quinta-feira, 7 de maio de 2026

NA JANELA DA 44


A madrugada da cadeia é um oceano...

... de silêncio!

Tudo na cadeia é aparência, aqui tudo é fugaz, efêmero, não se sustenta pelos padrões da verdade, justiça e virtude.

A realidade aqui é oculta.

Absurdo isso...

Para enxergar a realidade é ter de escavar, escavar e busca-la como se garimpa ouro, e, quando encontra-la atestar que aquilo que foi encontrado não possui valor... ouro de tolo.

A aparência é falsa.

A realidade é espúria, maligna, desprovida de virtude, e, sem virtude, o que nos resta?

Em uma dessas madrugadas silenciosas, quando a realidade repousava em sua toca de engodo, um preso qualquer se assentou na janela de sua cela 44.

Quieto.

Absorto.

Pensativo.

Agarrado às grades olhava para o mundo lá fora, perto e longe, esticando olhares como se buscasse respostas, como se quisesse encontrar o sentido de sua vida, como se estivesse a fazer uma profilaxia de sua alma.

Estava tudo tão quieto, a única coisa que se via (e ouvia) era o seu quadro recortado na parede do cárcere, sua figura enquadrada na janela de sua cela.

Era... era... triste...

Ainda assim, com o olhar correto, via-se alguma beleza poética no homem pensativo – o pensador que buscava entender a sua vida.

De repente, muito de repente, como são as coisas na cadeia, as águas do silêncio deste mar foram agitadas.

O policial da torre via rádio anunciou: drone!

No monitor, vi o homem sentado à janela 44 se agitar, saiu de seu estado de contemplação, ficou atento na movimentação lá fora buscando onde estava o aparelho voador, empunhou um cambão que retirou de algum lugar oculto da cela onde estava e iniciou tentativas vorazes de “pescar” o ilícito que, como num passe de mágica, vinha pelos ares.

Levantei, saí correndo, de onde estava até a cela 44 era longe e tinha de “atrasar” o ladrão, antes dele pegar o malote, pensava, pegarei eu.

Ah, cadeia, cadeia, sua megera....

Tua aparência de bonitinha e tranquila é sempre falsa.

Tua verdade, cadeia, é um caldo de sarcasmo e engano.

Nada é o que realmente parece na cadeia...