ele ficou olhando para aquele rostinho inocente – a inocência, pensou, é uma qualidade humana que jamais cresce, ela vive na Terra do Nunca, ela não conhece a fase adulta. A inocência nasce com a infância e perece com ela, num dia qualquer, quando o tempo e o destino decretam a chegada da adolescência, a porta de entrada da fase adulta no homem.

O guri não disse nada, somente ficou ali entretido em suas picardias, embalando-se por gestos juvenis – a imaginação de uma criança é sempre algo mágico.

Acontece que o guri estava à porta da cadeia, dia de visitas de crianças e, breve, entraria para ver o pai, preso e bandido.

Oh! Que doce filtro é a inocência, pensou o homem.

O guri não via a cadeia, não via o bandido nem o preso, para ele havia somente o pai, pai que logo iria ver e isso merecia sorrisos e sinais de positivo distribuídos à revelia, mesmo que para estranhos.

Daí a pouco, surgiu a mãe e o catou pelo braço, deu-lhe uma bronca mal educada e em uma atitude truculenta saiu arrastando o guri.

O pequeno partiu, arrastado pela mãe, sem entender muita coisa, acatando essa autoridade grosseira. O homem ainda pode ver quando seu rostinho pueril voltou-se para trás e com o braço solto, ergueu-o e despejou um novo sinal de positivo. Ele, por sua vez, retribuiu o sorriso e o positivo querendo e torcendo para que o tempo e o destino prolongassem a inocência naquele corpo infantil. Porque um dia, ele sabia, o guri acordaria numa manhã qualquer, igual a tantas outras na aparência, mas, ao se levantar e encarar a vida, veria tudo diferente do que sempre lhe foi.

A cadeia seria para si cadeia.
O pai seria um preso e um bandido.

E suas necessidades seriam outras e lhe impulsionariam para um novo estágio em sua existência!
Quiçá, pensou o agente, que as novas expectativas não o levassem para estradas outras cujos caminhos o trouxessem às portas da cadeia, torceu e rezou para que isso não acontecesse. Quando a inocência se vai e chega a realidade nua e crua, é necessário uma série de valores e qualidades no caráter humano que somente um bom berço e educação proporcionam para ocupar o lugar da ingenuidade que se afasta.

Um amigo carrancudo e estressado com o trabalho árduo passa à porta de sua sala, para por um momento. Ele olha para o colega sombrio, dentro de seus olhos, profundo, longamente, solta um sorriso franco e generoso e descarrega um positivo. O colega fica surpreso e se afasta sem nada dizer. Sente dentro de si, um lampejo de inocência remexer-se dentro de si. O guri desapareceu nas entranhas da quimera, mas deixou consigo um pouco de sua inocência...



Ilustração escolhida a esmo na internet, não identificado autoria.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

CAÇADORA DE BORBOLETAS




Não perguntes jamais onde estou.
Esta é a pergunta que jamais deverá ser feita.
Aliás, no que tange a mim (e a você)
Não queria perguntas ou indagações.
A incógnita já é uma argamassa da vida
E não quero edificar nosso relacionamento
Tendo como viga mestre um ponto de interrogação.
Não corras atrás de mim,
Como se fosse uma caçadora de borboletas,
Reduzindo-me a condição mesquinha de tua presa.
Sejas você, unicamente,
Sejas jardim,
Os jardins não vão até as borboletas,
As borboletas é que voam até os jardins!
Atraídas,
Capturadas,
Não por redes ou armadilhas,
Mas pelo seu encanto natural.
É isto tudo o que quero contigo,
Não quero ser aprisionado,
Nem fazer do estar junto contigo
Um estado de compromisso.
Quero estar contigo pelo prazer de estar,
Sendo o estar junto algo tão natural
Como o vôo das borboletas para os jardins,
Sendo o estar junto algo tão natural,
Que nem mesmo é uma decisão minha
- ou mesmo tua! –
É uma decisão da nossa natureza.


Não perguntes então onde estou...
Para todos é uma pergunta vazia,
Tola e despretensiosa.
Para mim não...
Machuca-me!
Ela mostra-me tua incapacidade de ver
O único lugar nesse mundo
Que eu gosto e quero estar:


- Dentro do jardim que é o teu coração!


Ilustração: Óleo sobre tela, Quadro Caçadora de Borboletas (1904), de PEDRO WEINGÄRTNER

domingo, 6 de dezembro de 2009

VALQUÍRIAS


Minha visão está turva.
Sinto a cabeça rodar maluca.
Na minha boca sinto um grito estranho e vermelho,
Minha pele queima e não há fogo.
Pergunto-me de minhas pernas.
O vento que me toca não traz alento.
Meu coração tímido é quase inaudível.
Ouço uma voz aveludada me chamando,
Possantes cascos de cavalos ribombam pelas nuvens...

