terça-feira, 4 de setembro de 2018

ALIMENTOS PARA A ALMA



Nestes dias de frio intenso, não a vi...
Ela ficou recolhida, esquentando o corpo cansado de dias no calor do recôndito do lar.
Hoje o sol saiu, deu a cara tímida depois de tantos dias fora. Apareceu como se tivesse envergonhado de deixar todo o povo mergulhado no cinza dos dias frios.
Junto com o sol, ela apareceu.
Colocaram a sua poltrona de costas para a rua, para que o sol da manhã tocasse o seu corpo de frente, essa carícia (convenhamos!) é mesmo deliciosa.
Eu passei, rápido.
Do lado dela, uma senhora também já entrada em dias, falava de coisas e mais coisas, ela parecia ouvir cansada, mais entretida com os toques abrasadores dos raios do sol.
Eu a cumprimentei como faço todos os dias.
Ela não se voltou, e nem poderia. A posição da poltrona a impedia.
Reconheceu-me, sei que sim, senti no tom da sua voz e na urgência da resposta.
Ficou em mim uma vontade enorme de ver o seu sorriso. Ele é tão lindo. Não importa nossa idade, sorrisos são sempre viçosos como a juventude. O dela guarda o frescor de uma brisa de verão e o cheiro de uma tarde de primavera.
Já ia sumindo da vista da casa, quando de repente, a senhora ao seu lado se virou para mim, parecia aborrecida por ter incomodado seu monólogo.
Essa senhora sorriu. Um sorriso lindo. Mas não era desta, nada daquilo era mesmo desta... O sorriso desta senhora, percebi imediatamente, era um reflexo do sorriso dela... dela para mim.
Sei que a alma possui alimentos mais vigorosos e nutritivos como oração e leitura da Bíblia, mas, sorrisos são um delicioso acompanhamento.

terça-feira, 14 de agosto de 2018

O BRILHO DA FELICIDADE


(ou o SABOR DA VIDA, parte 2)

Fazia dias que eu não a via.
Senti falta dela este tempo todo.
Saudades é um ácido que corroí o nosso sossego.
Houve dias que imaginei coisas... as afugentei rapidamente e coloquei um espantalho feito com esperança para espantar os corvos das más sugestões.
Hoje foi diferente, graças a Deus por isso.
Passei e ela estava lá, sentada em sua confortável poltrona, as pernas enroladas em uma manta de algodão e o sol tocando o seu corpo cheio de dias.
Estava sonolenta.
Sei disso, porque passei e dei o “bom dia!” e ela não me respondeu – quando falei “Deus a abençoe!” – Vi que ela me procurou com o olhar, mas eu já tinha passado.
Entre mim e ela é tudo muito veloz.
Nossa história é uma passagem.
Nossos diálogos são feitos de protocolos sociais e algumas bênçãos que derramamos um para o outro (a melhor parte de nossa biografia).
Entretanto, criou-se um carinho e isso é real.
Eu o sinto de verdade, como se fosse palpável.
Posso sentir o seu perfume no ar, ainda que não consiga descrever o aroma que exala.
Testemunhei essa verdade hoje, na volta da academia.
Quando passei eu a olhei de soslaio.
Estava do mesmo jeito quando passei na ida.
Ao seu lado, outra senhora confabulava com ela antigas histórias, novas histórias.
Quando ela me viu, seu rosto brilhou.
Não é arrogância minha, sei disso porque esse brilho na verdade era meu, sua face era um espelho da minha. Quando vi que seus olhos buscavam os meus tudo em mim irradiou uma alegria e uma felicidade que fez meu ser resplandecer.
É assim mesmo que acontece, felicidade faz a gente brilhar.
Ela falou comigo desta vez:
- Já está de volta? E sorriu um sorriso lindo.
- Sim, por hoje acabou...
Ela sorriu com a alma.
Eu sorri com o coração.
Foi o jeito de dizer que temos estima um pelo outro.
Não nos conhecemos, não somos nada, simplesmente, nasceu em nós um carinho que faz desejar o melhor para o outro.
Isso não é de nós, não existe qualquer auto exaltação aqui, isso é dom de Deus.
- Deus te abençoe! Assim me despedi.
Ela disse: “Amém! ”.
Segui, sentindo o seu sorriso queimando minhas costas, queimava muito mais meu coração.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

