sexta-feira, 17 de abril de 2020

EQUAÇÕES QUADRADAS



Há noites que a quimera simplesmente dorme...
As patifarias ficam por um instante esquecidas...
Tudo isso é tão breve que nem parece existir.
A cadeia fica calma, serena e tranquila como se fosse um lago nas montanhas.
O agente sabe que isso não é verdade, instinto dele.
Não existe lagos plácidos e tranquilos na cadeia.
Cadeia é rio caudaloso, cascata, corredeira, enchente.
O monstro pode até dormir, se esquecer dentro de um abraço em Morfeu[1], mas a quimera sempre acorda...
... e, quando se levanta mostrando seus dedos e garras afiadas, o agente, e somente ele, é o Belerofonte[2] que irá domesticar a quimera.
Quanto maior o monstro, maior o herói.
Essa é a equação;
Grandes lutas, pondera, trazem grandes vitórias.
Naquela noite, entretanto, a quimera dormia...
Na sala de monitoramento, o agente sentia-se um deus pagão dotado de dois atributos – pelas câmeras, tudo via; pelas câmeras, estava em toda parte.
Buscava as patifarias de forma urgente.
Passava de janela em janela.
Caminhava por cima dos telhados.
O olho tocava em portas.
Cada canto do pátio era mexido, remexido.
Busca incansável.
Nada... a quimera simplesmente dormia...
As coisas são mesmo assim, refletiu resignado: “Quando o monstro dorme, a corrupção dorme junto com ela..”
Essa é a equação...
... e voltou seus olhos atentos para o monitoramento.


[1] Deus grego do sono.
[2] Belerofonte, herói da mitologia grego que foi enviado para matar o monstro quimera, que possuía cabeça de leão e corpo de cabra e em outra extremidade, uma cabeça de dragão que vomitava fogo.

sábado, 29 de fevereiro de 2020

ATÉ TU, BRUTUS!



Tenho hoje todas as dúvidas,
Todas as questões nasceram em mim.
Não consigo sufoca-las...
Não consigo mais contê-las dentro
De um recipiente chamado esquecimento.
A ciência é poderosa,
Faz tudo efervescer dentro do esquecimento,
E tudo eclode para fora,
Estranha lava ácida,
Que corroí todas as bondades
E deixa apenas o rastro da corrupção.
Por quê Brutus?
Por quê?
Eu me pergunto em todo o instante
E não consigo encontrar resposta.
Tua honestidade foi um dia cantada
Pelos enormes corredores da Quimera.
Teus feitos foram cantados pelo aedos
Improvisados que nasciam nas clareiras
Das batalhas no reino dos cadeados.
Enquanto limpávamos nosso sangue,
Riamos contigo suas vitórias
Que eram também nossas.
As musas dançavam sob canções
Que recitavam seu nome.
Os guerreiros faziam fila para lutar
Debaixo de sua bandeira.
Tua decência era uma armadura forte,
Tua bravura era espada cintilante,
Tua sabedoria a capa que aquecia
Os brutos nas noites desse deserto.
Jogastes tudo fora em nome de quê?
Que riquezas podem ser maiores
Do que aquelas que já possuias?
Brutus, por quê? Por quê?
Voce virou sinônimo do engano.
O vilão se escondia sob a roupa do herói?
Risadas e dedos apontados
Seguem o leve pronunciar do seu nome.
Nome poderoso... nome poderoso...
Completamente corroído pela lava.
Partes, guerreiro, partes...
Sem glória...
Sem louros...
Sem lauréis...
Saístes pela porta dos fundos,
Esquecido de que fostes feito
Para os arcos dos triunfos.
O que significastes não existe mais,
Ficou esquecido sob a ciência
De suas corrupções.
Fostes vencido, meu amigo e herói,
E derrotados fomos todos nós.
Os vilões sorriem felizes,
Golias comemora a queda de Davi,
Um leão devorou um Daniel.
Voce parte, meu amigo e herói,
Vencido... Já esquecido por todos...
Derrotados fomos todos nós...

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

LANÇAMENTO DO LIVRO "NO REINO DOS CADEADOS"


No Reino dos Cadeados nasceu não de um sonho, sim de um pesadelo diário que se ergue sobre os escombros de vidas exiladas.
Alguém poderá acusar que o texto possui tons líricos ou romanescos demais e se torna arrogante acreditar que ele possa demonstrar a verdade na forma como ela se mostra dentro da grande quimera. Ainda que não rejeite de todo essa acusação, não a abraço. Exploramos essa mitologia com a finalidade de entreter enquanto revelamos uma harmoniosa simbiose entre a realidade e a fantasia. Escrever deve ser antes de tudo um ato de prazer.
Entregamos uma aparência de fantasia para uma realidade que de alguma ou outra forma se desgarra todos os dias dentro das cadeias desse País. As crônicas apresentadas são lapsos de histórias, ou junção de várias histórias, sem personagens e sem tempo – nomes e períodos não importam, crônicas se preocupam com mensagens, se forem edificantes, muito melhor. O interesse é convidar para uma reflexão sobre esse universo, os que estão dentro dele que o use como um casulo para se transformarem em algo melhor e ao saírem tenham voos altos. Os que estão fora, que nunca o queiram conhecer. O Reino dos Cadeados é um lugar de brutos.
Nossa intenção não é polemizar, condenar ou absolver vidas, não temos de verdade essa pretensão, esse direito, essa capacidade. Deixamos isso para Deus, somente o Pai Eterno para enxergar os corações e dar a eles o derradeiro julgamento.
Cadeia é um pesadelo que se tornou realidade, fica a reflexão do guardião do Reino dos Cadeados.