(Então é assim que nascem os trovões?)

A voz se aproxima mais e mais,
A Valquíria vem me buscar...
Vejo seus cabelos negros e abundantes
Caírem sobre seus ombros,
As pernas longas e torneadas,
Os seios redondos e fartos,
Como és linda tu, Valquíria! Como és linda!
Ela estende-me a mão e levanta-me.
Não há mais dor, não há mais medo.
Monto na anca de seu alado cavalo branco e partimos.
Das nuvens te vejo...
Num delírio de morte, grito seu nome.
E abraçado a Valquíria sigo para Valhalla...

... Sem que você me ouça!




VALQUÍRIA: Na mitologia nórdica, as valquírias eram deidades menores, servas de Odin. As valquírias eram belas jovens mulheres louras de olhos azuis, que montadas em cavalos alados e armadas com elmos e lanças, sobrevoavam os campos de batalha escolhendo quais guerreiros, os mais bravos, recém-abatidos entrariam no Valhala. Elas o faziam por ordem e benefício de Odin, que precisava de muitos guerreiros corajosos para a batalha vindoura do Ragnarok. (Wikipédia)

VALHALA: na mitologia nórdica ou escandinava é o local onde os guerreiros vikings eram recebidos após terem morrido, com honra, em batalha. (Wikipédia)

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

ACORDE, MEU AMOR!



Meu bem acorde,
Eu cheguei agora...
No vento!
Vim com as folhas,
No sopro da noite.
Sinta a brisa enlaçar
Seu corpinho quente
E delgado,
Sou eu meu bem!
Sou eu a te abraçar
No vento!
O sol ainda não saiu,
Ainda há estrelas no céu.
Venha comigo meu bem,
Vou te levar ao céu,
Num vôo com o vento.

Meu bem acorde!
Eu cheguei agora...
(louco de amor!)
No vento!

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

EM BUSCA DO TEXTO ABENÇOADO



Procurava o texto como se buscasse o ultimo fôlego,
Aquele golpe de ar que lhe restituiria a vida,
Que lhe encheria os pulmões desta doce atmosfera que nos impulsiona,
Que lhe entupiria os dias todos com novas possibilidades.
A vida abre novas alternativas sempre...
Mas nunca são fáceis estes textos, eles são únicos e soberanos, são arredios e selvagens, não se domesticam.
Todos os grandes autores já tiveram um encontro com eles,
Um raro e fortuito encontro,
E suas vidas ficaram marcadas com o signo da posteridade.
Um texto assim é divino, cheio de bênçãos.
Não o se colhe em um jardim como se fosse uma rosa.
Nem o se compra a preço algum.
Estes textos são dedicados aos amantes das letras e poesias,
Oferecidos para aqueles que se tornaram merecedores pela sua própria sensibilidade,
Pela sua capacidade de ver e ler a vida sob o filtro da poesia.
Caiu de joelho, então, e rezou.
Não pediu ouro, nem pedras preciosas.
Não pediu títulos de nobreza ou poder incomensurável.
Pediu para saber enxergar a poesia ao seu redor,
Pediu unicamente um texto.
Um texto que a exaltasse, a comemorasse, que fizesse dela uma mortal um anjo, e que aos céus a ascendesse.
Um texto que desmascarasse todas as belezas de seu coração
E mostrasse a todos o jardim de virtudes que ele enxergava nela.
Um texto que a eternizasse,
Que falasse de amor e a amasse,
Um texto cuja leitura fosse o eco das batidas de seu coração.
Pegou papel, caneta, suspirou profundamente.
Escreveu o nome dela e seu nome fulgurou-se.
Escreveu enfim, não palavras, que eram poucas e tolas...
Escreveu seus sentimentos.
Sabia antes mesmo de tudo, que o texto abençoado ainda não lhe fora agraciado,
Entretanto, ao entregar o texto para sua amada,
Ela o leu carinhosamente, chorou, beijou-lhe e entregou-se para ele de uma forma delicada, poética.
Estava feliz mesmo assim...
Saberia esperar pelo texto definitivo à sua amada!

domingo, 29 de novembro de 2009

A ROSA E O BEIJA-FLOR



O beija-flor flutuou em volta de si mesmo,
Olhou a sua volta e o jardim estava florido,
A primavera lhe sorria com seu
Rosto mais belo e jovial.
Num canto do jardim,
Uma rosa mostrou-se-lhe!
Cores bonitas e vibrantes,
Pétalas macias e aveludadas,
E despejou no ar o mais perfumado
Dos eflúvios que se fora sentido.
O beija-flor encantado aproximou-se
E fez a corte para a linda rosa!
Ela se abriu ainda mais,
Voltou-se-lhe toda para ele,
Deu-lhe um sorriso e pediu:


- Sejas meu! Serei somente tua!