O SABOR DA VIDA



Todos os dias saía pela manhã em direção da academia.
Passava em frente a uma casa onde um casal de idosos tomava o sol das manhãs.
Notava-se neles a cumplicidade que se constrói dentro dos muitos anos de convivência solidária, olhar para um, era como perceber o outro, como se o envelhecer juntos houvesse construído no outro a imagem do primeiro.
Esta é a melhor maneira de envelhecer – juntos!
Esta arte os dois pareciam dominar como poucos.
Ele passava e os olhava de uma forma muito especial.
Todos os dias era um ritual passageiro e ligeiro.
A vida é mesmo acelerada.
Olhava para ambos, que retribuíam o olhar de expectativa que o passante lhes dirigia.
Havia no homem que passava uma alegria e uma coisa boa que eles próprios não conseguiam explicar.
Para que explicar?
Existem coisas que são melhores quando não merecem e não respeitam definições acadêmicas – estas coisas foram feitas apenas para serem sentidas, assim elas são apenas absorvidas pelo coração que é sensível e que está atento para as epifanias da vida.
O homem passava e lhes dizia um bom dia que vinha de mãos dadas com um Deus vos abençoe.
Eles retribuíam com um amém e quando iam dizer mais alguma coisa, o homem já havia passado.
Ele passava rápido – a juventude é urgente, pensavam.
Para eles a urgência era tolice.
Faziam poucas coisas e as coisas que faziam eram sentidas, catalogadas, todas elas, como coisas importantes de seu dia. Assim, tudo ganhava um sabor diferente, um sentido distinto, viver prestando atenção na vida, mesmo que de uma forma muito simples (e lenta) se tornava algo emocionante.
A juventude é esquecida. Ela não entende disso.
Depois que ele passava, eles se levantavam e adentravam em sua casa.
O sol amigo já começava a ficar zangado e o aconchego do lar se tornava mais convidativo. Sombras também tem seu valor. Quando se envelhece isso fica muito claro, tudo tem o seu tempo.
Eles entravam e aguardavam o novo dia. Sabiam que o homem viria.
E para o passante, que se ia desapercebido do bem que esparramava, ficava no seu coração a alegria de ver os dois, ali todos os dias, um frente ao outro, conversando das coisas antigas que lapidaram sua história.
Enquanto pensava isso, um pensamento sombrio entrou nesse solar de meditações radiantes.
Nem sempre as sombras têm valor...
Um dia, o pensamento sinistro sugeriu, eles não estarão mais lá...
Afastou aos trancos e barrancos tal ideia.
Eles estão lá agora e é isso que importa.
Devemos viver o agora porque o amanhã não nos pertence.
Quando esse dia chegar, pensou, entenderei que a vida é um doce sonho que passa e o gosto que ela deixa é de saudades.

terça-feira, 27 de março de 2018

SONETO QUE CLAMA A DEUS



Não pode existir pedido maior a se fazer,
A Deus, meu Pai, sempre atento e devotado,
Porque riquezas não conseguem satisfazer
O desejo desse meu coração esfaimado.

Meus sonhos terrenos viraram ruínas,
Destruídos que foram em minha conversão
Amar a Deus doravante será minha sina,
Pode haver algo mais belo para um cristão?

Meu anseio maior é que Deus em sua potência,
Saiba que em meu coração nada lhe será segredo,
E que nunca o deixarei por qualquer ciência,

Que caia sobre mim querendo me enganar.
Senhor, seja minha fé um forte rochedo,
Onde meus dias se sustentem para te adorar.  