O livro chegou e começou a ser vendido em 9 de outubro de 2019, menos de 60 dias depois, já havia se esgotado a primeira tiragem. Glória a Deus por isso. Hoje não temos mais livros para vender. Agora, vamos para a próxima etapa e que Deus continue nos ajudando e abençoando. Grato a todos aqueles que adquiriram o livro e contribuiram para o seu sucesso. 

sábado, 16 de novembro de 2019

O CEGO VOO DO ÍCARO



Cadeia faz coisa...
Essa é uma frase recorrente no reino dos cadeados.
É um eco...
Um eco com vida própria que surge toda vez que a monotonia é quebrada, que o extraordinário agita o organismo da quimera.
Aquele era um dia normal dentro do primeiro pavilhão.
A megera estava adormecida...
Normal ali, entende-se, como uma rotina sempre nervosa, agitada, entra e saí de presos, muitas celas abertas derramando muitas vidas na corrente sanguínea do raio.
Pavilhão de trabalho é assim mesmo – sempre frenético. Tranquilo encima das águas, por baixo, as águas rugem.
Do atento olhar do policial penal, nada ficou esquecido. Não vou sublinhar tudo porque sugere o bom senso que o tudo é algo estranho, abstrato. Tudo, somente Deus. E, lembrem-se, que por baixo da superfície da cadeia as águas são turbulentas...
A manhã era preguiçosa.
Um preso tecia uma rede de pesca, outro cuidava das mercadorias da pequena cantina. Uma mariposa, mulher de cadeia, entrava furtivamente numa cela e todos fingiam não ver, mas todo olho dentro do pavilhão viu. Dois homens carregados de janeiros caminhavam pela quadra de esportes, naquela manhã surpreendentemente esquecida. Um índio tomava um chá frio. Dois índios comiam pães adormecidos. Três índios tomavam tereré.
A manhã era mesmo preguiçosa...
De repente... a quimera tem um espasmo... a casca frágil do extraordinário se quebra e eclode junto com o parto do fora do comum um grito do agente: “Tem alguém encima do telhado!”
Todos buscam o telhado, mil olhos procurando o desconhecido e todos conseguem ver, um preso vindo por cima do telhado, desembalada carreira, em direção do precipício de uns sete metros que desembocava na dura quadra de concreto dentro da entranha do monstro.
“Estranho...” pensou o policial penal, “o preso não corria para fora, ele corria para dentro da cadeia...”
Começa uma correria por todos os lados dentro do pavilhão.
Presos pensam numa mesma frequência.
Alguém joga um velho colchão no chão duro da quadra, no mesmo instante, o corpo do preso se estatela no concreto da quimera. Nunca falei antes, a pele do monstro é de concreto.
“Ele se jogou lá de cima”, alguém sugeriu o óbvio.
Os presos se ajuntam, recolhem o caído como se ajuntassem cacos do mais fino cristal e com excesso de cuidados levam até a área de segurança onde é retirado pelos policiais penais para as providências de emergência e hospital.
Nas grades de segurança, dezenas de rostos se colam ao frio aço das grades tentando entender o motivo de alguém querer se matar assim... assim... ou de qualquer outra forma...
Presos pensam numa mesma frequência, como se ouvisse o questionamento íntimo de todos, um deles responde:
- Cadeia faz coisa...
E um coral de vozes assustadas responde em uníssono:
- Cadeia faz coisa...
Enquanto isso, uma vida quebrada é levada urgente para o hospital.

terça-feira, 8 de outubro de 2019

TE AMO MAIS...



