segunda-feira, 15 de novembro de 2010

A CANADENSE E O BRASILEIRO

Ela chegou vindo do nada, surgiu em um carro qualquer e apeou tirando uma mochila que era maior que ela própria.
Eu chegava, depois de um plantão muito cansativo e tudo o que queria era chegar em minha casa e descansar nos braços de Morpheu. Desejava uma carona, o ônibus que fazia a linha, a vassoura do Harry Potter, qualquer coisa que me levasse embora...

Estávamos ambos num trevo que se abria para muitas frentes, para muitos destinos. Conseguíamos vislumbrar lá longe o Ergástulo erguido arrogante e seus grandes e poderosos muros brancos eretos, as torres vigilantes da grande fortaleza que encerra todas as possibilidades, o castelo que enclausura sonhos.

À nossa volta, uma natureza empobrecida pela mão do homem, algumas vacas pastoreavam preguiçosas no sol quente da manhã de outono.

Ela era mulher e estava cruzando a América querendo chegar na casa de uma amiga no Paraná e pretendia fazer todo esse trajeto andando e de carona. Corajosa a pequena canadense!

Fez-me uma pergunta de como isso seria possível, qual seria o melhor caminho e a respondi do melhor jeito que pude. Ela ouviu atentamente, como se ouvisse uma oração, como se sua vida dependesse daquilo. Depois, com o mesmo fervor que me deu atenção, desligou-se, piscou ambos os olhos para mim, como se dissesse “fique bem” e partiu, a grande mochila nas costas cobrindo seu valente corpo, sem maiores considerações, sem grandes despedidas, focada em seu objetivo.

Vi-a caminhando, sempre em frente, obstinada, decidida, destemida, olhando para o horizonte como se ele lhe fosse um velho conhecido; como se as estradas lhe estendessem as mãos e a convidasse para uma dança; como se o desconhecido lhe fosse um pai que mesmo que a largasse numa situação difícil estava sempre por perto para que, na hora “H”, socorresse-lhe.

Voltou-se de repente, ouviu um carro e fez o gesto característico de quem pede carona, o motorista freou, encostou, conversaram brevemente, a pequena Atlas colocou seu mundo no banco de trás do carro e pulou para dentro dando um ultimo sorriso, para mim, para todo o universo que ficava para trás – essa titã foi concebida para sempre ir à frente, o atrás lhe era estranho.

Eu fiquei lá, por mais alguns instantes, sentindo-me um centenário carvalho com suas poderosas raízes fincadas no chão, sem poder me mover.

Comemorei ter-lhe conhecido, exaltei a sua partida, rezei pela sua chegada sã e salva no seu destino, mas, de antemão sabia que isso era válido... e desnecessário. Soube desde o início que aquela pequena mulher canadense era uma sobrevivente das estradas, da vida e ela sempre chegaria aonde quisesse chegar.

E, quando parti, acreditei que de alguma forma estamos todos ligados neste pequeno planeta, feliz, por minha história ter se cruzado com a dela. Não dormi naquela manhã... nem naquela tarde... fiquei sonhando grandes viagens com enormes mochilas às costas....

18 comentários:

Mari Amorim disse...

Gilberto,
esta é a dinâmica da vida!
Boas energias,excelente semana!
Mari

SolBarreto disse...

Acho um barato as pessoas assim, que tem coragem de se atirar na vida de peito aberto...sem medo das dificuldades que surgem, alias fazendo delas parte da viagem de descobrimento de si mesmas e do mundo...Sou uma pessoa que pensa demais antes de me atirar assim na vida, e acho que por ese motivo admiro muito pessoas assim...

Marilu disse...

Querido amigo, admiro quem tem essa disponibilidade de botar uma mochila nas costas e correr o mundo, afinal é tudo o que se leva dessa vidinha. Mas já não tenho idade para isso...rsrs. Adorei sua história. Tenha uma linda semana. Beijocas

ValeriaC disse...

