A madrugada da cadeia é um oceano...
... de silêncio!
Tudo na cadeia é aparência, aqui tudo é fugaz,
efêmero, não se sustenta pelos padrões da verdade, justiça e virtude.
A realidade aqui é oculta.
Absurdo isso...
Para enxergar a realidade é ter de escavar,
escavar e busca-la como se garimpa ouro, e, quando encontra-la atestar que
aquilo que foi encontrado não possui valor... ouro de tolo.
A aparência é falsa.
A realidade é espúria, maligna, desprovida de
virtude, e, sem virtude, o que nos resta?
Em uma dessas madrugadas silenciosas, quando a
realidade repousava em sua toca de engodo, um preso qualquer se assentou na
janela de sua cela 44.
Quieto.
Absorto.
Pensativo.
Agarrado às grades olhava para o mundo lá fora,
perto e longe, esticando olhares como se buscasse respostas, como se quisesse
encontrar o sentido de sua vida, como se estivesse a fazer uma profilaxia de
sua alma.
Estava tudo tão quieto, a única coisa que se via (e
ouvia) era o seu quadro recortado na parede do cárcere, sua figura enquadrada
na janela de sua cela.
Era... era... triste...
Ainda assim, com o olhar correto, via-se alguma
beleza poética no homem pensativo – o pensador que buscava entender a sua vida.
De repente, muito de repente, como são as coisas
na cadeia, as águas do silêncio deste mar foram agitadas.
O policial da torre via rádio anunciou: drone!
No monitor, vi o homem sentado à janela 44 se
agitar, saiu de seu estado de contemplação, ficou atento na movimentação lá
fora buscando onde estava o aparelho voador, empunhou um cambão que retirou de
algum lugar oculto da cela onde estava e iniciou tentativas vorazes de “pescar”
o ilícito que, como num passe de mágica, vinha pelos ares.
Levantei, saí correndo, de onde estava até a cela
44 era longe e tinha de “atrasar” o ladrão, antes dele pegar o malote, pensava,
pegarei eu.
Ah, cadeia, cadeia, sua megera....
Tua aparência de bonitinha e tranquila é sempre
falsa.
Tua verdade, cadeia, é um caldo de sarcasmo e
engano.
Nada é o que realmente parece na cadeia...
