terça-feira, 10 de setembro de 2019

A canção do meu coração





Não me perguntes sobre o amanhã...
Não me perguntes sobre qual será a matéria prima dos dias que ainda não se fizeram para nós...
Não quero pensar nestas coisas...
Quero pensar nos dias atuais, no agora, no presente, no que vou viver e no que vou fazer dentro deste segundo que enclausura a minha vida e a tua.
Eu enxergo tua face dentro deste momento, não no que virá...
Meu beijo alcança teu beijo agora e teu abraço aquece meu corpo neste instante e não tem poder para espantar o frio do mais tarde.
Teu sorriso é o brilho que ilumina esta minha noite onde todas as poesias foram revisitadas.
Ainda escuto a canção do meu coração após tua mão ter pego a minha de forma tão delicada, e esse som tem todas as notas musicais do recente em sua melodia.
O futuro não existe para mim não consigo viver com as impressões que enfeitarão outros dias.
O amanhã não é meu nem teu, meu amor, o agora é que é nosso!
Não me perguntes, portanto, sobre o amanhã...
Ele não enche a sacola de emoções do agora.
O presente se enche de nada se toda a preocupação for o futuro!
E, preciso te amar, meu amor, preciso te amar com a intensidade do último instante de minha vida, e o último pode ser agora e não no amanhã.
De que me valerá todos os projetos, todo ouro e toda pedra preciosa se o amanhã me trouxer montado em sua garupa branca o Anjo Azrael e seu cálice de morte?
Percebes, minha querida, nós não temos nada que senão um ao outro, que senão o agora e nada mais...
O amanhã não nos pertence e a ninguém.
Então venhas, dê-me um abraço como se este fosse o último, porque se o amanhã não se fizer para nós, eu amarei o agora ainda mais pois que é dentro dele que te amo!!!

... e de agora em agora eu te amarei para sempre!!!!





segunda-feira, 2 de setembro de 2019

DEPOIS DO EXÍLIO...

          
          Durante o inverno ela não apareceu...
Provavelmente a família a deixou recolhida dentro de casa, protegida do frio. Gripes e seus primos maus podem ser fatais na idade dela, já avançada em janeiros.
Hoje eu passei, como sempre, e olhei para a sua poltrona na varanda, onde ela costuma descansar nas manhãs embaixo de um sol sossegado, desses que gostam de acariciar a gente; os mais carrancudos, falando sobre os sóis, aparecem somente mais tarde e estes vivem irritados.
Cumprimentei com a alegria de sempre.
Seu cabelo parecia mais branco.
Sua pele parecia mais branca.
Mais alvo do que tudo isso foi o sorriso que me devolveu.
“Deus te abençoe, senhora!”
Ela olhou como que surpresa, poderia ter me esquecido enquanto esteve no exílio forçado pelo frio.
“Amém!”
E sorriu...
Não me esqueceu...
Soube disso, pelo sorriso.
Quis parar e falar que estava com saudades.
Mas não tenho toda essa intimidade.
Nossos contatos são assim mesmo, de passagem, rápidos, possuem a duração do tempo de um sorriso; não vivem mais do que um suspiro de uma saudade morta pelo olhar de quem se queria ver; ainda assim, são puros, cristalinos e tão verdadeiros que parecemos marcar a hora de nos ver todas as manhãs, quando subo para a academia e ela está em seu banho de sol matinal.
Nunca gostei de invernos... sua ausência forçada somente me trouxe mais um motivo para detestar essa estação do ano cinza e bolorenta.
Quando me afastei... Ia mais feliz... Ela ainda está por aqui a me encantar os dias com seu sorriso e sua expressão meiga e delicada.
Quando voltei... ela não mais estava lá... já havia se recolhido para o interior da casa, o sol já mostrava sua carranca e minha amiga não gosta de rostos ranzinzas.
Sorri para mim mesmo.... Sem problemas... amanhã seria um novo dia e ela, certamente, estaria lá...
Quem sabe... quem sabe... tomo coragem e puxo até um dedo de prosa... Amizades começam com sorrisos e trocas de gentilezas, mas elas se erguem sobre poderosas pernas somente quando energizadas por algumas boas conversas e relacionamento pessoal.
Segui em frente, a vida me chamava como sempre, olhei uma última vez para sua poltrona vazia e abençoei minha amiga, mesmo que de longe, sabendo que meu Deus tudo escuta, tudo sabe e alcança todos os lugares.
- Pai querido, abençoe-a neste dia...
E ficou em meu coração uma certeza de que ela estava bem.

