quarta-feira, 5 de outubro de 2022

DISCURSO IMPERFEITO SOBRE A PERFEIÇÃO

 Perfeição?

Onde reside a perfeição?

Quem a concebeu?

Onde pode ser encontrada?

Sou um apaixonado por ela,

A busco como quem busca

O alimento,

Por tantas noites quis abraçar

O seu corpo e me manter

Aquecido e esquecido

Nesse abraço perfeito.

Perfeição?

Depois de tantos anos

Aprendi que jamais a encontrarei.

Aqui...

Ela não vive neste mundo,

Mundo imperfeito

De imperfeitas criaturas.

A perfeição visitou esse mundo

Uma única vez,

E quando chegou,

Trazendo o amor

Em forma de sacrifício e perdão,

Foi pregada no madeiro,

(Este mundo não conhece a perfeição.)

Então ela retornou para o seu lugar

E é lá que eu irei a encontrar...

Um dia...

Um dia...

Enquanto isso vivo a buscar

Arremedos de perfeição,

E por tanto ama-la e busca-la

Encontrei um dia seu sorriso

Encontrei seu abraço,

Encontrei a sua vida que

Se misturou a minha

E juntas, a minha e a tua,

Criamos algo próximo da perfeição.

Sim, com falhas, erros e carências,

Mas dentro do que falta,

Aprendemos a olhar o que sobeja,

Nosso amor

E a vontade de estarmos juntos,

E isso nos leva para próximo da perfeição.

Te amo dentro de nosso mundo imperfeito

E quanto mais aprendo a te amar,

Mais próximo fico do perfeito!

segunda-feira, 11 de julho de 2022

 


À SUA BENÇÃO, MAMÃE!

 

A pequena senhora já carregada de janeiros adentrou o raio com enorme expectativa, era nítido isso em todo o seu corpo.

Do meio da turba que estava dentro do pavilhão, um corpo sobressaiu algo agitado e foi de encontro a senhora que entrava.

Pararam frente ao outro.

Olharam-se fixamente.

Corações batendo forte como se tambores soassem em meio a balbúrdia do pavilhão.

Ele estendeu sua mão magra para ela – pediu a benção.

Ela estendeu sua mão magra para ele – deu-lhe a benção.

Tudo isso durou um instante mas foi acompanhada por dezenas de olhares bisbilhoteiros, ele nunca havia recebido visita antes, a massa carcerária estava curiosa.

Muitos dos que ali estavam nunca haviam testemunhado aquela cena antes – um filho pedir a benção a uma mãe – muitos sequer conheciam o que era benção, muitos sequer conheciam o que era mãe, assim, tudo era estranho e tinha gosto de primeira vez, um gosto ácido para não dizer azedo.

Alguém que já havia visto a cena e realizado o ato, sentiu na boca um gosto de saudades – lembrou-se da mãe que já partira e segurou com força uma lágrima que brotou do seio dessa lembrança e queria jorrar feito cascata ali em meio a bandidagem. Corações duros evitam emoções...

Outro, ficou com vontade de ser abençoado, porque se deixou levar por caminhos que sugeriam materialismos e futilidades.

Mas a velha mãe estava esquecida de todas essas coisas, toda a sua atenção se voltava para o filho bandido.

Simplesmente o abençoou, com todas as forças de seu corpo e sua alma, abençoou-o como se o fizesse a um santo, como se fosse a última coisa que iria realizar, como se a benção fosse regenerar o filho ladrão, como se ela pudesse tira-los dali e lança-los em voo para um lugar que fosse somente deles. Mãe é sempre mãe, mesmo aquelas que são mães de bandidos.

A verdade é que ela entregou tudo naquela benção, seu entusiasmo, sua energia, principalmente sua fé. Uma fé que a fazia sonhar que pela benção ela conseguiria transformar as ideias e os apetites do filho, consequentemente, sua vida e sua realidade, porque há muito tempo atrás ela havia entendido que sem Deus, no filho nada se regeneraria.

Ela entregou tudo naquela benção porque para ela e somente para ela, naquele lugar e em toda a parte, não era um ladrão que ela abençoava era seu filho.

E um abraço os uniram em frente a turba emocionada.

