quinta-feira, 25 de março de 2010

POST MORTEM!

Morri!
E, depois de mim haverá todas as demais coisas.
Acreditei-me importante e minha morte mostrou-me o quanto era fraco e pequeno, o quanto era disponível e descartável.
O mundo continuou girando,
Crianças ainda indo para a escola,
E pássaros cantando mais um dia de sol.


(Gostaria disso, no dia de minha morte, de pássaros cantando para a brisa, para as flores, para o dia de sol...)


Meus amigos foram para o trabalho do mesmo jeito,
O comércio não fechou,
As guerras não cessaram,
E tudo o que fiz foi esquecido no dia seguinte à ultima pá de terra sobre meu ataúde.


Houveram lágrimas, sim houveram, e elas se misturaram à terra, a mesma terra que devorou o corpo de Adão e Eva e agora mastiga lentamente o meu.
Se fui egoísta, arrogante, ambicioso, mau, invejoso, pretensioso.
Se fui altruísta, solidário, bondoso, generoso, bom, trabalhador,
Tudo bem, tudo nada, nada mais importa,
O Tudo e o nada perdem a autoridade quando se morre.
O que fui,
O que poderia ser,
Foi tudo sepultado por grossas camadas de terra,
E não há mais chance para qualquer coisa.


De tudo o que fui, nada restou... Nada...
Minha fortuna, minha pobreza, minhas roupas de grife,
Meus perfumes importados,
A bela casa na praia e no campo,
O carro do ano,
A inveja que gostei de semear sobre mim,
A vaidade com que conduzi minha vida
E meu delicado senso de felicidade,
Tudo isso ficou para trás, esquecido, apagado,
Na poeira que agora me digeri.


Não sou sequer história.
Quiçá que eu seja memória na consciência de alguém,
Pois todos os meus já são mortos... Como Eu...


Meu pomposo nome riscou-se de todas as atas,
De todas as placas,
Dos documentos e das escrituras,
Ficou como um rascunho numa fria lápide,
E a velha cruz de madeira que repousava sobre meu túmulo
Caiu cansada de chuva e de sol.


Esqueçam de mim, esqueçam,
Eu sou o passado,
Eu sou a nódoa de uma lembrança,
Eu sou o que existiu e o que existiu é apenas um sonho!


Eu estive no caminho,
Estive no inicio, no meio,
Jamais conhecerei seu fim.
A gente não alcança o fim,
O fim nos conquista!


Morri....
E, depois de mim...
Virá todas as demais coisas!


Foto: Miguel Andrade (olhares.com)

7 comentários:

Fatima disse...

Não sei se achei bonito, não sei se achei triste demais.
Não sei não.
Bjs Gilbertomeuzinho.

Cris França disse...

estamos aqui apenas de passagem...um beijo

Glorinha L de Lion disse...

Gilberto, meu amigo amado!
Fico pasma com a sintonia de pensamentos que temos! E não estou exagerando nem um pouquinho...eu penso SEMPRE nisso que vc escreveu.
Eu penso que quando eu morrer, nada, nada mesmo restará de mim, de nós, de quem quer que seja...pois se até os grandes homens e mulheres, os que foram heróis ou mártires serão esquecidos, o que não dirá, nós, pobres e meros mortais comuns?
Poderia escrever sobre isso durante horas, mas fica aqui minha solidariedade a vc, meu amigo, pensamos do mesmíssimo jeito, e acho, que infelizmente, temos mais consciência de que não somos nada e seremos menos ainda após a morte, do que a maioria dos seres humanos...e isso dói, como dói ter essa consciência...preferia não tê-la.
Beijinhos.

Priscila Rôde disse...

O fim pode refletir o começo. Uma cosequencia. Um fim!


Um beijo Querido,
amei seu comentário!

Miranda disse...

Nossa Gilberto, teus textos são inebriantes, nado sem fim quando os leio, não viajo pra são plausiveis! E a morte é isso, como disse a Criis, estamos de passagem, mas deixamos algo, não material, deixamos algos nos que vem,talvez eu carregue uma frase que minha vó ou meu vô disse, e se eu passar pros meus e disser quem foi quem disse, eles sintam que realmente a vida de seus bisâs não foi em vão. Um conselho, algo assim!
LINDO POST beijos

Maria das Graças disse...

Gilberto,
é um texto acido,triste de uma realidade que não gostamos de encarar.
Mas apesar da certeza de nossa finitude,a vida é o que temos de mais precioso.

Inventemos a vida com sonhos...

Um grande abraço.

CIDA OLVEIRA disse...

oi Gilberto, texto forte,porém marcante, gostei muito, nos lembra o quanto nada somos, a despeito de nossos títulos e posição social, no fim, não passamos de nada, apenas o nosso espírito terá valor ao final, ele, eterno, levará a consequencia de nossas atitudes em vida, boas ou más. parabéns pela escolha de postagem. grande abraço
cida oliveira