sábado, 22 de junho de 2019

CANÇÃO QUE ESCREVI PARA DEUS



Meu Pai!
Foi numa noite estrelada
Que chegastes até mim,
Andavas calmamente
E trazias serenidade
Nos olhos e nas palavras.
Naquela noite, Papai!
Inquieto estava meu espírito.
Questionava coisas que me intrigavam,
Perguntava sobre espinhos na carne,
Lamentava as dores desse aguilhão
Que me perfurava a vontade e
A tranquilidade.
Mansamente convidastes-me
Para assentar-me à sua frente,
Tendo como testemunhas
As estrelas e os anjos do céu.
Atentos...
Falastes com a segurança
De Quem tudo sabe.
Mostrastes caminhos que somente
Quem percorreu todas as estradas
Poderia indicar com exatidão.
Depois... depois partistes,
Na forma como veio,
Deixando sua ausência
A certeza de sua sempre presença.
Confesso que não soube,
No primeiro momento,
Que eras Tu, Papai!
Soube disso mais tarde,
Quando um coração mais atento
Abriu meus olhos cegos
Para tuas maravilhas.
Ai, Papai! Ai, Papai!
Nasceu em mim uma saudade
Tão imensa, de ti,
Que em todas as noites de
Céu estrelado
Olho para o céu e Te busco
Desesperadamente,
Aguardando seu retorno.
Hoje, nessa noite,
Olho para as estrelas
E pergunto para elas de Ti, Papai!
Elas se iluminam poderosamente,
Como se sorrissem,
(Sei lá, não entendo muito de estrelas...)
E em meu coração nasce uma certeza:
Estais nas estrelas, Papai,
Estais acima delas e além,
Mas somente consigo Te enxergar
Quando olho para dentro do meu coração.
É nesse lugar, Papai,
Que mais amas estar.
Te amo, Papai!
Te amo, Papai!
Até daqui a pouco, sim....

domingo, 16 de junho de 2019

Quando o bem nasceu em mim...



Houve um tempo que pensei que poderia ser melhor por mim mesmo.
Buscava em minhas próprias habilidades e potencialidades as ferramentas para melhorar o que minha pessoa era.
Arrogância humana...
Acreditei que, por mim mesmo, podia construir algo melhor para o outro ou para mim mesmo...
Percebi um dia que não conseguiria sucesso nesta empreitada.
Árdua missão.
Ser melhor do que sou usando aquilo que tenho.
Entendi que minha matéria prima era fraca e má, miserável mesmo. Não conseguiria mudar nada porque a minha natureza era maléfica.
O ser bom não estava em mim.
O mau sim...
Um dia, impulsionado por um estímulo, entrei numa igreja.
Ouvi uma Palavra que falava de salvação.
Ouvi uma Palavra que ia direto em minha alma.
Ela me revelou o que, sem querer, havia já compreendido.
Eu sou mau e, por mim mesmo, não conseguiria ver a bondade.
Conheci o Bem e soube que o Bem foi crucificado na cruz.
Os homens não conhecem o Bem, por isso, tentaram eliminá-lo na mais cruel das mortes.
Mesmo morrendo, o Bem morria de braços abertos, como se convidasse os homens para um abraço, um encontro.
Aceitei esse abraço.
Aceitei esse encontro.
A partir de então, algo começou a mudar em mim.
Não por mim mesmo, porque sou mau, sou péssimo e nada em mim merece alguma coisa do Bem.
O Bem começou a atuar em mim.
Transformando.
Removendo.
Inserindo.
Modificando.
Eu mudei e com minha mudança mudaram-se meus pensamentos, meus valores e perspectivas.
Hoje acredito que posso ser melhor.
Não por mim mesmo...
Simplesmente e unicamente porque hoje o Bem vive em mim.
Eu O aceitei e O sirvo.
Esse Bem chama-se Jesus Cristo.

terça-feira, 23 de abril de 2019

LEANDRO BRITO COM E SEM RIMA



LEANDRO BRITO COM RIMA

Conheci um bom rapaz.
Foi a algum tempo atrás.
Percebi de imediato que era diferente.
Percebi de imediato que era influente.
Só não sabia eu o quanto ele era capaz.

