quarta-feira, 25 de abril de 2018

O SABOR DA VIDA



Todos os dias saía pela manhã em direção da academia.
Passava em frente a uma casa onde um casal de idosos tomava o sol das manhãs.
Notava-se neles a cumplicidade que se constrói dentro dos muitos anos de convivência solidária, olhar para um, era como perceber o outro, como se o envelhecer juntos houvesse construído no outro a imagem do primeiro.
Esta é a melhor maneira de envelhecer – juntos!
Esta arte os dois pareciam dominar como poucos.
Ele passava e os olhava de uma forma muito especial.
Todos os dias era um ritual passageiro e ligeiro.
A vida é mesmo acelerada.
Olhava para ambos, que retribuíam o olhar de expectativa que o passante lhes dirigia.
Havia no homem que passava uma alegria e uma coisa boa que eles próprios não conseguiam explicar.
Para que explicar?
Existem coisas que são melhores quando não merecem e não respeitam definições acadêmicas – estas coisas foram feitas apenas para serem sentidas, assim elas são apenas absorvidas pelo coração que é sensível e que está atento para as epifanias da vida.
O homem passava e lhes dizia um bom dia que vinha de mãos dadas com um Deus vos abençoe.
Eles retribuíam com um amém e quando iam dizer mais alguma coisa, o homem já havia passado.
Ele passava rápido – a juventude é urgente, pensavam.
Para eles a urgência era tolice.
Faziam poucas coisas e as coisas que faziam eram sentidas, catalogadas, todas elas, como coisas importantes de seu dia. Assim, tudo ganhava um sabor diferente, um sentido distinto, viver prestando atenção na vida, mesmo que de uma forma muito simples (e lenta) se tornava algo emocionante.
A juventude é esquecida. Ela não entende disso.
Depois que ele passava, eles se levantavam e adentravam em sua casa.
O sol amigo já começava a ficar zangado e o aconchego do lar se tornava mais convidativo. Sombras também tem seu valor. Quando se envelhece isso fica muito claro, tudo tem o seu tempo.
Eles entravam e aguardavam o novo dia. Sabiam que o homem viria.
E para o passante, que se ia desapercebido do bem que esparramava, ficava no seu coração a alegria de ver os dois, ali todos os dias, um frente ao outro, conversando das coisas antigas que lapidaram sua história.
Enquanto pensava isso, um pensamento sombrio entrou nesse solar de meditações radiantes.
Nem sempre as sombras têm valor...
Um dia, o pensamento sinistro sugeriu, eles não estarão mais lá...
Afastou aos trancos e barrancos tal ideia.
Eles estão lá agora e é isso que importa.
Devemos viver o agora porque o amanhã não nos pertence.
Quando esse dia chegar, pensou, entenderei que a vida é um doce sonho que passa e o gosto que ela deixa é de saudades.

terça-feira, 27 de março de 2018

SONETO QUE CLAMA A DEUS



Não pode existir pedido maior a se fazer,
A Deus, meu Pai, sempre atento e devotado,
Porque riquezas não conseguem satisfazer
O desejo desse meu coração esfaimado.

Meus sonhos terrenos viraram ruínas,
Destruídos que foram em minha conversão
Amar a Deus doravante será minha sina,
Pode haver algo mais belo para um cristão?

Meu anseio maior é que Deus em sua potência,
Saiba que em meu coração nada lhe será segredo,
E que nunca o deixarei por qualquer ciência,

Que caia sobre mim querendo me enganar.
Senhor, seja minha fé um forte rochedo,
Onde meus dias se sustentem para te adorar.  