Dizes tu que me amas.
Sim, acredito nisso com a
Fé do meu primeiro amor.
Duvido apenas que seja mais do que eu.
Duvido....
Porque eu respiro você,
És a atmosfera do meu amor.
Bebo você,
És a água que sacia toda minha sede.
Sou dependente de você da forma
Como um beija flor é de sua rosa.
Quando acordas, és minha alvorada.
Quando adormeces, meu crepúsculo.
Tu me preenches de forma absoluta,
E o que transborda é o amor
Que vou despejando vida afora.
Os outros pensam que é meu,
Não, não é, é excesso,
Excesso de meu amor por você.
Voce entende de amar,
Não posso negar isso e isso reconheço.
Mas o meu amor por você
É luz que não se apaga,
É primavera presente e perene,
É alegria em forma de energia
Para minha vida.
Voce entende de amar, meu amor,
E isso eu sei....
Mas por você, minha bela,
Eu sou o próprio amor

terça-feira, 10 de setembro de 2019

A canção do meu coração





Não me perguntes sobre o amanhã...
Não me perguntes sobre qual será a matéria prima dos dias que ainda não se fizeram para nós...
Não quero pensar nestas coisas...
Quero pensar nos dias atuais, no agora, no presente, no que vou viver e no que vou fazer dentro deste segundo que enclausura a minha vida e a tua.
Eu enxergo tua face dentro deste momento, não no que virá...
Meu beijo alcança teu beijo agora e teu abraço aquece meu corpo neste instante e não tem poder para espantar o frio do mais tarde.
Teu sorriso é o brilho que ilumina esta minha noite onde todas as poesias foram revisitadas.
Ainda escuto a canção do meu coração após tua mão ter pego a minha de forma tão delicada, e esse som tem todas as notas musicais do recente em sua melodia.
O futuro não existe para mim não consigo viver com as impressões que enfeitarão outros dias.
O amanhã não é meu nem teu, meu amor, o agora é que é nosso!
Não me perguntes, portanto, sobre o amanhã...
Ele não enche a sacola de emoções do agora.
O presente se enche de nada se toda a preocupação for o futuro!
E, preciso te amar, meu amor, preciso te amar com a intensidade do último instante de minha vida, e o último pode ser agora e não no amanhã.
De que me valerá todos os projetos, todo ouro e toda pedra preciosa se o amanhã me trouxer montado em sua garupa branca o Anjo Azrael e seu cálice de morte?
Percebes, minha querida, nós não temos nada que senão um ao outro, que senão o agora e nada mais...
O amanhã não nos pertence e a ninguém.
Então venhas, dê-me um abraço como se este fosse o último, porque se o amanhã não se fizer para nós, eu amarei o agora ainda mais pois que é dentro dele que te amo!!!

... e de agora em agora eu te amarei para sempre!!!!





segunda-feira, 2 de setembro de 2019

DEPOIS DO EXÍLIO...

          
          Durante o inverno ela não apareceu...
Provavelmente a família a deixou recolhida dentro de casa, protegida do frio. Gripes e seus primos maus podem ser fatais na idade dela, já avançada em janeiros.
Hoje eu passei, como sempre, e olhei para a sua poltrona na varanda, onde ela costuma descansar nas manhãs embaixo de um sol sossegado, desses que gostam de acariciar a gente; os mais carrancudos, falando sobre os sóis, aparecem somente mais tarde e estes vivem irritados.
Cumprimentei com a alegria de sempre.
Seu cabelo parecia mais branco.
Sua pele parecia mais branca.
Mais alvo do que tudo isso foi o sorriso que me devolveu.
“Deus te abençoe, senhora!”
Ela olhou como que surpresa, poderia ter me esquecido enquanto esteve no exílio forçado pelo frio.
“Amém!”
E sorriu...
Não me esqueceu...
Soube disso, pelo sorriso.
Quis parar e falar que estava com saudades.
Mas não tenho toda essa intimidade.
Nossos contatos são assim mesmo, de passagem, rápidos, possuem a duração do tempo de um sorriso; não vivem mais do que um suspiro de uma saudade morta pelo olhar de quem se queria ver; ainda assim, são puros, cristalinos e tão verdadeiros que parecemos marcar a hora de nos ver todas as manhãs, quando subo para a academia e ela está em seu banho de sol matinal.
Nunca gostei de invernos... sua ausência forçada somente me trouxe mais um motivo para detestar essa estação do ano cinza e bolorenta.
Quando me afastei... Ia mais feliz... Ela ainda está por aqui a me encantar os dias com seu sorriso e sua expressão meiga e delicada.
Quando voltei... ela não mais estava lá... já havia se recolhido para o interior da casa, o sol já mostrava sua carranca e minha amiga não gosta de rostos ranzinzas.
Sorri para mim mesmo.... Sem problemas... amanhã seria um novo dia e ela, certamente, estaria lá...
Quem sabe... quem sabe... tomo coragem e puxo até um dedo de prosa... Amizades começam com sorrisos e trocas de gentilezas, mas elas se erguem sobre poderosas pernas somente quando energizadas por algumas boas conversas e relacionamento pessoal.
Segui em frente, a vida me chamava como sempre, olhei uma última vez para sua poltrona vazia e abençoei minha amiga, mesmo que de longe, sabendo que meu Deus tudo escuta, tudo sabe e alcança todos os lugares.
- Pai querido, abençoe-a neste dia...
E ficou em meu coração uma certeza de que ela estava bem.