O beija-flor bateu excitado suas asinhas,
(Poderosas asas!)
Mais que encantado
Estava inebriado pelo perfume
Da bela rosa, e respondeu:


- Serei teu! Sejas minha!


E beijou a bela rosa
No fundo, no profundo
Da alma da bela flor!


Ela agitou-se num espasmo,
Excitou-se com o toque intimo
Do amado... E...
Teve um orgasmo!


... E o beija-flor bebeu cada gota de seu néctar!

sábado, 28 de novembro de 2009

O DIA QUE NÃO TERMINOU...



Pai amanheceu...
Acordou cedo
Saiu para o trabalho.
Levava nos braços
A marmita,
O bom dia nos lábios.
No serviço
Não apareceu...
Reclamaram depois!
Pai andava doente,
O fígado mal tratado,
O coração cansado,
A bebida, o vício,
Rachava-o em dois!
Passou o dia fora
Ninguém soube onde foi!
Depois o telefonema!
Lágrimas nos olhos!
Num bar qualquer...
Pai não anoiteceu!

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

O HOMEM QUE SE APAIXONOU PELA NASTASSIA KINSKI

(Segunda versão / Para o blog)

Era um sujeito que passou a vida a suspirar amores pela sétima arte. Quando assistiu “Um corpo que cai” perdeu-se em suspiros pela Kim Novak. Alguém lhe falou um dia que preferiria a Greta Garbo, rosto duro e sensual. Ele zombou, para bater a Greta em beleza, exclamou, bastaria a Ingrid Bergman, nem precisaria da Ava Gardner. Mas seus amores, quer por Bergmann, quer pela estonteante Kim, passaram, como sempre passou seus amores enlouquecidos de sessão da tarde. Bastava ver um novo filme, e pronto, lá estava ele pelos cantos, a suspirar poesias, exalando olhares profundos e lânguidos pelo vazio, escrevendo cartas demoradas que nunca seriam entregues, sonhando encontros impossíveis em todas as partes do mundo com as mais diferentes atrizes. A mãe nunca se incomodou muito, sabia que tudo duraria até a próxima locação de VHS.

E o próximo veio e chamava-se “A marca da Pantera”, um misto de “Noir” de suspense e “thriller” que trazia em seu “cast” de estrelas, a belíssima Nastassia Kinski. Viu e reviu o filme dezenas de vezes. A nudez de Nastassia decorou-a com os olhos. Conhecia cada curva de seu belo corpo escultural. Aprendeu a conhecer todas as falas da película, o roteiro lhe era intimo. O corpo nu de Nastassia que na tela caminha lentamente em busca de um destino incomum, para não dizer bizarro, em seus sonhos caminhava para sua cama. Amou-a que ficou fraco e teve de ser internado pela mãe que pela primeira vez na vida, começava realmente a ficar preocupada com estes amores absurdos do filho pelas mulheres da tela grande.

Nas noites, sonhando chamava por Nasty, assim chamava-a carinhosamente, tamanha era a intimidade que ele havia estabelecido com ela em seu universo psicodélico.

A mãe desesperou-se. O filho enlouquecera de vez. Foi quando alguém teve uma boa idéia. De algum lugar apareceu um vídeo cassete. De outro, veio uma cópia do filme “Gilda”. Ele o assistiu com descaso inicial, mas, quando viu o strip-tease de Rita Haywoord, strip que não tirava nada mais que uma luva, estava enfurecidamente apaixonado por ela. Quando perguntado sobre Nastassia, disse que sentia muito, mas os amores de verão são mesmo assim, são como a brisa que corteja nossos corações, areja, areja e se vão. Ela saberia entender, havia encontrado o grande amor de sua vida: Gilda! E rebobinou a fita novamente...

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

O PSICOPATA


Chegou do seu julgamento vestindo a mesma face que teria se houvesse feito uma visita dominical à praça da cidade. Era o seu quarto ou quinto júri que participava, todos eles por homicídios qualificados, em todos eles condenado.

Mas, o monstro que demonstrava ser na liberdade, no presídio domesticava-se. Era tranqüilo, calado, não oferecia problemas, era quase educado e gentil. Tinha um bom linguajar e conseguia conversar naturalmente com os mais variados tipos de pessoas que freqüentava-lhe o caminho, sabia, enfim, isto sendo uma notória qualidade dentro da cadeia, colocar-se em seu devido lugar e lá ficando até ser solicitado.

Chegou elegante, cabelos penteados, o juri fora célere (com ele era sempre rápido), provas cabais, contundentes demais, na maioria das vezes réu confesso. E, para ele, tanto fazia quanto fez, já tinha mais de cem anos em regime fechado nas costas, qualquer coisa que se adicionasse a esse montante não lhe faria maior diferença – no final de tudo, ele sabia, seriam 30 anos de cadeia, e pronto!

