quinta-feira, 19 de agosto de 2010

A CASCA

... e tinha os lábios de Nastassja Kinski emoldurado por um rosto de Marlene Dietrich. As feições eram belas e firmes, femininas e sensuais, chamavam a atenção masculina pelas sugestões selvagens que emanavam dela, a mulher era uma força da natureza e tudo nela voltava-se para um norte lascivo de sugestões mais que concupiscentes.



O ambiente era muito preguiçoso dentro da noite, a madrugada ceifava os cansaços do dia dos passageiros do ônibus com um instrumento bem afiado e, sua entrada, numa estação qualquer, para os que estavam atentos quebrou a rotina sonolenta dentro do veículo. Primeiro, chegou o seu cheiro de fêmea em ebulição, um perfume instigante que ouriçou as narinas e todos os feromônios do lugar, depois, veio seu rosto e seu corpo e todos os olhos machos dançaram sob o luar por sobre aquela geografia espetacular de relevos e curvas. Ela, por sua vez, desconsiderou quaisquer observações e, decidida, sentou-se no seu lugar da mesma forma como uma rainha se acomodaria em seu trono, tinha toda a empáfia de uma majestade apenas faltava-lhe a coroa.



Em seu posto, correu os olhos pelo ambiente, por cima, investigando sem curiosidade a tudo com aquele ar de superioridade. Nela, diversos olhares tatuavam-se sensibilizados com sua beleza singular. Ela ignorava, transformava todo esse evento em algo pequeno, como se tudo o mais ficasse pequeno diante de sua oponente presença.



E nela, talvez seja essa a grande verdade – tão grande quanto sua beleza selvagem e livre era sua arrogância, sua prepotência, seu ar ególatra que a fazia acreditar sempre que era o sol e, o mundo ao seu redor, astros que orbitavam em torno de si.



Não olhava ninguém, nem cumprimentava.
Não dizia boa noite, nem pedia licenças.
Não agradecia, não respeitava fronteiras fossem elas reais ou imaginárias.



Para ela, sua beleza física já era o bastante e, somente isso, nada mais que isso, já era o suficiente para agradar os outros. Seu combustível era unicamente seus desejos; seus limites, a satisfação destes. Boas maneiras e gentilezas era uma roupa que vestia eventualmente, um caminho pouco pisado e somente utilizado para garantir seus interesses.



Olhei-a novamente, desta vez sob o filtro da verdade e vi sua verdadeira face, horrenda. Sua beleza de princesa transmutou-se e a fera que habitava nela mostrou-se por inteiro. Fechei os olhos rendendo-me aos encantos de Morpheu, esquecendo-me de belas e de feras, sabendo intuitivamente que uma premissa cravara-se feito seta em minha consciência – a beleza pela beleza é pouco, o que torna uma pessoa especial e linda é todo o contexto, aliando o físico privilegiado a uma gama de qualidades espirituais e de comportamento.



A bela e anônima garota que entrou numa estação no meio do caminho e, sumiu por outra esquecida no trajeto, foi uma das mais belas mulheres que vi na vida, mas, era somente uma casca de beleza, exuberante sem dúvida, mas somente uma casca...




Foto: colhida na internet

17 comentários:

Marilu disse...

Querido amigo, nem tudo é como aparenta ser...muitas vezes admiramos demais a embalagem e não nos preocupamos com o conteúdo...Beijocas

Fatima disse...

E o mundo se rende com tanta facilidade a esta casca não é verdade?!
Bjs amigomeuzinho.

Anna disse...

Estão todos preocupados com a casca e o que será do conteúdo ?

Bjus

olhar disse...

Fantástico!maravilhoso....somente uma "casca"...vazia...e oca.

beijos no coração!

Bia

Valéria Sorohan disse...

Uma pena, a beleza ser só isso, a maioria das vezes.

BeijooO*

URBAN.GO disse...

A casca é visivel, mas não é qualquer um que a descasca ... que se apercebe dela. A vida tem muitos tipos de casca, uns justificáveis outros ...
Lembro por exemplo a casca "palhaço" e seu sem número de aplicações. No entanto ver para lá da casca é um feito que a vida ensina a alguns ... poucos felizardos.
Parabéns pelo olhar perspicaz.

Cris França disse...

como dizia a minha vó

por fora, bela viola
por dentro pão bolorento

linda crônica

bjs

ValeriaC disse...

Adorei...muito bem escrito e agradável de ler...
Meu querido, sem dúvida alguma, a verdadeira beleza, vai muito além do que qualquer aparente beleza exterior...
Que seja doce seu final de semana amigo!
Beijos...
Valéria

ELIANA-Coisas Boas da Vida disse...

A BELEZA VAI ALÉM DA CASCA!

legalmente loira... disse...

querido amigo,
que lindo....
tem uma linda alma:)tem muita gente oca que precisa ler este post...

um otimo final de semana com bjos meus...obrigada pelo carinho!
volto segunda...

Cria disse...

Sempre bom voltar aqui e te ler. Impecáveis palavras. Beijos, poeta amigo.

Sonhadora disse...

Meu amigo
Lindo texto, como sempre .
Adorei

Beijinhos
Sonhadora

Cria disse...

Vim aqui te desejar um lindo dia, agradecer a presença ilustre e o comentário maravilhoso no meu cantinho (amei, verdadeiramente). Obrigada, sempre, pela atenção e carinho para com a minha pessoa. Grande beijo, poeta amigo.

Flor da Vida disse...

Belo, sábio, profundo, e muito
reflexivo o teu conto! Amei!!!
Carinhos meus a você... Abraços

Vera (Deficiente Ciente) disse...

Adorei a crônica, Gilberto!
Pessoas que dão ênfase às aparências(cascas), costumam ser extremamente superficiais e insignificantes. Não vale a pena viver assim! Precisamos encontrar o que há de melhor em cada pessoa, sem se render a aparência.

Beijos, meu amigo!

Gorete . SoLua disse...

Gilberto

Há tantas belezas "cascas"!
A leitura é despertante, excita a curiosidade.
Descrevestes maravilhosamente.

Doces beijos :)

Céci disse...

Ainda bem me indicaste o caminho para o teu cantinho de escrita, pk estou adorar ler-te.

Um dia lindo para ti

Bjinhos

Céci