Não se conhece ninguém de vislumbre,
No primeiro contato só vem o deslumbre.
Tem-se uma ideia do sujeito e sua educação,
Porém, conhecer exige tempo e dedicação,
Somente o passar dos dias traz maturação.

O tempo foi de grande generosidade
No cotidiano erguido no cimento da verdade.
A primeira impressão foi a que ficou,
Mais que ficou, se gravou,
Mais que se gravou queimou em minha personalidade.

O bom rapaz era muito mais do que eu esperava.
Era inteligente, simpático, de sagacidade,
O céu se abria para ouvi-lo quando cantava,
Da janela da admiração eu debruçava,
Quando com sua voz linda a Deus adorava.

Quando olho para ele só vejo as qualidades.
Não é exagero de minha parte, sem alarde.
Foi feito para várias especialidades:
Ser adorador, ser professor, ser cantor,
Para esparramar amor e fraternidade.

A alegria é uma das cores dessa aquarela,
Amizade que nasceu num dia, linda passarela,
Depois, no firmamento dos dias, ficou permanente,
Misturada com outra gama de sentimentos quentes.
Essa amizade, linda pintura, vai durar eternamente. 

LEANDRO BRITO SEM RIMA

Um tempo atrás conheci um jovem.
Sujeito bom de sorriso fácil.
No primeiro momento vi que ele era diferente.
Possuía qualidades que já no primeiro instante
Se sobressaiam e marcavam as primeiras expectativas.
As primeiras impressões são poderosas.
Não devemos nos cativar por elas,
Podem ser deveras enganosas.
O primeiro contato pode ser puro deslumbramento.
Mas o deslumbre não solidifica certezas.
O encantamento por uma pessoa se consolida
Dentro do firmamento dos dias,
Os valores, as atitudes, tudo isso e mais,
Cada um funcionando em nós como estrela e
Cada estrela sendo posta no céu do cotidiano.
Se o céu vai ser suficiente brilhante a ponto
De nos cegar os olhos de encantamento,
Somente o tempo poderá dizer...
No caso desse jovem funcionou mesmo assim.
As estrelas foram saltando de um baú
Cheio de generosidades e bondades,
As qualidades de sua personalidade
Eram astros radiantes
Que ofuscavam as trevas da mesmice humana.
(Hoje é tudo tão parecido!)
Dentre todo esse caleidoscópio de atributos,
Um chamou-me ainda mais a atenção: sua voz!
Ah! Quando esse jovem canta para Deus,
(Quando esse jovem canta para Deus...)
Os anjos param no céu para lhe escutar,
E eu transformo minha admiração numa
Linda janela amarela com rosas de gratidão
Plantadas sob o parapeito dessa vidraça
Que se abre para a mais perfeita adoração.
E fico lá, debruçado, glorificando o meu Deus
Com toda a força que possuo na alma.
Ele glorifica cantando.
Eu... glorifico falando.
É mesmo assim...
Muita gente se move por primeiras impressões.
Prefiro  que essa certeza caminhe
Por estradas mais seguras.
O ser humano é muito mais que um mero momento.
O tempo ajuda a escarificar o que somos,
E mostrar para o mundo o que poderemos ser.
Vi nele, na primeira vez, um bom sujeito.
Os dias o transformaram num amigo.
O tempo e o bom Jesus nos fizeram irmãos.
Amizades dentro desse pequeno espaço
Que o mundo chama de vida sempre termina,
Ou por finais indesejados,
Ou por túmulos de boca aberta
Que engole os fraternos numa bocada voraz.
Nossa amizade até nisso é diferente,
Ela vai durar para toda a eternidade.
Um dia, não mais estaremos aqui...
Estaremos lá... no céu...
E quando ele estiver cantando para Deus,
Na praça de ouro no meio do céu,
Estarei no primeiro banco, chorando,
Feliz, juntando a minha voz aos anjos:
Glória a Deus!
Lindo assim...
Simples assim...
Como nossa amizade!