O homem perguntou-lhe, sem maiores interesses, qual havia sido o resultado do júri.

Sem menor interesse ainda, respondeu que fora condenado a 21 anos no regime fechado no homicídio e a 10 na tentativa.

Humor negro! O sujeito questionou-lhe o porquê da vitima da tentativa ter conseguido sair vivo...

Ele olhou dentro dos olhos do questionador e respondeu:

- A minha parte eu fiz... Meti seis tiros no couro do sujeito e ele escapou... Fazer o que... Couro duro...

Sorriu. Virou as costas, entrou em sua cela, desapareceu na escuridão do cárcere.

Ao se virar para ir embora, num ultimo relance, o questionador vislumbrou um brilho estranho e bestial no olhar dele, que se extinguia... O brilho que se vê nos olhos do predador prestes a atacar a presa. Teve a nítida certeza, não se domestica espíritos selvagens...



Foto: Norman Bates (Anthony Perkins, em Psicose, de Hitchcock) / Foto meramente ilustrativa que não se vincula diretamente com o texto. Uma singela homenagem ao ator que deu vida ao maior psicopata que o cinema conheceu, em minha modesta opinião.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

A GRANDE FACE DO MUNDO



Sinto um estranho ímpeto de correr
De encontro à grande face do mundo.
Quero sentir o mundo inteiro em minhas veias,
Quero senti-lo na primeira batida de coração
Que me foi percebida neste dia,
Quero tê-lo na derradeira,
Na ultima ribombada coronária
Que impulsiona um homem
Para o além,
Àquele exato momento onde
Verdade e homem se encontram
E tornam-se únicos!
Eu quero encarar esta cara cafajeste
Deste grande mundo inventado pelo homem.
Quero poder lhe dizer todas as verdades
Que tenho vontade de falar,
Quero subverter a sua ordem,
Quero subverter a minha própria ordem,
Quero quebrar os protocolos,
Essas correntes que me foram colocadas
Quando as minhas pernas
Ainda não eram fortes o suficiente
Para enfrentar este grande encontro.
Não existe rancor em meu coração,
Assim, não existirá em minhas palavras.
A verdade carrega esta magia,
A verdade não conhece rancores.
Os rancores se produzem com mentiras.
Não irei para este encontro
Com a grande face do mundo,
Vestido de mentiras e falsidades.
Serei eu... Eu.... Em toda a minha essência,
Assim como fui um dia,
Puro e descontaminado de civilização,
Envolto na poesia original
Que habita o coração do homem
Que ainda é criança!


Isso, isso é que eu serei
No dia do encontro
Com a grande face do mundo:


Serei criança novamente!

domingo, 22 de novembro de 2009

A FORMA COMO TU ME QUEIRAS

Não me queiras, se em teu querer buscares algo que existiu em teu passado. Não quero ser para ti, nem para ninguém, uma comparação, uma busca, um encaixe para uma lembrança de amor. Não quero ser alternativa. Recuso o papel de similar, de parecido, de genérico.

Não me queiras como bonitinho e gentil, este papel é fútil demais para mim.

Me queiras de uma forma original, de um jeito que não quisestes antes, que não tivestes antes. Sem comparações, sem procuras, sem receitas prévias.

Dispa-se primeiro, antes de vir até mim.

Não te quero com os vícios dos seus antigos amores, nem com teus sonhos já usados e gastos.

Renove-se, por completo.

Quero-te virgem, em sentimentos.

Quero-te com novas buscas, novos sonhos, novos desejos, livro em branco pronto para ser escrito, sem medos, receios, desejosa de amar e ser amada, diferente... Diferente...

Porque é tudo o que te prometo – o diferente!

Não quero ser melhor que outros! Quero ser melhor para você!

Não vou seguir fórmulas, o amor não dá para guardar dentro de uma redoma.

Nosso amor vai ser feito leal e fielmente, dia após dia, olho dentro do olho, com meu coração afagando o seu coração... Assim, simples, sem maiores construções.

As grandes expectativas estragam o amor. O amor, minha querida, prefere o ingênuo, por isso, te ofertarei o simples:

Meu coração, para te abrigar!

Meu amor, para te dar generosamente...

... E todos os meus dias para você!

O resto, a gente conquistará juntos...

CONVERSA, CACHAÇA E HISTÓRIAS


Os velhos homens
Sentados ao balcão
Conversam...
... E entre copos de
Cachaça e conversa fiada
Eles relembram o passado.

O passado e suas tristes histórias.
O passado e suas alegres histórias.

E eles riem e gargalham
De causos antigos,
De memórias esquecidas
E pelo álcool agora remexidas.

E no crepúsculo,
Quando um olho sóbrio
Relembra as responsabilidades.
Lá se vão eles
(os velhos homens)
Afogando suas vozes
Na poeira da rua, e
Levando embora com eles
Suas velhas histórias...



