sexta-feira, 25 de julho de 2008

AMOR À PRIMEIRA VISTA


É provável que tenha sido na rodoviária.
Sim, foi na rodoviária. Lá, nesse ambiente hostil às emoções permanentes, adepto das coisas passageiras e de brilho fugaz. Porque a rodoviária é mesmo assim, a amante canalha que nos tira o gozo mais arrebatador, único e absolutamente intenso; e, depois, com uma lágrima nos olhos ou um sorriso na boca, parte para as distâncias, colocando quilômetros entre ela e nós. Canalhice e encantamento não são essas as principais idiossincrasias dos amantes?
Mas a rodoviária é somente um parênteses nesta história, a intenção não é ficar fazendo apologias a ela e seus devaneios cafajestes. Esta história fala de amor, um amor que nasceu à primeira vista, e da mesma forma repentina como surgiu, numa gênese inesperada; sumiu, perdido em meio à multidão, tragado pela maldição da rodoviária, apocalipse instantânea.
Lembro-me com generosidade nos elogios do porte elegante da mulher, andando desenvolta pelo caminho oferecido com a segurança dos que sabem bem o que querem. Seus cabelos eram negros e de tão negros se amalgamavam à noite; impossível descrever noite; impossível descrever cabelos. Seus olhos grandes brilhavam incandescentemente; a boca de lábios grossos sugeriam beijos e poesia deliciosa; a pele morena mais morena estava devido aos abraços “calientes” do sol que a visitava montado numa rotina de apaixonado; não vou mais insistir nesta descrição, não por cansaço ou incapacidade de ser fiel àquela musa inspiradora, e sim, para não serem-lhes enjoativo perderem-se numa leitura envolta em lágrimas de saudades misturadas a suspiros enamorados. Pieguice, não!
O fato é que ela surgiu numa das minhas muitas noites na rodoviária, veio distante, todo aquele corpo moreno esguil e atlético avolumando-se, tomando forma à minha frente. Eu a olhei com interesse redobrado, as paixões masculinas pelas belas mulheres nascem sempre desesperadas (e interesseiras!). Ah! Minha paixão nasceu ali, naquele único olhar, veio pura, cristalina, desprovida do contágio da lascividade. Não se enganem, entretanto, com toda essa santidade, minha beatitude em relação a esta beldade também carregava sua fração de pecado, ainda que empanados em poesia, meus pensamentos em relação a ela não eram de todos castos. Minha sinceridade anda me acusando o tempo inteiro...
E ela me sorriu. Pelo menos foi isso o que sempre pensei. Se com o olhar ela lançou em meu peito, solo fértil, registra-se, sementes de paixão, seu sorriso sublime adubou a tudo com amor. Amei-a em um relance, e este amor penetrou-me tão profundamente em meu coração, que mesmo hoje, quando sua presença é apenas um rascunho de memória, ainda exalo suspiros apaixonados. Existem aqueles que amam devagar, e este levam uma vida inteira para fazê-lo de verdade. Eu prefiro amar depressa, como a amei naquele momento e em outras tantas vezes pela vida. O que é certo, presumo, no amor e em todas as suas considerações, não é se amou devagar ou célere demais, muito menos a quantidade de amores que se teve, vale sim, é a intensidade com que se amou ou se ama.
Mas ela partiu, como os sonhos que partem pela manhã, ao despertarmos da noite de sono. Levou com ela todo o meu universo de expectativas erigido em sua homenagem. Fiquei sozinho com as névoas de um sonho, com os eflúvios de um desejo.
Não soube seu nome.
Não soube de onde veio ou para onde foi.
O que importa saber é que a amei intensamente num primeiro momento, e os ecos deste instante me acompanharão por toda minha existência.

2 comentários:

lindinha disse...

Olá meu querido amigo!Sempre que visito seu blog me emociono,suas palavras me fazem sonhar e usar a imaginação...nem tenho palavras,esta de parabens meu querido!Adoro vc, e me sinto honrada por fazer parte do seu circulos de amigos!!beijos...

G I L B E R T O disse...

Linda

Agradeço suas palavras, com sinceridade real. Digo isso, por que nos ultimos tempos, tenho percebido que as pessoas tem usado da sinceridade uma arma para convecimento de suas idéias e interesses.
Contudo, sua generosidade é muito maior que minha criatividade, minha querida amiga de infância e de sempre!!!!

Um beijo em teu coração maravilhoso!