terça-feira, 26 de março de 2019

CARROS QUE RUGEM



A estrada ensina muitas lições.
A estrada nos mostra muitas coisas.
Contudo, exige-se experiência para que, ao mesmo tempo que tenhas a atenção e o respeito necessário que a estrada exige, consigas captar dela as epifanias que ela tem para mostrar.
Dias desses, montado na minha 150, quando ia para o trabalho, vi um pequeno rebanho de pintainhos no meio da estrada.
Os enxerguei já de longe, atento que vinha.
Apertei poderosamente a buzina e o ronco da corneta espantou os bichinhos para o acostamento e além dele.
Que faziam estes no meio da estrada?
Imerso em meus pensamentos, um carro passou ao meu lado em grande velocidade, urrando ferocidade enquanto devorava distâncias.
Pelo retrovisor vi os pintainhos retornando, pareciam perdidos, sem rumo, desconectados.
Logo a frente, vi o corpo sem vida de uma galinha.
Atropelada.
Um carro feroz havia devorado algo mais que distâncias...
Entendi o que acontecia com os pintainhos...
Entendi o porquê de estarem perdidos...
Não entendiam o porquê de a mãe deles não se levantar, não mais vir até eles para afaga-los; cacarejar alguma coisa, um ensino, uma exortação.
Eles ficaram lá, percebi, na beira da estrada, olhando para a mãe e para toda a parte, buscando entender o que acontecia...
Minha moto já me levava longe, ela também, ainda que em menor proporção, devorava distâncias...
Eu já não era mais o mesmo.
Estava triste com o destino dos pintainhos.
A mamãe deles jamais retornaria...
A estrada realmente nos ensina muitas coisas, algumas delas, nos deixa profundamente tristes.
O corpo da galinha ficou para trás, uma pasta carnosa no escuro chão de uma estrada cruel que não respeita a vida selvagem e domesticada que nasce e cresce ao lado de suas margens.
A estrada só conhece a si mesma e os veículos que são seus senhores.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

A CEIA SANTA



Vamos irmãos, todos irmãos meus!
Nosso coração queima de vontade,
Vamos adorar ao Pai, nosso Deus,
Em espírito e em verdade!


Enfeitemos a mesa, nosso altar.
Pão e vinho, alimento para o espírito.
Da cruz e Cristo, vamos nos lembrar,
A Santa Ceia é muito maior que um rito.


Se somos o que somos, remidos.
Não foi por mérito teu, sequer meu,
Éramos mais um na multidão de perdidos!


Oh, obrigado Deus, pelo filho Seu!
Enquanto subiam-no no madeiro crucificado,
Meu pecado descia da cruz purificado!