Ilustração: Van Gogh, Quadro “Café noturno da casa Lamartine de Arlés”

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

O VELHO LIVRO DE POESIAS



Você se levanta
Cobre sua nudez com um
Tecido de seda e
Prepara seu café da manhã.
Na gaveta do quarto uma
Carta nunca lida,
Na estante um velho livro
De poesias empoeirado e
Amarelado pelo tempo inerte.
Sua cabeça voa longe!
Seus valores hoje são outros,
O passado você guardou com as
Cartas numa gaveta e...
Trancou-a!
As pessoas que lhe rodeia
Trouxeram-lhe outro mundo,
E sem que percebesse,
Você foi tragada por ele.
Você se levanta,
Por um breve momento,
Seu olhar alcança a estante
E o velho livro...
No seu coração,
Uma velha recordação
Empoeirada e cansada
Pelo tempo inerte
Aguarda o momento
De seu despertar...

terça-feira, 17 de novembro de 2009

O HOMEM E O ESCRITOR


Não consigo mais parar de escrever.
É mais forte que eu.
É uma necessidade endógena,
Uma forma de expressão espiritual,
Um carinho em todas minhas carências.
E quem escreve, como eu escrevo,
Quer agradar de alguma forma.
Não é vaidade, é inapto à própria escrita.
Que pai não quer que seus filhos
Tenham suas faces belas?
Ao escrever me pacifico!
Ao escrever sou solitário,
Um eremita no alto de sua montanha.
A escrita me torna conhecido,
Divulga minhas idéias todas
Impregnadas de poesia.
Minha escrita é um arauto da poesia.


Pela escrita...
Eu falo.
Sou ouvido.
Sou aceito.
Sou respeitado,
E até mesmo contestado.
Pela escrita eu me insiro e participo.
Eu sou um, e sou a multidão.
E, ao escrever, fico distante,
Recolhido e sossegado
Em meu canto claro como dia de sol.
Pela escrita uma parte de mim
Quer as estrelas,
Mas outra, mais real,
Quer minha varanda e minhas cobertas.
Que se exalte o escritor!
E o homem fique esquecido
Na pacata sacada de seus poemas...


Foto: Silvia Afonso / olhares.com

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

O HOMEM QUE PARTE


Parti...
Segui para a cidade grande
Fugindo de problemas
Que nunca esperei ter...
(E quem espera ter?)
E quem espera ver,
Seu amor,
Seu único e verdadeiro amor,
Dizer-lhe não:
Não ao mais fundamental,
Não ao que é mais natural,
Que é amar e ser amado.


Parti...
Não consegui resistir!
Fui esconder na cidade grande,
Tudo o que as evidências
Insistiam em me mostrar...
Que perdi... Sem sequer combater!
Que perdi... Sem saber que estava vencido!
Ingenuidade?
Simplicidade?
Confiança?
Como saber?
Talvez um pouco de tudo...
Talvez nunca houve nada...
E o que me resta senão indagar?
Questionar onde errei...
Pois, pelo que sei,
Simplesmente paguei
Por querer ser justo!
Por querer ser amigo!
Por amar demais...

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

A FUGA




Fugiu-nos a juventude, meu amor!
Escapou-nos por entre os dedos,
Areia ao vento.
E achávamo-nos tão jovens.
Acreditávamo-nos eternos.
Quão tolos fomos!!!
Quanto tempo desperdiçamos,
Tesouros jogados ao mar.
Felicidade perdida, esquecida,
Que um buraco chamado passado
Engoliu em suas entranhas...

A MAIS LINDA ENTRE TODAS QUE NUNCA VIU


Ele não a viu quando ela entrou.



Quando despertou de suas divagações pelo mundo já a ouvia, ela sentada no banco da frente. Conversava com um sujeito qualquer. Falava da filosofia da vida e de toda a existência, questionando porquês e “aondes”. Debatia sobre política e direito. Extasiada falava de literatura russa, de pinturas e seus grandes mestres, falava de música e de cinema, sobretudo os clássicos, debatia sobre arte em geral.



Ele ficou encantando num primeiro momento, apaixonado no imediato instante seguinte. Amou sua sensibilidade, sua inteligência, sua visão de vida, sua posição firme e obstinada sobre todas as coisas, sua personalidade, seus sonhos, seus ideais, amou tudo isso de uma forma tão natural que quando se apercebeu, estava capturado por este sentimento.



A viagem prosseguia, e o colóquio na frente não cessava, ele atrás, no banco detrás, idolatrando cada expressão que ela evocava em suas frases cuidadosamente construídas, como se ela fosse a profetisa e as palavras suas súditas fiéis.



