domingo, 17 de maio de 2026

AO REDOR DO CRIME TUDO É ABISMO

 

O que se contava nos corredores da quimera era que quando ele chegou, na rua havia sido um homem com alguma influência.

Na cadeia, ser influente é alguém que tem um bom emprego, um bom salário, família estruturada, portanto, para essa espécie de gente o crime se torna algo distante.

Essa é a crença: a posição social ou econômica afasta as pessoas do crime.

Tudo um engano.

A criminalidade não é resultado do status ou poder da pessoa, a natureza é por si só pecaminosa, são os freios éticos e morais de cada um que impedirão que o mal quebre a castanha da possibilidade e o crime se torna real.

Neste caso, estes freios neste indivíduo foram afrouxados pela droga – não se sabe o momento, nem os motivos que o levaram as veredas do vício, sabemos que do vicio para a cadeia foi um pequeno passo – para os abismos poucos passos são mais que suficientes.

Dentro da cadeia, os freios éticos e morais que estavam afrouxados foram imprudentemente destruídos.

Uma vez lá dentro, ajuntou-se com a nata da vagabundagem, com a escória da prisão, estabeleceu intimidade com essa gente e com essa gente abraçou a miséria em seu esplendor e de tal forma acostumou-se com ela que desapareceu no núcleo mais imprestável da penitenciária.

Essa descida para esse abismo foi sem freios, queda vertiginosa, e pelo caminho foi ficando família, dignidade, honra e, por fim, a saúde, tudo escoou por esse ralo chamado leviandade.

A droga levou tudo dele, até mesmo a consciência de seu estado deplorável.

Num instante, começou a ser frequentador da enfermaria, internações viraram rotina; remédios, drogas e procedimentos clínicos tornaram-se seus companheiros diários e, isso tudo, somado a sua vida de abusos o resultado foi o esquife, um ataúde guardou o homem que um dia, chegou a ser considerado influente na cadeia.

O crime não escolhe ninguém, as pessoas escolhem o crime; da mesma forma, são os homens que, por suas escolhas, mergulham nos abismos mais profundos.

Nesse dia, um dia igual e cinza como qualquer outro, esse preso foi engolido pela boca voraz de um tumulo e o que ele foi, o que poderia ter sido ficou esquecido para sempre... para sempre.... dentro do abismo que ele mesmo escolheu.

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