domingo, 29 de novembro de 2009
A ROSA E O BEIJA-FLOR
O beija-flor flutuou em volta de si mesmo,
Olhou a sua volta e o jardim estava florido,
A primavera lhe sorria com seu
Rosto mais belo e jovial.
Num canto do jardim,
Uma rosa mostrou-se-lhe!
Cores bonitas e vibrantes,
Pétalas macias e aveludadas,
E despejou no ar o mais perfumado
Dos eflúvios que se fora sentido.
O beija-flor encantado aproximou-se
E fez a corte para a linda rosa!
Ela se abriu ainda mais,
Voltou-se-lhe toda para ele,
Deu-lhe um sorriso e pediu:
- Sejas meu! Serei somente tua!
O beija-flor bateu excitado suas asinhas,
(Poderosas asas!)
Mais que encantado
Estava inebriado pelo perfume
Da bela rosa, e respondeu:
- Serei teu! Sejas minha!
E beijou a bela rosa
No fundo, no profundo
Da alma da bela flor!
Ela agitou-se num espasmo,
Excitou-se com o toque intimo
Do amado... E...
Teve um orgasmo!
... E o beija-flor bebeu cada gota de seu néctar!
sábado, 28 de novembro de 2009
O DIA QUE NÃO TERMINOU...
Pai amanheceu...
Acordou cedo
Saiu para o trabalho.
Levava nos braços
A marmita,
O bom dia nos lábios.
No serviço
Não apareceu...
Reclamaram depois!
Pai andava doente,
O fígado mal tratado,
O coração cansado,
A bebida, o vício,
Rachava-o em dois!
Passou o dia fora
Ninguém soube onde foi!
Depois o telefonema!
Lágrimas nos olhos!
Num bar qualquer...
Pai não anoiteceu!
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
O HOMEM QUE SE APAIXONOU PELA NASTASSIA KINSKI
(Segunda versão / Para o blog)
Era um sujeito que passou a vida a suspirar amores pela sétima arte. Quando assistiu “Um corpo que cai” perdeu-se em suspiros pela Kim Novak. Alguém lhe falou um dia que preferiria a Greta Garbo, rosto duro e sensual. Ele zombou, para bater a Greta em beleza, exclamou, bastaria a Ingrid Bergman, nem precisaria da Ava Gardner. Mas seus amores, quer por Bergmann, quer pela estonteante Kim, passaram, como sempre passou seus amores enlouquecidos de sessão da tarde. Bastava ver um novo filme, e pronto, lá estava ele pelos cantos, a suspirar poesias, exalando olhares profundos e lânguidos pelo vazio, escrevendo cartas demoradas que nunca seriam entregues, sonhando encontros impossíveis em todas as partes do mundo com as mais diferentes atrizes. A mãe nunca se incomodou muito, sabia que tudo duraria até a próxima locação de VHS.
E o próximo veio e chamava-se “A marca da Pantera”, um misto de “Noir” de suspense e “thriller” que trazia em seu “cast” de estrelas, a belíssima Nastassia Kinski. Viu e reviu o filme dezenas de vezes. A nudez de Nastassia decorou-a com os olhos. Conhecia cada curva de seu belo corpo escultural. Aprendeu a conhecer todas as falas da película, o roteiro lhe era intimo. O corpo nu de Nastassia que na tela caminha lentamente em busca de um destino incomum, para não dizer bizarro, em seus sonhos caminhava para sua cama. Amou-a que ficou fraco e teve de ser internado pela mãe que pela primeira vez na vida, começava realmente a ficar preocupada com estes amores absurdos do filho pelas mulheres da tela grande.
Nas noites, sonhando chamava por Nasty, assim chamava-a carinhosamente, tamanha era a intimidade que ele havia estabelecido com ela em seu universo psicodélico.
A mãe desesperou-se. O filho enlouquecera de vez. Foi quando alguém teve uma boa idéia. De algum lugar apareceu um vídeo cassete. De outro, veio uma cópia do filme “Gilda”. Ele o assistiu com descaso inicial, mas, quando viu o strip-tease de Rita Haywoord, strip que não tirava nada mais que uma luva, estava enfurecidamente apaixonado por ela. Quando perguntado sobre Nastassia, disse que sentia muito, mas os amores de verão são mesmo assim, são como a brisa que corteja nossos corações, areja, areja e se vão. Ela saberia entender, havia encontrado o grande amor de sua vida: Gilda! E rebobinou a fita novamente...
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
O PSICOPATA
Chegou do seu julgamento vestindo a mesma face que teria se houvesse feito uma visita dominical à praça da cidade. Era o seu quarto ou quinto júri que participava, todos eles por homicídios qualificados, em todos eles condenado.
Mas, o monstro que demonstrava ser na liberdade, no presídio domesticava-se. Era tranqüilo, calado, não oferecia problemas, era quase educado e gentil. Tinha um bom linguajar e conseguia conversar naturalmente com os mais variados tipos de pessoas que freqüentava-lhe o caminho, sabia, enfim, isto sendo uma notória qualidade dentro da cadeia, colocar-se em seu devido lugar e lá ficando até ser solicitado.