Mas quis a noite se enciumar dessa paixão súbita e avassaladora e então, convocou seu irmão para que fizesse uma missão ardilosa. Morpheu, atendendo este chamado, traiu Eros e atingiu o jovem apaixonado com um sono pesado que como se fosse um corcel alado, o conduziu estrada afora, embalando-o nas asas do vento.



Quando ele acordou, a noite ainda sobrevivia e o acariciava suavemente.
Silêncio.
Levantou-se, olhou para o banco da frente. Vazio!
Ela havia partido, pensou...




Tudo o que havia era o vácuo, a certeza de que ela ficará para trás, no caminho, em sua vida, no passado.
E o pior é que não sabia nada dela. Nada... Nada...
E isto, não era importante para ele. Ele se apaixonará pela essência de mulher que ela houvera lhe inspirado.



Sentou-se novamente e fechou os olhos, recapitulou as palavras e as idéias que se lembrou que ela havia dito e que ressoaram como ecos em sua consciência.
Feria-lhe uma certeza que nunca mais veria aquela que nunca viu. Feria-lhe uma certeza que estaria eternamente apaixonado por ela...



Mas tinha também a confiança de que nunca mais a esqueceria, e seria ela para sempre, doravante, o modelo de mulher que buscaria em todas as outras, ela havia se tornado a sugestão feminina ideal em seu intimo masculino.



Quando o sol surgiu expulsando a noite matreira e ciumenta, encontrou-o perguntando-se se ela houvera existido de verdade ou se tudo não fora apenas um sonho.



A noite e Morpheu haviam lhe deixado a sensação de que se apaixonará por um sonho... Um sonho de mulher...



Chegou ao seu destino, levantou-se e partiu, esquecido de sonhos e mulheres perfeitas, esquecido de si próprio e do amor lindo que poderia ter vivido se tivesse tido a chance...



Somente quem chorou de verdade, foi Eros, sentado no monte Olimpo, observando a mulher que descia do ônibus logo atrás dele, nas mãos um livro de Dostoévsky, na bolsa a coleção de filmes de Hitchcock, no coração feminino a vontade de viver um grande amor...

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

FRAGMENTOS DO DIÁRIO NUNCA ESCRITO POR MIM


[...] E, lembrei-me de você, agora, quando a brisa da noite veio delicadamente e assoprou-me o nome ao pé do ouvido:


- G...i...l...b...e...r...t...o....



Meus instintos todos afloraram...
Meu sentimento maior e lindo por você desabrochou!
Fechei meus olhos por um instante e construí você em minha lembrança. Beijei esta lembrança dentro da noite...
Senti a brisa afastar-se, mergulhando na noite, amalgamando-se à noite, deixando-me um fogo por todo o corpo. Em algum lugar, eu soube, um beijo meu espalhou-se em seus lábios...

terça-feira, 10 de novembro de 2009

CARTA QUE EXPLICA (sem grandes pretensões) O AMOR


Mon amour

Cobras grandes coisas do amor.
Queres que ele te passe um papel passado com firma reconhecida e autenticado no cartório, de que tudo vai dar certo, enfim...
O amor não é assim, ele definitivamente não é assim...
O amor nunca vem como um produto acabado, ele não é feito em uma escala de produção em série, e a receita de um nunca será igual para o outro.
O modelo de produção do amor, mon amour, é exclusivamente artesanal, e a fórmula de se fazer um nunca se reproduzirá fielmente em outro caso. Porque as pessoas são diferentes, as pessoas têm valores e perspectivas distintas, todas elas esperam coisas díspares no amor, então, não se reproduzirão receitas no amor.
Vou te dizer uma coisa e esta é a única verdade que poderá conhecer nesse terreno onde as pessoas se perdem todos os dias.
Não espere de mais, nem de menos, do amor.
Sejas humilde.
Sejas perseverante.
Tenhas esperança e otimismo sempre constantes.
Ainda que teu coração seja um poço de lágrimas em teus lábios sempre deve resplandecer um sorriso.
Acredite no amor e em teu amado. Acredite em você.
Respeite, e sejas respeitada.
Confies, e sejas confiante.
Sejas cúmplice, amiga, companheira, fiel, alegre.
Quando ele estiver caindo, sejas para ele a pedra que o impulsionará para ir além das capacidades dele.
Conheça todas as fraquezas dele, mas lhe mostre somente suas forças e potencialidades.
Não sejas os pés, nem a cabeça, sejas a costela e o coração do relacionamento.
Faça as cobranças que devem ser feitas, quando as cobranças forem realmente justas de serem realizadas – não invente problemas, os problemas são como mato, uma praga dentro do relacionamento que tem de ser constantemente capinados. Os capine, então!
Olhe-o sempre nos olhos!
Sejas verdadeira, fale o que precisa ser dito!
Sejas educada, gentil, feminina, uma lady.
Sejas uma leoa ferida, selvagem, para defender o que é teu e está sendo ultrajado.
Com o amor de tua vida, na cama, entre quatro paredes, sejas uma deliciosa messalina.
Entregue-se com paixão ao amor e em tudo o que fazes...