sábado, 8 de dezembro de 2018

LOBO NA SOLITÁRIA



Fato.
Todo ser que acabou trancafiado na cadeia é um ser auto destrutivo.
É alguém que possui nítidos problemas de personalidade, desconhece hierarquias e ordenamentos e, acima de tudo, não tem qualquer escrúpulo em quebrar leis e regras.
Leis e regras são fundamentais na vida em sociedade, são elas que estabelecem as fronteiras na convivência humana, a perfeita harmonia entre os homens.
Se não houver regras, não haverá ordem.
Dentro da cadeia existem uma espécie sui generis de preso que consegue ser ainda mais auto destrutivo que os demais. Porque a cadeia, entenda-se, possui um ordenamento próprio que é natural dela e que todo preso procura seguir, não por satisfação, sim por entender que a quebra das regras na clausura, automaticamente gera uma punição: crime e castigo.
Especificamente esse preso que iremos tratar agora, andou por toda a cadeia, incomodando e desrespeitando as leis naturais de cada pavilhão – tudo o que conseguiu construir dentro da prisão foi ser um “seguro”, ou seja, preso que não tem mais convivência com o restante da população carcerária.
Foi parar na disciplina, na solitária estacionou. Não tinha para onde ir...
Os dias viraram meses e, por sua única vontade, ficava ali.
Ocorre que um dia qualquer começou a conversar com internos do pavilhão ao lado, até aquele dia tinha fechado os ouvidos para todos e tudo, por um motivo qualquer (desconhecido), começou a flertar com o raio vizinho.
Um preso gritava do “prédio”, ele respondia da “forte”.
Estabeleceu-se um namoro.
Os presos do pavilhão convidaram-no para retornar: “Foi tudo esquecido...”, “Tá tudo ajeitado...”, “Chega de sofrimento, irmão!”.
Ele concordou.
Confiou e pediu para voltar.
Falou com a segurança penitenciária expondo sua decisão.
Os agentes aconselharam que não, que aguardasse uma transferência, poderia ser nada, poderia ser tudo, poderia ser uma armadilha.
Não teve jeito, a sua confiança tinha atingido o pico e no alto dessa montanha ficou cego para seu passado de pecados e desrespeitos dentro da cadeia.
E, convenhamos, a mudança de cela era seu direito.
Assinou os papéis que permitiam sob sua responsabilidade o retorno e caiu para dentro do pavilhão. Sorridente.
No último instante, quando o agente já se preparava para fechar a porta da cela, teve um insight, convidou o preso que entrava para sair, para voltar atrás e desistir dessa mudança.
“Que é isso, senhor?” Ele respondeu já com alguma arrogância. “Tô de boa... Tô com a família...” Respondeu confiante.
“Isso mesmo, senhor! Ele está com a família...” Falaram os demais internos enquanto o faziam desaparecer para dentro da cela envolto por uma avalanche de abraços e tapinhas nas costas.
Nada mais a fazer.
O agente bateu a porta e se foi para cuidar da rotina da cadeia. A megera não para e, ali, parecia tudo bem.
No outro dia, o preso amanheceu pendurado.
Havia se “suicidado” dentro da madrugada.
Cadeia cobra, sempre cobra.

Todo ser que busca a própria destruição, um dia a encontra.
Fato

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

A PRATELEIRA DAS HORAS



Durante uma cinza hora
De uma prateleira de uma tarde,
Tarde dessas tão igual
Quanto todas as demais tardes
De um quente e monótono verão.
Uma brisa tocou minha face,
Tão delicadamente
Que me extasiou todo
Ao seu toque frugal.
Foi muito mais que uma brisa.
Foi uma sugestão de você.
Em um estalo,
Tão repentino
Quanto poderoso
Voce nasceu em meu pensamento.
Escorregastes para dentro de mim
Em uma cascata de sentimento,
Senti sua presença em mim.
Toda você em tudo em mim.
Momento exuberante.
Olhei para a tarde,
Já não mais tão cinza.
Separei a mais bela
Prateleira de hora,
Doirada,
Ornamentada com flores,
E, ali te coloquei.
O momento já não era mais momento.
A hora já não mais era hora.
Pequenos se tornaram...
Saltastes da prateleira da hora
E voastes para dentro da eternidade.

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

APARÊNCIAS NÃO ENGANAM...




Entrou dentro do pavilhão cheio de esperanças.
Notava-se isso no sorriso muito jovem, nas atitudes esperançosas de folgar um bocado as agruras que a velha megera despejava encima dele – cadeia não é para fracos.
Tudo parecia normal, corriqueiro mesmo, quando o play da quimera foi acionado. Se existe uma verdade dentro da cadeia é que não existe off, segredos incham dentro das entranhas do monstro e acabam eclodindo em miasmas fétidos.
Foi o que aconteceu com o jovem.
Quando entrou no novo pavilhão, cheio de sorrisos e expectativas, não imaginava que sua “capivara” estava sendo puxada pelos ninjas do “voz”.
Ele foi rodeado por amabilidades protocolares, sorrisos e apertos de mãos pipocavam de diversos lados e ele se sentiu acolhido, aceito.
De repente, alguém encosta na liderança do pavilhão e derruba toda a ficha do jovem. Jogou com o adversário, decretava os bochichos.
Como uma tarde de sol que de repente é colhida pelas negras nuvens da tempestade, assim o tempo se fechou sobre a vida do menino.
Sorrisos se transformaram em carrancas; vozes macias em trovões, apertos de mão em safanões e bofetões, a vida é dinâmica dentro da cadeia, nada é o que parece ser e o que parece ser não é de verdade. O diabo é o pai da mentira e a casa dela neste mundo é a penitenciária.
O menino tentou se defender de todas as formas, mas como se defender de uma avalanche?
A coisa não foi pior porque um agente penitenciário atento, fechou o garoto no “brete de segurança” e o retirou para fora do pavilhão.
Ele chorava.
Alegava inocência de pertencer a quem não devia pertencer.
Como saber a verdade? Era ou não era? Para a megera isso não importa, o reino dos cadeados trabalha com o que parece ser verdade, mais fácil, mais rápido, sem maiores custos.
Fora do pavilhão o garoto chorava.
Sabia que sua vida estava difícil, mas, a partir daquele momento, estava ainda pior. Portas haviam sido fechadas, porta fechada por dentro na cadeia não abre de jeito nenhum, regra do lugar.
Ele subiu, derramando lágrimas jovens na grande artéria da quimera.
O agente ficou olhando, um lamento em seu olhar, uma dor escondida no coração – mais uma vida desperdiçada no reino dos cadeados.
Ele sumiu tragado pelo fechar feroz de um portão que trancava para ele todas as esperanças...

