sábado, 19 de setembro de 2015

CANÇÃO DO ADEUS À AYLAN KURDY


Escuto o rugido do mar.
Sua fúria indômita,
Suas garras imparciais.
Toda carne é somente carne.
Para o mar...
Perto da praia, entretanto,
O mar é tranqüilo, calmo,
Suas águas aproximam-se da areia
Procurando jeito para tocá-las.
Na orla não existe raiva,
Toda praia é somente praia,
Para o mar...
Dia desses, tão igual aos outros,
O oceano furioso do alto mar
Entregou para as ondas calmas
Um corpo que foi depositado
Mansamente na praia.
De longe, eu observei,
Aquele pequenino corpo
Vestido num calçãozinho azul
E uma camiseta vermelha
Dormindo nas areias da praia.
As ondas vinham macias,
E o tocavam com frágeis dedos,
Incomodadas por acordá-lo,
Incomodadas por não acordá-lo.
E o pequenino, observei,
Simplesmente não se levantava.
Aylan era o seu nome.
Aylan fugia de outro mar,
Igualmente furioso e indômito
E que possuía sons assustadores
E garras mais imparciais ainda.
Toda carne é somente carne
Também para esse mar...
Na praia,
Um homem alto e esquálido surgiu,
Caminhou titubeante
Em direção a Aylan.
Parecia aborrecido...
Incomodado por acordá-lo...
Incomodado por não acordá-lo...
Ele se ajoelhou junto ao pequenino,
Que continuou deitado na areia,
Aylan simplesmente não acordava.
Em meu canto distante,
Derramei uma lágrima,
Lágrima é azeite de compreensão,
Agora compreendia tudo.
O homem alto e esquálido
Derramou uma lágrima, também,
E ela caiu no mar... no mar...
E se misturou a todas as outras...
O homem também entendeu...
Lágrima é azeite de compreensão,
Aylan não acordaria jamais...
O mar é feito de todas as lagrimas
Das dores produzidas neste mundo.
Todo sofrimento é apenas sofrimento
Para o mar...
Para o mar...

... não devia sê-lo para a humanidade.

Descanse no paraíso, Aylan Kurdy!




sábado, 12 de setembro de 2015

HOJE SERIA TEU ANIVERSÁRIO...




Não sou muito de acariciar o passado.
Não sou de ficar abrindo este velho e empoeirado baú e de lá arrancar seu grande rosário de boas e más histórias.
Não acredito mais no passado.
Tudo o que é realmente meu, já escrevi isso  um dia n’outro lugar, é esta prateleira de segundo do armário das horas.
É no agora que eu vivo.
É no presente que eu posso mudar minha existência e trilhar novos caminhos.
Como sorrir com gargalhadas já gastas?
Vou chorar sempre as dores de ontem, sabendo que o amanhã trará lagrimas mais cristalinas para irrigar sofrimentos frescos como a novidade de um novo dia?
Cada mal terá sempre seu dia. Nada mais.
Hoje seria o seu aniversário...
Lembrei-me disso sem querer.
Deixei a imaginação brincar, por um pouquinho.
Que bolo e guloseimas servirias?
Quantos presentes ganharias?
Sei que convidarias a todos, a todos mesmo, sem esquecer ninguém.
Espalharias sorrisos e risadas como quem atira flores.
Entregarias pratos generosos consciente dos elogios todos que receberias. Tinhas mãos de anjo na cozinha, minha querida!
O perfume de todas as flores que receberias ao seu próprio se misturaria, e a gente ali, a te olhar, buscando qual aroma é flor, buscando qual fragrância é Silvia.
Ai... Ai... hoje seria o seu aniversário...
Odeio passado, minha amada, odeio.
Costumo flertar com o presente e ignorar também o futuro.
Mas hoje... hoje seria o seu aniversário...
O que já foi enterro numa cova funda de esquecimento.
O que agora vivo transformo em esperança.
Com esperança avisto o futuro, que nunca foi meu, mas por este novo olhar te enxergo, Silvia!
Sei que é lá que estás.
Sei que é lá que te reverei novamente, esquecido de aniversários, a eternidade nada entende disso...
Breve, Silvia!
Breve, Silvia!
Será num agora que te encontrarei, querida, quando JESUS voltar... num futuro próximo!