E não cobres tanto do amor, mon amour, não cobres!
Vais oferecer mais do que receber, para quem ama é mesmo assim.
O amor tem seu tempo e ele acontece quando estiver pronto.
Apenas sinta, e ame! Entregue-se totalmente, se doe, sejas para ele tudo aquilo que queres que ele seja para você.
No final, podes se machucar, podes, oh como podes!
Nada é garantido, principalmente no amor.

Mas, poderá se olhar no espelho e dizer-se: Eu fui a melhor possível como amante, como amada, como amiga, como mulher...
Se não aconteceu, mon amour, é porque não era para acontecer... simplesmente!
Talvez, o tempo de teu amor não tenha chegado ainda e tudo o que houve foi um aperfeiçoamento.
Na hora em que teu amor verdadeiro chegar... Estarás pronta para ele.... Pronta!

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

QUANDO A CONSCIÊNCIA SE CALA...


Estranhamente, todos dormem...
... E sonham!


Sonham com cruzeiros, mares, safaris,
Sonham com mesas fartas,
Mulheres fartas.
Sonham com sorrisos de criança,
Com o gemido de amor de uma mulher
Após esta ser tocada por um toque sensual.
Sonham em correr contra o vento,
Senti-lo frio no toque do corpo;
Sonham com areias aos pés,
Com banho de rio e cascata.


Estranhamente, todos dormem...
... E sonham...


Estranho é esse bicho
Que no homem chama-se consciência.
Bicho que, por vezes, se afasta,
Tranca-se em exílio,
Domestica-se...


É mesmo assim então...


Neste lugar, a consciência
É a primeira a enclausurar-se...


... E quando a consciência se cala...
... Os brutos ACORDAM!!!

domingo, 8 de novembro de 2009

VIVENDO DE LEMBRANÇAS



Ainda me é fresco na memória
O contato do seu corpo sobre o meu.
Ah! Nessas horas me perdia num abismo,
E só queria o beijo seu!




E a noite sempre eterna e majestosa
Se iluminava quando fazíamos amor.
Até mesmo as estrelas se ofuscavam
Pois tudo era feito com ardor.




Não havia mais nada a dizer,
Nada mais para falar.
Eu só queria você, você e você,
Cada vez mais te amar.




Agora desperto dos meus sonhos,
Doces pensamentos de pura ilusão.
Você não vive no meu presente,
É de passado que se enche meu coração.




Porém existe sempre o consolo,
Que é só você que sei amar,
E recorro as minhas lembranças
(sempre elas!!!) Para me consolar!

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

A TRAGÉDIA DA LAGARTIXA


Estava varrendo a calçada quando uma lagartixa morta chamou-me a atenção. Ela já estava quase desmembrada, pois sofria um ataque maciço de formigas. Observei a cena toda, o corpo da lagartixa estava sem o rabo, e este, estava a um meio metro de distância, impávido, incólume. Sei que isto é um truque de defesa deste pequeno réptil, ela desprende completamente seu rabo que fica saltando sob espasmos musculares de um lado, enquanto ela dá uma de “leão da montanha” e escapa pela outra direção. Geralmente dá certo, mas, para esta, infelizmente, não houve sucesso.
Fiquei pensativo, sobre o que teria acontecido com a pequena lagartixa, que terrível mal, quão grande tragédia houvera abatido sobre ela que lhe tragará a vida?
Será que sofrerá um ataque poderoso e estrategicamente militar das formigas que a cercaram e a deixaram-na sem saída?
Será que estava inadvertidamente pensando em alguma lagartixa fêmea e não viu algum humano passando por ali e sofreu uma pisada fatal?
Morreu de velhice?
Suicidou-se por amor, atirou-se de cima do muro embaixo da roda da bicicleta de uma criança?
O que terá acontecido com a pobre lagartixa?
Fiquei pensando e não encontrei nem imaginei hipótese que soasse crível.
E as formigas continuavam sua tarefa macabra, a lagartixa praticamente não existia mais, pensei novamente, numa viagem introspectiva e filosófica dentro da maionese: Será que a família desta lagartixa chorou por ela? Sua memória será saudada por dentre os anos? Alguma outra lagartixa derramou uma lágrima por ela? Existe um paraíso para as lagartixas?
Arre! Quantos questionamentos, a vida é mesmo complicada para os humanos e para as lagartixas...
De repente, olhei para o lado e vi a MÉL (nossa gatinha de estimação) se espreguiçando toda.



Hummmmmmmm.....



- Mél, terias coragem de assassinar uma lagartixa?