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

QUANDO O LOBO UIVA



Sinto sua falta...
Desesperadamente...
Absolutamente...
Sinto sua falta...

Nunca foi uma questão de distância.
Distâncias nunca tiveram poder sobre nós.
Nunca foi uma questão de tempo.
O tempo, igualmente,
Fracassou ao tentar nos separar.

A sua falta hoje é absoluta.
Como absoluta pode ser a morte,
(Para alguns)
Porque procuro e não te vejo.
Não te enxergo aonde estivestes.
Não te enxergo em qualquer parte.
É como se tivesses sido tragada por
Um abismo que se abriu
E te engoliu dentro de um silêncio
Ensurdecedor.

Mudastes para um outro universo.
E neste local não te alcanço.
Quem você foi, sucumbiu
Embaixo de uma avalanche de
Novos paradigmas e possibilidades,
Tudo sendo tragado para
Dentro desse abismo extraordinário.



Não quero apontar dedos.
Para você, para mim....
Isso não ajuda nada.
Só quero é lamentar,
Uivar para a noite como se fosse
Um lobo solitário e triste.

(É isso mesmo o que sou...)

Ouça... Ouça... Ouça...
Esse murmúrio dentro da noite:

Sinto sua falta...
Desesperadamente...
Absolutamente...
Sinto sua falta... em mim!

terça-feira, 4 de setembro de 2018

ALIMENTOS PARA A ALMA



Nestes dias de frio intenso, não a vi...
Ela ficou recolhida, esquentando o corpo cansado de dias no calor do recôndito do lar.
Hoje o sol saiu, deu a cara tímida depois de tantos dias fora. Apareceu como se tivesse envergonhado de deixar todo o povo mergulhado no cinza dos dias frios.
Junto com o sol, ela apareceu.
Colocaram a sua poltrona de costas para a rua, para que o sol da manhã tocasse o seu corpo de frente, essa carícia (convenhamos!) é mesmo deliciosa.
Eu passei, rápido.
Do lado dela, uma senhora também já entrada em dias, falava de coisas e mais coisas, ela parecia ouvir cansada, mais entretida com os toques abrasadores dos raios do sol.
Eu a cumprimentei como faço todos os dias.
Ela não se voltou, e nem poderia. A posição da poltrona a impedia.
Reconheceu-me, sei que sim, senti no tom da sua voz e na urgência da resposta.
Ficou em mim uma vontade enorme de ver o seu sorriso. Ele é tão lindo. Não importa nossa idade, sorrisos são sempre viçosos como a juventude. O dela guarda o frescor de uma brisa de verão e o cheiro de uma tarde de primavera.
Já ia sumindo da vista da casa, quando de repente, a senhora ao seu lado se virou para mim, parecia aborrecida por ter incomodado seu monólogo.
Essa senhora sorriu. Um sorriso lindo. Mas não era desta, nada daquilo era mesmo desta... O sorriso desta senhora, percebi imediatamente, era um reflexo do sorriso dela... dela para mim.
Sei que a alma possui alimentos mais vigorosos e nutritivos como oração e leitura da Bíblia, mas, sorrisos são um delicioso acompanhamento.