Chegou elegante, cabelos penteados, o juri fora célere (com ele era sempre rápido), provas cabais, contundentes demais, na maioria das vezes réu confesso. E, para ele, tanto fazia quanto fez, já tinha mais de cem anos em regime fechado nas costas, qualquer coisa que se adicionasse a esse montante não lhe faria maior diferença – no final de tudo, ele sabia, seriam 30 anos de cadeia, e pronto!
O homem perguntou-lhe, sem maiores interesses, qual havia sido o resultado do júri.
Sem menor interesse ainda, respondeu que fora condenado a 21 anos no regime fechado no homicídio e a 10 na tentativa.
Humor negro! O sujeito questionou-lhe o porquê da vitima da tentativa ter conseguido sair vivo...
Ele olhou dentro dos olhos do questionador e respondeu:
- A minha parte eu fiz... Meti seis tiros no couro do sujeito e ele escapou... Fazer o que... Couro duro...
Sorriu. Virou as costas, entrou em sua cela, desapareceu na escuridão do cárcere.
Ao se virar para ir embora, num ultimo relance, o questionador vislumbrou um brilho estranho e bestial no olhar dele, que se extinguia... O brilho que se vê nos olhos do predador prestes a atacar a presa. Teve a nítida certeza, não se domestica espíritos selvagens...
Foto: Norman Bates (Anthony Perkins, em Psicose, de Hitchcock) / Foto meramente ilustrativa que não se vincula diretamente com o texto. Uma singela homenagem ao ator que deu vida ao maior psicopata que o cinema conheceu, em minha modesta opinião.
terça-feira, 24 de novembro de 2009
A GRANDE FACE DO MUNDO
Sinto um estranho ímpeto de correr
De encontro à grande face do mundo.
Quero sentir o mundo inteiro em minhas veias,
Quero senti-lo na primeira batida de coração
Que me foi percebida neste dia,
Quero tê-lo na derradeira,
Na ultima ribombada coronária
Que impulsiona um homem
Para o além,
Àquele exato momento onde
Verdade e homem se encontram
E tornam-se únicos!
Eu quero encarar esta cara cafajeste
Deste grande mundo inventado pelo homem.
Quero poder lhe dizer todas as verdades
Que tenho vontade de falar,
Quero subverter a sua ordem,
Quero subverter a minha própria ordem,
Quero quebrar os protocolos,
Essas correntes que me foram colocadas
Quando as minhas pernas
Ainda não eram fortes o suficiente
Para enfrentar este grande encontro.
Não existe rancor em meu coração,
Assim, não existirá em minhas palavras.
A verdade carrega esta magia,
A verdade não conhece rancores.
Os rancores se produzem com mentiras.
Não irei para este encontro
Com a grande face do mundo,
Vestido de mentiras e falsidades.
Serei eu... Eu.... Em toda a minha essência,
Assim como fui um dia,
Puro e descontaminado de civilização,
Envolto na poesia original
Que habita o coração do homem
Que ainda é criança!
Isso, isso é que eu serei
No dia do encontro
Com a grande face do mundo:
Serei criança novamente!
domingo, 22 de novembro de 2009
A FORMA COMO TU ME QUEIRAS
Não me queiras, se em teu querer buscares algo que existiu em teu passado. Não quero ser para ti, nem para ninguém, uma comparação, uma busca, um encaixe para uma lembrança de amor. Não quero ser alternativa. Recuso o papel de similar, de parecido, de genérico.
Não me queiras como bonitinho e gentil, este papel é fútil demais para mim.
Me queiras de uma forma original, de um jeito que não quisestes antes, que não tivestes antes. Sem comparações, sem procuras, sem receitas prévias.
Dispa-se primeiro, antes de vir até mim.
Não te quero com os vícios dos seus antigos amores, nem com teus sonhos já usados e gastos.
Renove-se, por completo.
Quero-te virgem, em sentimentos.
Quero-te com novas buscas, novos sonhos, novos desejos, livro em branco pronto para ser escrito, sem medos, receios, desejosa de amar e ser amada, diferente... Diferente...
Porque é tudo o que te prometo – o diferente!
Não quero ser melhor que outros! Quero ser melhor para você!
Não vou seguir fórmulas, o amor não dá para guardar dentro de uma redoma.
Nosso amor vai ser feito leal e fielmente, dia após dia, olho dentro do olho, com meu coração afagando o seu coração... Assim, simples, sem maiores construções.
As grandes expectativas estragam o amor. O amor, minha querida, prefere o ingênuo, por isso, te ofertarei o simples:
Meu coração, para te abrigar!
Meu coração, para te abrigar!
Meu amor, para te dar generosamente...
... E todos os meus dias para você!
O resto, a gente conquistará juntos...
CONVERSA, CACHAÇA E HISTÓRIAS
Os velhos homens
Sentados ao balcão
Conversam...
... E entre copos de
Cachaça e conversa fiada
Eles relembram o passado.
O passado e suas tristes histórias.
O passado e suas alegres histórias.
E eles riem e gargalham
De causos antigos,
De memórias esquecidas
E pelo álcool agora remexidas.
E no crepúsculo,
Quando um olho sóbrio
Relembra as responsabilidades.
Lá se vão eles
(os velhos homens)
Afogando suas vozes
Na poeira da rua, e
Levando embora com eles
Suas velhas histórias...
Ilustração: Van Gogh, Quadro “Café noturno da casa Lamartine de Arlés”
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