 

 

segunda-feira, 16 de maio de 2022

O PORTEIRO DA IGREJA


 Quando passei pela manhã, muito cedo, ele já estava em seu posto.

A igreja aberta.

Ele de prontidão aguardando o povo que chegaria.

Olhei em seu rosto e vi em sua face aquela satisfação da missão cumprida, do prazer do fazer bem feito, da alegria de servir por servir sem nada ter em troca que senão a certeza de que a eternidade o recompensaria.

Passei rápido e do carro o cumprimentei com a mão e um sorriso, o melhor que pude projetar.

Ele respondeu também com sorriso e um meneio de cabeça.

Entendo muito bem ele, seu trabalho, sua missão, sua alegria.

Já fui um dia o porteiro da igreja e sei o que é isso.

Parece ser um trabalho menor dentro de todo o aparato litúrgico de um culto, mas essa é uma visão minimalista, simplificada, para não dizer equivocada demais.

O porteiro é o primeiro dos evangelistas, o primeiro dos servos do Senhor Jesus.

Seu sorriso é a primeira luz que o homem natural recebe ao adentrar os umbrais da igreja.

Uma boa acolhida é o pontapé inicial para que a mensagem da salvação possa produzir bons frutos no inexpugnável coração humano.

As pessoas vêm até a igreja atrás de muitas coisas, as vezes querem somente um abraço, então, e somente então, o porteiro da igreja é o primeiro carinho, o inicial afago, a porta de entrada para um culto que pode transformar a vida de pessoas para esta vida e para a eternidade.

Sim, eu sei que vivemos tempos em que as pessoas não se satisfazem mais com o servir pelo servir, os títulos e a apoteose dos púlpitos brasileiros são uma tentação que muitos sucumbem, ser porteiro de igreja se tornou algo menor, quase que desprezado, como se a função não dignificasse aquele que a desempenha.

Quando alguém se torna por graças de Deus porteiro da sua igreja é dignificado, separado dos demais.

Quanta honra.

Aquele que recebe essa graça deve fazê-lo sempre com enorme alegria, galhardia, sempre me sentindo um privilegiado porque Deus poderia ter escolhido qualquer um dentro de todo o mundo, mas escolheu a ele para aquele função.

Ser escolhido pelos homens tem seu valor.

Ser escolhido por Deus não existe riqueza que pague isso.

Aquele porteiro daquela igreja naquela manhã entendia isso intimamente dentro de si.

Ali parado aguardando todo o povo era uma sentinela a serviço do Reino de Deus.

Ele sabia que ali, naquele exato lugar, naquele exato momento, em todo o universo era o melhor lugar para se estar e poucos, muito poucos, teriam o privilégio de servir.

Porque se pode almejar grandes cargos terrenos e se pode conquista-los de diversas formas: alguns com status, outros com concurso, poucos com dinheiro e até por indicação de poderosos.

Mas o porteiro da igreja não, jamais se conquista pela influência humana, pelo menos nunca poderia e deveria ser assim.

O porteiro da igreja é Jesus quem escolhe, porque a igreja é Dele, a obra é Dele e com ela nem o inferno pode prevalecer.

Quando virei o carro para ganhar a avenida e a rodovia que me levaria ao trabalho o sorriso do porteiro da igrejinha humilde havia desaparecido da frente dos meus olhos, mas ainda queimava em meu coração.

É esse o poder de um bom porteiro de igreja, seus sorrisos e amabilidades nos fazem querer glorificar e adorar ao Senhor.

Num instante, que lindo instante, me peguei glorificando ao Senhor estrada afora...

Abençoados sejam todos os porteiros fieis de igreja mundo afora.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

LUZ E ESCURIDÃO

 

A escuridão...

Sempre convivi com ela.

Era uma parceira que todos os dias

Comparecia para me tomar pela mão

E me conduzir pelos caminhos dessa vida.

Vida estranha...

Vida escura...

Escuridão...

Cego, cego pelas trevas,

Muitas vezes sorri para a vida,

Como se fosse realmente feliz.

Engano.

Cilada.

Sorrisos podem ser poderosas armadilhas.

