terça-feira, 7 de julho de 2009

POR UM COPO D’ÁGUA GELADA...



O rapaz encostou a mão nas grades; o corpo, todo ele, escorado na parede de concreto, fria parede de concreto. Olhou à sua frente, mais paredes; ao seu lado, mais grades; estava parado no grande corredor de cadeia, a longa estrada que encaminha todos os sonhos ao cárcere.
Olhei para os seus olhos, ele estava abatido; reclamou de dores aqui e ali. Percebi que o físico não doía tanto assim, seu abatimento, seu maior martírio era n’alma, a cadeia destrói os espíritos antes de arrebentar com os corpos.
Enquanto aguardava a enfermeira, ficou ali, conforme lhe foi ordenado, nesta espera casual, nesta fresta da grande expectativa pela liberdade. Estas pequenas lacunas no cotidiano entre grades são muito valorizadas na cadeia, elas dão importância ao seu protagonista, qualquer coisa, por mais tola que pareça, que quebre a rotina enclausurada, é festejada.
Com algum cuidado, passou o olhar pelo ambiente: a um canto qualquer, as velhas e puídas cadeiras, e ainda tão úteis; sobre uma carteira escolar aposentada forçosamente, alguns papéis para anotações e uma caneta; os agentes todos espalhados, atentos, absortos nos movimentos da cadeia, esquecidos de suas próprias vidas; recostado à parede, a garrafa plástica com água gelada. De tudo o que viu, notei, seus olhos pousaram excitadamente sobre a água gelada. Fixou-se nela em um flerte estranho. Conversou comigo, banalidades. Algumas informações lógicas, algumas efemérides gastas, todas recepcionadas com a alegria alvissareira de novidade, vive-se tempos onde o mundo exterior e seus espectros tecnológicos não alcançam este lugar perdido. A cadeia não faz parte mesmo deste mundo, existe em uma outra dimensão.
Depois destes preâmbulos verbais, instrumentos que prepararam o caminho à grande investida, ele pediu-me um copo d'água gelada. Pareceu comum, mas não o foi. O pedido saiu com tons de apelo, uma súplica justificada pela longa estiagem de sorver um gole d’água gelada. O atendi e ele pegou o pequeno copo descartável como se tomasse em suas mãos o cálice sagrado, o Graal. Bebeu o primeiro gole, com idolatria; o segundo, foi com os olhos fechados como se assim sentisse mais intensamente a temperatura da água, como se dessa forma a sensação prolongar-se-ia indefinidamente. Até um simples copo d’água gelada pode servir de catalisador para grandes emoções na cadeia, que mundo miserável este que nos furta a rotina da simplicidade, que nos cerceia destas pequenas felicidades que no mundo comum, não valorizamos.
Ao tomar a água agradeceu, não por protocolos ou obrigação, agradeceu com sentimento de gratidão sincera, vi isso em seu olhar!
Aprendemos muita coisa na cadeia e, a maioria destas coisas, é descartável, todavia, naquele dia, este interno e um simples copo d’água gelada renovaram-me uma antiga lição que aprendi com Cecília Meirelles: a felicidade vive mesmo nas pequenas coisas....

6 comentários:

Fatima disse...

Oi amormeuzinho!
Deve ser tão triste assistir essas cenas Gilberto. Ainda bem que eles podem contar com olhares de humanidade, mesmo sendo seus crimes, as vezes, tão desumanos.
Bjs docinho de amendoim.

Cris disse...

eis um texto que nos prende do inicio ao fim...quer se ler o que vem depois e depois...
adoro as suas crônicas, e a maneira como você vê o mundo, simples e cheio de sabedoria.

meus sinceros parabéns Gil! você é um grande escritor

joesio disse...

E é justamente pelo fato de "a felicidade viver mesmo nas pequenas coisas" que devemos buscá-la e preservá-la sempre, antes que ela também se torne "descartável"...

Andreza Canto disse...

Ola Gilberto

Fico muito grata pelo o seu comentario,amo viver a vida sem planejar o meu dia... sem planejar o meu amanha... viver por impulsos e a melhor que há.
Otimo os seus textos... adorei muito bom mesmo.

beijos

Déia disse...

Realmente..as vezes a maior felicidade do mundo é um simples copo de água...

Regina disse...

Nos faz refletir que tudo na vida tem sua importância, depende do contexto...

Por isso mesmo, devemos valorizar todas as coisas, inclusive o que nos parece naquele momento, insignificante...

Bem bacana, Gilberto!

Beijos!