Os olhos dela brilharam como se me compreendesse...

TEU CORPO



Caem-se as peças de teu vestuário,
Uma a uma,
Lentamente,
Revelando toda a beleza furiosa
Deste teu corpo matreiro e fogoso.


Ah! Teu corpo...
Teu corpo concebido de relevos
De curvas
Do calor incandescente dos vulcões.


Teu corpo é cascata,
Água fresca e cristalina.
Brisa que esfria o sol,
Sol que esquenta a brisa.


Teu corpo é verão,
Queima sem machucar.
Teu corpo é jardim,
Rosa, margarida, jasmim.


Teu corpo é adaga,
Fere nossos olhos,
E ressuscita nossa visão.
Ao desejá-lo...
...e o desejamos....


Ah! Como o desejamos.....

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

O ERGÁSTULO E O FLAMBOYANT

Dirigia pela rodovia quando vi à minha direita o ergástulo(*), uma massa gigantesca de muros, concreto e grades, feita para conter em suas entranhas o homem.
O homem bruto e rude.
O homem impuro e iníquo.
O homem criminoso e aquele que errou.
A penitenciária é um universo underground, é o subterrâneo da sociedade. Ela é o ultimo portal da decência.
Pensei em todo o sofrimento que aqueles altos muros deveriam reter; pensei na tolice que cega a razão e o coração dos homens que insistem em enveredar por uma senda que não conhece justiça e que os leva para um abismo de dor, de dor.
Mas, na entrada do ergástulo, algo me chamou mais a atenção, erguia-se uma árvore flamboyant, digna e viçosa e, esta, alegre, comemorava a primavera com uma florada paradisíaca. Toda a sua copa, enorme por sinal, estava completamente florada e a cor laranja das flores enquadrava-se ao muro do presídio, que de longe, sisudo, tudo assistia. Quadro insólito!
Parei o carro, detive-me por um momento. Ainda me permito esses arroubos de sensibilidade e as comemoro efusiva e internamente. Aprecio isso em mim, confesso, e, quando estas epifanias me assaltam, sinto-me melhor, mais feliz, mais humano. Não escondo que flerto com elas, as epifanias, essas visões súbitas que me apontam seus dedos à minha face e clamam-me! Atente! Poesia!
E eu bebo esta poesia que a vida me dá (nos dá) gratuitamente, sorvo delicadamente cada gole como se cada um deles fosse o ultimo de minha vida. Eu sou pequeno, reconheço, aos olhos do mundo. Mas isso não me incomoda, minha poesia me faz diferente, me faz maior que eu mesmo.
O flamboyant florido sugeriu-me um discurso que gostaria de recitá-lo em versos e rimas para o mundo inteiro. Deixem-se todos levar-se pela poesia, a poesia da vida, da sensibilidade, que nos faz perceber as belas e pequenas coisas que nos cercam. As verdadeiras emoções estão aí, atreladas às epifanias e as visões repentinas que cercam estas pequenas coisas e que a vida nos oferece a todo instante.


Cheguei frente àquela bela árvore florida e sua beleza me cativou, encantou, tornou-me pequeno. Via a árvore, suas flores, sua abundante cor laranja acariciando-me os olhos, a poesia é alaranjada, pensei! Um suave perfume desprendia-se dela, respirei fundo aquele ar fresco, perfumado e energizado. O sol quente lembrava-me que a tarde estava em seu ápice. Senti-me livre, livre, livre... E, mais além, o símbolo maior da ausência da liberdade, o ergástulo, a prisão. Quadro insólito!
Pensei nos muitos homens lá dentro, presos, desprovidos da capacidade de sentirem a liberdade em sua essência e mesmo na aparência. Para muitos, a liberdade é somente uma aparência. Tive a certeza de que, mais dias, menos dias, muitos homens sairiam por aqueles poderosos portões e a liberdade lhes sorriria e abriria para eles os gentis braços outra vez. Mas, a maioria deles, tanto lá dentro, quanto aqui fora, jamais seriam livres em total plenitude, porque a liberdade verdadeira ergue-se sobre dois alicerces magnânimos: a sensibilidade e a simplicidade. A maioria dos homens, acreditem, vêem tanto um quanto outro como fraqueza, condenam-se a viver uma liberdade aparente, oca, vazia. Estão presos em sua insensibilidade...
Não vou condenar ninguém!
O flamboyant florido de laranja não condena!
Aquela árvore tão linda ao emprestar para um lugar que somente conhece dor e sofrimento, a beleza de seu sorriso mais belo e laranja, ela o redime e convida para que todos vejam:
- Atentem! Poesia!
Quiçá que a liberdade dos homens os façam enxergar e apreciar a poesia do flamboyant e, serem assim, efetivamente, livres, livres!

(*) Ergástulo público = Cadeia pública