domingo, 21 de junho de 2009

LÁGRIMAS E PROMESSAS DE CRISTAL


Desceram as escadas abraçados, espremidos num desejo de estarem juntos.
Embaixo, ficaram ligados assim, aguardando um tempo que era curto, que urgia e rugia chamando-os para a realidade fria.
Não despejavam palavras.
Não trocavam olhares.
Abraçados.... E só!


De repente, a mãe descobriu-se receptiva à realidade e virou-se para ele, o filho. Abençoou-0 com um olhar, com um beijo, com um afago de sua mão nos cabelos crespos.


De repente, o filho descobriu-se receptivo à realidade e fitou a mãe profundamente nos olhos, recebendo a benção como se ela fosse dada por um anjo descido do empíreo. Em seus olhos formaram-se um brilho diferente que liquidificou-se em duas lágrimas, uma em cada olho. Estas, tornaram-se pesadas pela dor da saudade que já se enraizava no coração do jovem e escaparam escorrendo pela face morena caindo no chão quebrando feito cristais.


Ele segurou o choro.

Não ficava bem um bandido chorando dentro do pavilhão.
A mãe entrou na área de segurança, aguardou o portão de aço se abrir e partiu, levando um sorriso no rosto, toda uma carga de dores dentro do coração. As mães sofrem mais que os próprios filhos, quando estes vêm para as cadeias.


Ele ficou lá, olhando-a pelas frestas de aço frias e permanentes, querendo tê-la por mais tempo, sentar-se em seu colo, cuidar dela, beijar suas faces macias e delicadas, chamá-la de mamãe uma centena de vezes, duas centenas de vezes; queria pedir-lhe perdão pelas dores que causou, por perder um tempo precioso que nunca mais retornaria – o tempo, entendeu isso por um momento de lucidez da mente esquecida de sinapses que foram eclipsadas pela droga pesada que fumou e injetou na veia - o tempo é algo que nunca mais volta... Nunca mais volta... quis chorar de novo, mas se conteve... Bandido não chora, pensou, fazendo força para acreditar nessa tolice.


Na rua, fora da prisão, a mãe tomou um ônibus e voltou para seu barraco na periferia da grande cidade, amanhã, para ela, tudo voltava ao normal, a vida dura, cheia de dificuldades, honesta como sempre foi e seria. No caminho, tirou um terço da bolsa puída e rezou pelo filho, pela sua recuperação, pela sua salvação, pela sua liberdade.


O filho, ao ver a mãe perdida na distância, voltou-se para dentro do pavilhão onde a bandidagem tomava seu banho de sol aguardando o fim do horário de visitas. Num canto oculto, longe dos olhares da segurança, acendeu um baseado potente e o fumou com a ganância e a estupidez de um viciado.


O instante foi breve, mais breve que o cair de uma lágrima que chora a ausência de uma mãe... Neste momento tão fugaz quanto um lampejo de piscar de olhos, esqueceu-se de mães, de compromissos, de tudo que houvera prometido minutos antes enquanto fazia juras de reabilitação para si próprio. Quando o torpor da droga acariciou seus últimos neurônios levando-o para um estado de imbecilidade crônica, sorriu para as paredes, olhou para o cigarro com um olhar neutro e oco... As promessas e a mãe ficaram esquecidas... Esquecidas... num canto qualquer empoeirado de seu coração.

5 comentários:

Fatima disse...

Querido,
me emocionou muito o seu texto.
Me lembrei de muitos alunos meus que acabaram seguindo este caminho.
Boa semana para vc Gilberto.
Bjs.

Cris disse...

Gil,

Quão sensível, deve ser o escritor,para ver com o coração, o amor entre cenas frias e amargas.
Quão evoluído o homem que vê e escreve o que viu, e traduz da cena o sentimento.
Maravilhada com o texto e enternecida da condição do homem que busca na droga uma fuga falsa.
Que não suporta olhar para si mesmo, pesando-lhe o peso de seus atos.
Como a Fátima, já tive um ex aluno que me vendo falar sobre o tema Droga, mostrou-me um corpo queimado por bitucas de cigarros, querendo fugir de um mundo onde a porta larga, lhe oferecera uma liberdade falsa.
Triste, porém real...
Sua crônicas sociais sempre ótimas.

Um beijo grande e uma ótima semana para você.

Eliene Vila Nova disse...

Nossa Gilberto eu é que agradeço a honra da sua visita e que maravilha as suas palavras, isso engradece o ser humano e ficarei ofendida se você não me visitar mais.
Obrigada por compartilhar esse dom maravilhoso que Deus lhe deu, e a Fátima sem palavras: ela é maravilhosa.
Uma semana abençoada e por favor volte sempre.
beijos

Maria das Graças disse...

Gilberto um texto emocionante, triste de uma tragedia real.
Tenho um pensamento sobre o destino de mãe:viver as maiores alegrias, como as maiores dores com e de seus filhos.

Felizmente como mãe já senti dores de meus filhos,só que naturais como a perda do querido pai.

Esse seu texto é o retrato trágico de dores das mais doídas de mães e filhos.Quantas famílias e vidas destruidas pelo vício.
Como o ser humano torna-se um escravo do vício. E você faz um retrato perfeito que nem o amor de mãe e nem suas lágrimas e as de seu filho são capazes de reverter essa situação infeliz.

Na verdade as lágrimas de um viciado são frágeis como os cristais, não resistem ...se quebram e dissolvem como gelos.

Parabéns pela delicadeza com que você conseguiu falar de um tema tão triste e real.

Abraços.

Regina disse...

Querido amigo,

Prefiro que os problemas sociais sejam retratados desta maneira poética, do que com palavras de revolta e julgamento...

Todos temos nossa parcela de responsabilidade perante os problemas da sociedade e erguer o dedo para culpar somente um ou outro é de uma arrogância e hipocrisia tremendas...

Mais do que criticar, deveríamos agir... deveríamos cada um fazer a sua parte e, não apenas reclamar...

Belo texto, parabéns!