domingo, 21 de janeiro de 2018

CANÇÃO DO AMOR EXAGERADO


Amo-te dentro de todo o exagero.
Como se te amar fosse um gesto final,
Como se dependesse minha sobrevivência,
Como se depois de ti, meu amor,
Não houvesse mais ninguém,
Absolutamente mais nada,
Somente o vazio das horas mortas.
Não consigo suportar o comedido,
Ele me ofende.
O moderado não consegue suportar
A carga de amor que lhe dedico.
Pode um homem suportar a carga
De todo o mundo?
Não! Não pode.
Da mesma forma, o equilibrado
Não consegue comportar
O peso de um amor que todos os dias
Ganha mais um acréscimo.
O comedido, meu amor, é uma caixa
Pronta com todos os acabamentos
E artes finais terminados.
Ela não se adapta.
Ela não cresce.
Ela não se transforma.
Ela é como é... e pronto!
Meu amor não é assim,
Não é mesmo assim.
Todos os dias ele se renova,
Se encorpa,
Ganha força e novas tonalidades,
Seu colorido é sempre radiante,
Sua transparência é a mais nítida,
Sua loucura domestica-se dentro da
Lucidez de meu universo
Concebido a partir do caos controlado.
É assim que eu sou.
É assim que eu te amo.
Palha e fogo dentro do mesmo corpo.
Meu amor cabe somente dentro do exagero.
Somente lá ele pode resistir.
O excesso é um baú adaptável,
Capaz de guardar as contingências,
O tempo e suas transformações,
Se flexibilizando e crescendo
Ao sabor dos estímulos que meu
Sentimento por ti oferece.
Entendes agora, meu amor, entendes?
Meu amor por ti é superlativo
E somente sobrevive dentro do exagero.

Somente sei te amar assim...

domingo, 5 de novembro de 2017

ARMADURA TROCADA

Meu amigo, meu irmão,

O que aconteceu contigo?

Onde foi que enfiastes

Toda a tua decência?

Tua honra e dignidade,

O que foi feito delas?

Olhamos para você e

Não te enxergamos mais,

És apenas um pálido reflexo

Da imponente figura que

Fostes um dia, lá atrás,

Nos primeiros dias

De tua caminhada entre nós.

Sacrificastes nossa amizade,

Nosso respeito por ti,

Tudo o que houve entre a gente

Por algumas migalhas

Que caem da mesa do rei.

Hoje, e para sempre além de hoje,

Estais condenados a arrastar

Estas pesadas correntes

Pelos prados que pisamos.

Mudastes de armaduras

Mas o campo de batalha

Continua o mesmo...

Doravante,

Os sorrisos para ti serão amarelos,

As confidências estarão todas trancadas.

Conversas, jamais,

Os colóquios estarão restritos

A meros monossílabos

Arrancados com exagero e

Má vontade.

És um estranho

Numa terra onde tinha

Somente amigos.

Escolhestes o exílio,

Numa terra que era sua,

Viver longe de uma gente

Que sempre te amou pelo que eras.



Não sei como será no dia

Que a decepção bater em tuas portas.

O rei já escolheu as suas gentes,

E tu acreditas que estais entre eles.

Ledo engano.

Não és e nunca será um deles.

E quando descobrires isso,

Quando veres finalmente

Que aquilo que tivestes

Era a tua verdadeira riqueza.

Verás que terás desperdiçado

O maior tesouro que

Nesta vida um homem pode ter:



O respeito dos seus amigos!



quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Sobre bolos, metades e inteiros

Fizestes um bolo para mim...
Quanta alegria... quanta alegria...
Mas meu amor, meu precioso amor,
Um bolo é pouco demais para
Eu te agradecer.
Te agradecer pelo bolo?
Eu te agradeço pela vida
Que me destes e me dá.
Te agradeço por ter me ensinado tua fé.
Te agradeço por ter compartilhado
Um bocadinho da tua imensa sabedoria.
Te agradeço por ser sempre vigilante,
E me mostrar os abismos que o
Inimigo sempre está a preparar.
Agradeço por acordar contigo,
E por adormecer do teu lado.
Agradeço por seres um pedaço de mim,
E eu ser um pedaço de ti,
Assim, de pedaço em pedaço,
Formamos um inteiro.

Agradeço por isso tudo, meu amor,
E agradeço também pelo bolo...
Feliz aniversário para a minha metade,
Que junto da tua,

Forma o que somos como nós!