domingo, 21 de janeiro de 2018

CANÇÃO DO AMOR EXAGERADO


Amo-te dentro de todo o exagero.
Como se te amar fosse um gesto final,
Como se dependesse minha sobrevivência,
Como se depois de ti, meu amor,
Não houvesse mais ninguém,
Absolutamente mais nada,
Somente o vazio das horas mortas.
Não consigo suportar o comedido,
Ele me ofende.
O moderado não consegue suportar
A carga de amor que lhe dedico.
Pode um homem suportar a carga
De todo o mundo?
Não! Não pode.
Da mesma forma, o equilibrado
Não consegue comportar
O peso de um amor que todos os dias
Ganha mais um acréscimo.
O comedido, meu amor, é uma caixa
Pronta com todos os acabamentos
E artes finais terminados.
Ela não se adapta.
Ela não cresce.
Ela não se transforma.
Ela é como é... e pronto!
Meu amor não é assim,
Não é mesmo assim.
Todos os dias ele se renova,
Se encorpa,
Ganha força e novas tonalidades,
Seu colorido é sempre radiante,
Sua transparência é a mais nítida,
Sua loucura domestica-se dentro da
Lucidez de meu universo
Concebido a partir do caos controlado.
É assim que eu sou.
É assim que eu te amo.
Palha e fogo dentro do mesmo corpo.
Meu amor cabe somente dentro do exagero.
Somente lá ele pode resistir.
O excesso é um baú adaptável,
Capaz de guardar as contingências,
O tempo e suas transformações,
Se flexibilizando e crescendo
Ao sabor dos estímulos que meu
Sentimento por ti oferece.
Entendes agora, meu amor, entendes?
Meu amor por ti é superlativo
E somente sobrevive dentro do exagero.

Somente sei te amar assim...

domingo, 5 de novembro de 2017

ARMADURA TROCADA

Meu amigo, meu irmão,

O que aconteceu contigo?

Onde foi que enfiastes

Toda a tua decência?

Tua honra e dignidade,

O que foi feito delas?

Olhamos para você e

Não te enxergamos mais,

És apenas um pálido reflexo

Da imponente figura que

Fostes um dia, lá atrás,

Nos primeiros dias

De tua caminhada entre nós.

Sacrificastes nossa amizade,

Nosso respeito por ti,

Tudo o que houve entre a gente

Por algumas migalhas

Que caem da mesa do rei.

Hoje, e para sempre além de hoje,

Estais condenados a arrastar

Estas pesadas correntes

Pelos prados que pisamos.

Mudastes de armaduras

Mas o campo de batalha

Continua o mesmo...

Doravante,

Os sorrisos para ti serão amarelos,

As confidências estarão todas trancadas.

Conversas, jamais,

Os colóquios estarão restritos

A meros monossílabos

Arrancados com exagero e

Má vontade.

És um estranho

Numa terra onde tinha

Somente amigos.

Escolhestes o exílio,

Numa terra que era sua,

Viver longe de uma gente

Que sempre te amou pelo que eras.



Não sei como será no dia

Que a decepção bater em tuas portas.

O rei já escolheu as suas gentes,

E tu acreditas que estais entre eles.

Ledo engano.

Não és e nunca será um deles.

E quando descobrires isso,

Quando veres finalmente

Que aquilo que tivestes

Era a tua verdadeira riqueza.

Verás que terás desperdiçado

O maior tesouro que

Nesta vida um homem pode ter:



O respeito dos seus amigos!



quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Sobre bolos, metades e inteiros

Fizestes um bolo para mim...
Quanta alegria... quanta alegria...
Mas meu amor, meu precioso amor,
Um bolo é pouco demais para
Eu te agradecer.
Te agradecer pelo bolo?
Eu te agradeço pela vida
Que me destes e me dá.
Te agradeço por ter me ensinado tua fé.
Te agradeço por ter compartilhado
Um bocadinho da tua imensa sabedoria.
Te agradeço por ser sempre vigilante,
E me mostrar os abismos que o
Inimigo sempre está a preparar.
Agradeço por acordar contigo,
E por adormecer do teu lado.
Agradeço por seres um pedaço de mim,
E eu ser um pedaço de ti,
Assim, de pedaço em pedaço,
Formamos um inteiro.

Agradeço por isso tudo, meu amor,
E agradeço também pelo bolo...
Feliz aniversário para a minha metade,
Que junto da tua,

Forma o que somos como nós!