quarta-feira, 23 de setembro de 2009

DOIS VELHINHOS

Dalton Trevisan
Dois pobres inválidos, bem velhinhos, esquecidos numa cela de asilo.

Ao lado da janela, retorcendo os aleijões e esticando a cabeça, apenas um podia olhar lá fora.

Junto à porta, no fundo da cama, o outro espiava a parede úmida, o crucifixo negro, as moscas no fio de luz. Com inveja, perguntava o que acontecia. Deslumbrado, anunciava o primeiro:

— Um cachorro ergue a perninha no poste.

Mais tarde:

— Uma menina de vestido branco pulando corda.

Ou ainda:

— Agora é um enterro de luxo.

Sem nada ver, o amigo remordia-se no seu canto. O mais velho acabou morrendo, para alegria do segundo, instalado afinal debaixo da janela.

Não dormiu, antegozando a manhã. Bem desconfiava que o outro não revelava tudo.

Cochilou um instante — era dia. Sentou-se na cama, com dores espichou o pescoço: entre os muros em ruína, ali no beco, um monte de lixo.


Texto extraído do livro "Mistérios de Curitiba", Editora Record — Rio de Janeiro, 1979, pág. 110.

Na foto central, uma foto antiga de Dalton Trevisan, num dos raros flagrantes que a imprensa conseguiu dar nele. Como sabem, Dalton é totalmente recluso, não gosta de aparecer e dar entrevistas, e isto alimenta ainda mais o culto a este sensacional escritor, conhecido como sendo o vampiro de Curitiba.

5 comentários:

Sonia Schmorantz disse...

Talvez fosse melhor escutar que havia alguma vida lá fora e não só lixo...coisas que se descobre sempre tarde!
Um abraço

Fatima disse...

A vida sempre vai ser como a gente consegue ver, não é mesmo meu amigo!
Bjs e ando com saudade do seu chamego lá em casa.
Vc sabe, adoro um dengo e os seus são sempre especiais.
Bjs.

Cris França disse...

Gilberto, mon cher

este texto eu já conhecia e é belíssimo, obrigada por relembrar-nos, e que saibamos ser como o velhinho que tinha olhos para ver o que mais ninguêm vê.
bjs

Regina disse...

Querido amigo, saudades! Muito bom te ler!

Fique sempre muito bem...

Beijo!

Gorete . SoLua disse...

Bem lembrado Gilberto, Dalton Trevisan o vampiro de Curitiba e odiado por muitos criticos !

Beijos