OS “NOVINHOS”


Quando chegaram já eram esperados.
A cadeia estava superlotada e os plantões carentes de servidores, duas variáveis perfeitas para criar uma equação de descalabro prisional.
Não prestemos atenção nestes aspectos, cadeia cheia e pouco servidor é rotina, reprise constante da velha estória do cobertor curto.
O fato é que os “novinhos” chegaram trazendo um alento, gente nova diminui a pressão e o estresse do trabalho sobrecarregado em velhas costas já sofridas pelos anos no sistema. Vinham eles paramentados em fardas negras como a madrugada da cadeia, belos coturnos nos pés, calças e cintos táticos, camisetas apertadas e um brilho entusiástico no olhar.
Todos prestaram atenção na farda e nos materiais de segurança que portavam, preferi me deter no olhar deles, isso me encantou. Vivemos tempos que se exige mais comprometimento com a missão diária do que equipamentos táticos.
Não havia neles medo ou receio do lugar ou da massa carcerária – as engrenagens de suas atitudes e coragem eram movidas com o potente combustível do entusiasmo com pitadas generosas de aditivo de iniciativa.
Incorporaram-se aos plantões com humildade, de forma natural, como sempre deve ser, começaram a construir com muito trabalho e dedicação uma aura de respeito em torno deles.
Para eles, honra e amizade eram totens que se erguiam juntos, reverenciados ambos pelos seus colegas mais antigos de plantão.
Soube, entretanto, que não ficariam, seriam transferidos para a capital onde ficariam mais próximos de seus lares, vieram no interior apenas passar um verão, não conheceriam o inverno da grande cadeia.
Saí de férias logo após a chegada deles, quando retornei, trinta dias mais tarde, eles já tinham ido de encontro as suas novas responsabilidades. Nos pavilhões, nas áreas de segurança, na muralha, em toda a parte onde os agentes penitenciários pisavam ficou alguma coisa deles, uma poça de um azeite finíssimo chamado saudades.
Tem gente que passa uma vida inteira ao nosso lado e tudo o que conseguem construir no relacionamento conosco não consegue preencher de saudades um único final de semana.
Há pessoas que, com pouco tempo, ganham de tal forma nosso respeito, confiança e simpatia que quando partem, deixam em nós um sentimento sempre urgente de constante nostalgia. Essas pessoas são extraordinárias.

Em meus pensamentos, abençoei cada um deles e desejei para eles uma sincera felicidade cristã, depois, caí para dentro da quimera, a rotina já me convidava para dentro de suas águas com seu canto de sereia. 

sábado, 26 de agosto de 2017

A NOITE EM QUE SONHEI COM KAFKA


Acordei em meu castelo todo suado enrolado num lençol de cetim.
Estranho, não tenho lençóis de cetim...
Isso mesmo... estava tão de boa que lençóis de algodão se transformavam no mais puro cetim.
Fiquei olhando o teto.
Dormindo acordado.
Lembrei do sonho que tive na madrugada,
Logo depois que a coruja caçadora deu um bote na rua,
Uma barata boêmia acreditou que poderia dar umas voltas,
E se deu mal.
Corujas não dormem de touca.
Sonhei com Kafka. Simples assim, direto no assunto assim.
E como não poderia deixar de ser,
O sonho foi bem doidão.
Tudo em Kafka era onírico,
Realidade e fantasia se misturavam.
A única coisa que era de verdade em Kafka
Eram seus textos excelentes.
Kafka foi um dos grandes, um dos grandes.
Lembrei que era final de semana.
Pensei, vou fazer nada não, ficar daquele jeito.
Colocar os pés para cima
Tomar um suco de laranja misturado com outra fruta
E me fartar de preguiça.
Talvez escreva um texto, se uma ideia vir a minha cabeça.
Se não vier, escreverei qualquer coisa mesmo.
Quem sabe.... no final, algo se salve.
Quem sabe nem tenha final...
Não quero mesmo é saber de relógios.
Nada que me lembre que o tempo exista.
Cuspirei na cara do tempo neste dia...
Isso... vou gargalhar em sua face...
Pelo menos um dia na vida eu vou mandar em mim mesmo.
Serei o senhor de mim mesmo neste dia,
Que uma barata boêmia perdeu a sua vida
Precocemente na calçada de casa,
Assassinada por uma coruja esfomeada.
Neste dia em que lençóis de algodão
Metamorfosearam-se em cetim puro.
Exatamente neste dia que Kafka me visitou
Em um sonho atrapalhado que teve início,
E nunca chegou ao fim.
De repente o celular tocou: alarme!
Peguei o aparelho pronto para desliga-lo...
Uia! Hoje é segunda-feira...
Peguei a farda, o coturno,
Subi em minha moto
Corri para o trabalho.
Ao bater da porta,
Ouvi o tempo badalar horas
(fora de hora)
Num relógio grande e velho
Pendurada numa parede igualmente velha
Gargalhando,
Zombando da minha cara...