Meus sorrisos serviam todos como arapucas

Brancas e cintilantes

Que me arrastavam, todos eles,

Cada vez mais, para dentro da escuridão.

Quanto mais cego,

Mais dentro da escuridão.

Cilada, lembram-se...

Um dia, entretanto, vi um lampejo de luz.

Segui-o para onde ia...

Era estranho ver aquele ponto brilhando

No maciço escuro das trevas.

Encontrei alguém que falava de um homem...

Que ensinou coisas verdadeiramente

Diferentes, deliciosamente diferentes.

Escutei como quem ouvia o som

Pela primeira vez.

Absorto, envolvido, encantado.

O ponto de luz foi crescendo,

Me envolvendo num abraço cálido,

Suave como a pétala de uma rosa,

Perfumado como um jardim.

Quando percebi, estava inteiro dentro da luz,

Olhei para os lados para ver

A escuridão...

Ela tinha fugido, apavorada.

A luz espanta as trevas.

Senti-me realmente em paz.

Confortável.

Feliz!

Absolutamente feliz!

Absurdamente feliz!

Verdadeiramente feliz!

Abracei quem pregou a mensagem para mim...

Abracei a mensagem,

Abracei o Evangelho.

Oh! Meu Deus, é verdade então!!

Não abracei o pregador,

Abracei o meu doce Jesus!

 

quinta-feira, 29 de julho de 2021

VOU LHE FAZER POESIA!

 


Há quanto tempo não te faço poesia?

Não consigo mais quantificar

E isto tornou-se desnecessário...

Forçar poesia é algo inconcebível,

Profano demais,

Violento demais,

Não se pode violentar poesias.

Poesias nascem de forma natural,

Nunca arrancadas de um coração estéril

Retiradas à força pelo fórceps

De uma necessidade pagã.

Poesias são como borboletas,

Elas simplesmente eclodem

Do casulo da criatividade.

Algumas dentro de um tempo,

Outras dentro de dois tempos,

Nunca apressadas,

Urgentes,

Fabricadas.

Poesia deve ser artesanal.

Construída letra por letra,

Palavra por palavra,

Cada verso sendo uma pedra preciosa

Que irá incrustar a coroa

Poética que será posta

Majestosamente no coração

Da mulher amada.

Se não há poesias...

Simplesmente não há.

Aguarde-as como se aguarda

O filho que vai nascer,

Como se aguarda o sol

Depois da mais negra madrugada,

Como se aguarda a primavera

Depois de um rigoroso outono.

Há quanto tempo não te faço poesia?

Deixei de pensar nisso...

Fazer poesia é fazer amor em palavras.

Não tenho lhe feito amor nas palavras,

Isso é a verdade e fico triste com isso.

Fazer poesia é fazer amor em palavras.

Tenho feito amor em você, com você,

Como se fosse a primeira vez,

Com a volúpia da primeira vez,

Com o desejo da primeira vez,

E a certeza de que serão para sempre

Todas as vezes que faremos amor.

Esta é a verdade, portanto,

E verdades arrancadas do amor

São inquestionáveis.

Toda vez que faço amor contigo,

Meu amor muito mais que amor,

Estou te fazendo poesia,

Assim, não tem faltado poesia

Em nossa vida,

Em nossa cama,

Em nosso amor...

Faço poesia toda as vezes

Que faço amor contigo!

Farei poesia nessa noite!

domingo, 28 de fevereiro de 2021

OPERAÇÃO SELVA 1

 


A coragem de um policial penal é um caldo espesso feito de diferentes ingredientes, um deles é a loucura.

Já disse isso antes, empresto apenas novidade porque essa é uma frase que se faz nova em cada alvorecer.

Todos os dias, dentro de uma grande cadeia, ou nesse trabalho que hoje em dia se desdobra para fora dos grandes muros, a coragem desses homens e mulheres é testada até a exaustão, até seu limite supremo. E, quando a corda parece que vai arrebentar, ela se estica.

O que move essa gente a fazer o que fazem é inexplicável.

Isso nasce dentro do coração do policial penal e se torna parte dele.

Um dia, dia qualquer, ele simplesmente aprende a domesticar o medo e, desde então, essa besta não mais tem poder sobre ele.