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

A CRUZADA




Era sua primeira tarde de evangelização.
Partiu com os irmãos e irmãs, todos eles e ele próprio sentindo-se um discípulo de Cristo.
Não condenemos este irmão, estas presunções são frutos do primeiro amor.
No caminho falou do mundo, falou muito mais das coisas do céu. Porque o que era do mundo, conhecia, e não o havia feito feliz. O que era do céu, desejava, e somente a expectativa o enchia do mais puro êxtase. Dividiu isso com os irmãos, foi compreendido. As coisas do mundo ficaram todas para trás.
Fizeram as distribuições dos setores e partiram convidando a cidade para o evento evangelístico que seria a noite.
Algumas os acolheram com educação.
Outros os receberam com desinteresse.
Houve aqueles que sequer saíram de suas casas para ouvi-los.
Poucos receberam as palavras com alegria e promessas de participação.
Nada disso o chateou, a ele ou aos irmãos.
Não houve em seu coração frustrações ou decepções, não havia lugar para isso. Seu coração, não se esqueçam, estava cheio do primeiro amor.
Ele sabia que sua missão, como dos demais irmãos, diáconos, presbíteros, evangelistas, até mesmo os pastores, era lançar a semente do reino de Cristo. Acolheriam suas palavras? Isso era de cada um, coração de homem é solo que outro homem não pisa.
Depois de duas horas evangelizando, sentiu sede.
Chegou a uma casa qualquer e a mulher que o atendeu ofereceu café. Pediu água. E a água que sorveu foi a mais deliciosa daqueles dias. Jesus bom saciava a sede dos seus discípulos.
Terminado o trabalho retornaram para a igreja.
Tudo pronto para a cruzada.
Cadeiras, palco, som, corações entusiasmados, promessa de chuva que não se cumpria, tudo em seu devido lugar.
De noite, Deus se fez presente.
A chuva não veio, em seu lugar o Espírito Santo se derramou e tocou o coração de almas que escolheram o céu esquecendo-se do mundo.
O pequeno discípulo estava lá, junto com todos os outros evangelizadores e testemunhou a alegria daqueles que se entregavam para Jesus, o salvador.
Viu os corações de cada um dos salvos queimarem em alegria sentindo a mesma paixão que experimentou quando ele próprio entregou-se para Jesus.
E no céu, oito coros de aleluias e Glórias a Deus eram proferidos pelos anjos por cada alma que era salva naquela noite.
O pequeno discípulo finalmente entendia: Não se deve prestar atenção nas sementes que não germinam, e sim, sempre sim, naquelas que florescem. São essas que colhem os frutos celestiais.

domingo, 6 de setembro de 2015

O PRIMEIRO DELES

 Atendia a uma senhora quando o primeiro deles entrou.
Era um atendimento enfastiado, cansado mesmo.
A senhora fazia questão de todas as coisas em suas minúcias desnecessárias muito bem explicadas.
Eu pego o cartão sempre assim... Eu sempre trago uns trocadinhos...Todos os meses venho aqui... Onde posso pagar a fatura???
O atendente dava respostas monossilábicas, olhar desatento, modos distraídos, tudo nele ausente dali.
Não reclamemos, ele não era de modo algum grosseiro com ela, a impressão que dava era que acreditava o trabalho grande demais pelo dracma de um real que a senhora deixaria depositado em seu cofre. Só isso.
Foi nesse instante que o primeiro deles entrou...
A senhora já idosa saia com sua fatura nas mãos e a missão nas pernas de ir ao banco quitar seu boleto.
O primeiro deles solicitou sua necessidade colocando no inicio da frase a chave universal para todos os bons atendimentos: Por gentileza!
O atendente ficou espantado, mas não acusou o golpe, era daqueles tipos que não demonstram seus assombros desnecessariamente. Por gentileza, pensou o comerciante, são como elefantes desfilando na rua principal, se vê um agora e outro... sabe Deus quando.
E o cliente, o primeiro deles, fez seus apelos sempre com palavras amáveis e elegantes encaixados em frases bem construídas – por favor, muito obrigado, perdoe-me tudo isso rotina em seus lábios.
Foi quando o segundo deles entrou...
Trazia uma face de sexta-feira nebulosa de agosto e já ao entrar apresentou seu cartão de visitas: Ontem, a empresa tal me ligou oferecendo uma promoção e aquela filha disso, filha daquilo... Não contente com isso despejou um rosário de xingamentos que não conseguiríamos reproduzir por não conhecê-los e pela correção que um escritor sempre deve ter com seu leitor. Algumas informações são supérfluas.
O atendente calou-se, resignado.  Dedicou-se ao término dos trabalhos solicitados pelo primeiro deles.
O segundo deles, sentou-se, enfurecido, num puff personalizado com a logo da corporação odiada, blasfemando contra a atendente, a empresa e a vida.
Findado as atividades, o primeiro deles pagou e agradeceu. Ao sair, cumprimentou o segundo deles que respondeu com um amargo: Humpf!!!
Voltou-se para o atendente e deu um ultimo sorriso que foi com uma mensagem cifrada: Boa sorte, amigo!
Saiu e para o atendente, parece que o sol saiu com ele.
Olhou para o segundo deles que partiu em sua direção como se o vendedor agitasse um pano vermelho à frente de um touro.
Sentiu saudades do primeiro deles.
Sentiu saudades da senhora que passava no outro lado da rua comemorando a fatura quitada.
Armou-se de paciência e atirou-se no olho do furacão.