Adorável seu texto querido e voce está certo...estamos todos interligados de uma forma ou de outra... uns menos, outros mais aventureiros...mas todos no final das contas...caminhantes da vida...
Doce semana amigo...beijinhos
Valéria

olhar disse...

Puxa, que bonito o que escreveu aqui, Gilberto...

A vida é bem isto mesmo...é uma viagem..."trêns" chegando, tr~ens partindo...

Cada um correndo atrás de seus objetivos...e uma hora ou outra a gente sempre se cruza...

beijos em você!

Bia

Manuela Freitas disse...

Olá querido Gil,
Deliciei-me com o teu texto, sabes esse sempre foi o meu sonho, despojar-me de tudo e andar por aí de mochila às costas, mas não é fácil, nada fácil, tem que se ter «raça» para se entrar numa dessas!
Beijos,
Manú

Cria disse...

Muito bom, verdadeiramente ... Meu carinho, obrigada pela presença.

Regina Laura disse...

Gilberto, não é o máximo essa vida de conexões tão improváveis?
A vida é mesmo uma viagem muito curiosa, repleta de encontros mágicos.
Só é preciso ter disponibilidade para reparar nas diferentes paisagens que surgem ao longo do caminho.
Às vezes nos esquecemos disso...
Foi bom passar por aqui e me lembrar. :)
Beijo grande

Cris França disse...

a liberdade de alguns seres despertanos uma inveja enorme, o que é natural, posto que no mundo há carvalhos e passarinhos.
Mas pense em um mundo sem a sombra dos velhos e bons carvalhos? pense na crianças brincando sobre a proteção desse, pense na função e na missão deste, o carvalho será sempre uma referência, e até os passarinhos observam isso e por longe que possam voar, fazem seus ninhos no velhos carvalhos centenários. adorei o teu texto. bjs

Colecionadora de Silêncios disse...

Oi, querido! :))

Que história incrível!
E, sim, que coragem dessa moça!!!
Nossa, eu tinha vontade de fazer isso tb, mas falta-me muita coragem para realizar este feito de andar por aí conhecendo o mundo de carona... rs

Adorei a sua história... beijos. :)

claudete disse...

Brava canadense ...sua coragem deve ser fruto da educação e desafios que a vida lhe impôs. É também próprio desta juventude de hoje eles não precisam provar nada para ninguém, querem apenas viver o agora... depois assumem com galhardia duas responsabilidades.Pena que não é a maioria.Belo texto o seu e revela uma pitada : "ah! se eu tivesse coragem", rs, beijos para você e...nunca é tarde para aventurar-se.

Liou disse...

Interesante...

Melanie Brown disse...

Se não podemos por algum motivo viajar literalmente pode-se viajar aqui! Gostei muito de ler este post que fez nascer em mim uma grande curiosidade (rarissímas vezes sou curiosa, diria nuca!) de tudo! Se eles se reecontraram em outros hemisférios. Se nunca mais se viram com os olhos. Se dessa vez a moça novamente seguiu uma boa viajem. De como sua amiga a recebera diante de tanta coragem. Em fim, são inúmeras perguntas que caberia um "A canadense e o brasileiro 2" rs.
Abraços!!

Mayra Di Manno disse...

Ola Querido Gilberto,
Embora eu tenha esse espirito livre também, ainda tenho vontade de colocar a mochilinha nas costas e vazar por ai, sem lenço e sem documento... Deve ser uma experiência única!
Belo texto,
Um beijo,

Valéria Sorohan disse...

Que linda história de encontros. Saudade de vir aqui.

BeijooO'

VELOSO disse...

Sua crônica me fez sonhar com grandes viagens, parabens pelo texto solto!

Sonhadora disse...

Meu querido amigo

Realmente o mundo é pequeno, nós é que achamos que estamos sós...cada um de nós.

Beijinhos
Sonhadora

Melanie Brown disse...

Estou esperando "A canadense e o brasileiro 2", prometeu, avi ter que cumprir!! auhsuahsuha

Abração!

:D