Esse demônio fica lá, incisivamente, tentando, provocando, criando armadilhas para a queda do policial penal, mas, sem sucesso. O homem domesticou a selvageria desse sentimento e ele não tem mais qualquer poder sobre ele.

O medo é uma das armas do crime.

O crime é mutante, dinâmico, sempre busca novas possibilidades e somente ainda não venceu graças a essa gente, policiais penais que simplesmente, aprenderam a domesticar o medo e não se deixam vencer por ele e pela incapacidade institucional de se adaptar a agilidade do crime e dos problemas.

Se a solução não vem de forma sistêmica, essa gente oferece remédios pontuais.

Um desses remédios vislumbrei dia desses e fiquei admirado com a força dessa gente.

O sistema acordou e fechou diversas portas para o crime.

Os portões se fecharam com cadeados difíceis de abrir.

As muralhas ficaram altas demais.

As sentinelas ficaram extremamente vigilantes e não passava nem agulha por cima dos grandes muros.

O crime pensou, se os “bagulhos” não vem por baixo, vão vir por cima.

Arrumaram um drone e das alturas despejaram pacotes de ilícitos para dentro do presídio.

A quimera ainda comemorava o sucesso, rindo da cara dos guardiães da muralha e dos policiais dentro de seus corredores, quando alguém teve uma ideia insana: Se a gente não pega o bicho encima, vamos pega-lo embaixo, pela crina.

A máxima era a mesma do crime, agora se voltava contra ele a favor da polícia.

Quatro deles, tomaram um banho demorado naquele caldo espesso que foi suplementado com doses generosas de loucura e saíram no encalço.

Não tinham nada, só vontade, só coragem.

Deus ajuda os homens de boa vontade.

Chegaram numa mata fechada e deram de cara com o meliante.

Rotina. Quando ele viu a polícia correu para dentro do mato.

O crime ama o mato, o esgoto, a treva.

Caíram para dentro sem pensar duas vezes.

Dividiram-se.

Um deles, entretanto, dentro da mata fechada deu de cara com o ladrão.

O ladrão olhou para ele.

Ele olhou para o ladrão.

Deu voz de prisão.

O crime parece ser surdo, mais que surdo, tem medo. O medo impulsionou o ladrão e ele se jogou para dentro do matagal e desapareceu nos subterrâneos daquela floresta.

Quando tudo parecia perdido, chegaram os colegas, um deles trazendo debaixo do braço o drone do crime, no rosto o sorriso da vitória.

Voltaram para a cadeia.

A quimera ainda sorria quando eles entraram...

Daí a pouco, pelos cochichos do corredor, cadeia não tem “off”, a quimera soube da vitória da polícia.

Aquietou-se.

Seu sorriso engasgou-se na garganta.

Foi dormir com dor de cabeça naquele dia, o monstro.

 

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

BAÚ DE ANO NOVO

 

 


       

Novo baú foi aberto.

Novas expectativas expostas.

Outras já velhas

Nos revisitando trajando

Cachecóis e bengalas

Ansiosas de serem satisfeitas.

Insistentes...

O antigo baú foi lacrado,

Guardado no sótão do tempo.

Alguém sugeriu que colássemos

A etiqueta: Vitória!

Resisti...

Não enxergo essa vitória,

Não sinto seu calor em

Meu coração esperançoso,

Sequer sinto seu gosto na boca.

A verdade é que a maioria de nós

Anda esquecido e desajeitado.

Agradecendo as garrafas que bebeu...

Os bifes que comeu...

O hospital que não visitou...

(tantos visitaram hospitais...)

Tudo tão pouco,

Tão insuficiente.

Esqueçamos o velho baú.

Ele foi enchido com egoísmo,

Narcisismo e coisas vãs.

Baú perdido... perdido...

Olho para dentro do novo baú,

Estico meus ouvidos

Para as promessas que acabam

De nascer na boca da humanidade.

Tu não está nelas, Pai!

A maioria da maioria de nós

Anda mesmo esquecido, Pai!

Baús se abrem...

Baús se fecham...

Jesus não nasce no coração do povo.

Quantos baús ainda nos restam???