terça-feira, 14 de agosto de 2018

O BRILHO DA FELICIDADE


(ou o SABOR DA VIDA, parte 2)

Fazia dias que eu não a via.
Senti falta dela este tempo todo.
Saudades é um ácido que corroí o nosso sossego.
Houve dias que imaginei coisas... as afugentei rapidamente e coloquei um espantalho feito com esperança para espantar os corvos das más sugestões.
Hoje foi diferente, graças a Deus por isso.
Passei e ela estava lá, sentada em sua confortável poltrona, as pernas enroladas em uma manta de algodão e o sol tocando o seu corpo cheio de dias.
Estava sonolenta.
Sei disso, porque passei e dei o “bom dia!” e ela não me respondeu – quando falei “Deus a abençoe!” – Vi que ela me procurou com o olhar, mas eu já tinha passado.
Entre mim e ela é tudo muito veloz.
Nossa história é uma passagem.
Nossos diálogos são feitos de protocolos sociais e algumas bênçãos que derramamos um para o outro (a melhor parte de nossa biografia).
Entretanto, criou-se um carinho e isso é real.
Eu o sinto de verdade, como se fosse palpável.
Posso sentir o seu perfume no ar, ainda que não consiga descrever o aroma que exala.
Testemunhei essa verdade hoje, na volta da academia.
Quando passei eu a olhei de soslaio.
Estava do mesmo jeito quando passei na ida.
Ao seu lado, outra senhora confabulava com ela antigas histórias, novas histórias.
Quando ela me viu, seu rosto brilhou.
Não é arrogância minha, sei disso porque esse brilho na verdade era meu, sua face era um espelho da minha. Quando vi que seus olhos buscavam os meus tudo em mim irradiou uma alegria e uma felicidade que fez meu ser resplandecer.
É assim mesmo que acontece, felicidade faz a gente brilhar.
Ela falou comigo desta vez:
- Já está de volta? E sorriu um sorriso lindo.
- Sim, por hoje acabou...
Ela sorriu com a alma.
Eu sorri com o coração.
Foi o jeito de dizer que temos estima um pelo outro.
Não nos conhecemos, não somos nada, simplesmente, nasceu em nós um carinho que faz desejar o melhor para o outro.
Isso não é de nós, não existe qualquer auto exaltação aqui, isso é dom de Deus.
- Deus te abençoe! Assim me despedi.
Ela disse: “Amém! ”.
Segui, sentindo o seu sorriso queimando minhas costas, queimava muito mais meu coração.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

O SABOR DA VIDA



Todos os dias saía pela manhã em direção da academia.
Passava em frente a uma casa onde um casal de idosos tomava o sol das manhãs.
Notava-se neles a cumplicidade que se constrói dentro dos muitos anos de convivência solidária, olhar para um, era como perceber o outro, como se o envelhecer juntos houvesse construído no outro a imagem do primeiro.
Esta é a melhor maneira de envelhecer – juntos!
Esta arte os dois pareciam dominar como poucos.
Ele passava e os olhava de uma forma muito especial.
Todos os dias era um ritual passageiro e ligeiro.
A vida é mesmo acelerada.
Olhava para ambos, que retribuíam o olhar de expectativa que o passante lhes dirigia.
Havia no homem que passava uma alegria e uma coisa boa que eles próprios não conseguiam explicar.
Para que explicar?
Existem coisas que são melhores quando não merecem e não respeitam definições acadêmicas – estas coisas foram feitas apenas para serem sentidas, assim elas são apenas absorvidas pelo coração que é sensível e que está atento para as epifanias da vida.
O homem passava e lhes dizia um bom dia que vinha de mãos dadas com um Deus vos abençoe.
Eles retribuíam com um amém e quando iam dizer mais alguma coisa, o homem já havia passado.
Ele passava rápido – a juventude é urgente, pensavam.
Para eles a urgência era tolice.
Faziam poucas coisas e as coisas que faziam eram sentidas, catalogadas, todas elas, como coisas importantes de seu dia. Assim, tudo ganhava um sabor diferente, um sentido distinto, viver prestando atenção na vida, mesmo que de uma forma muito simples (e lenta) se tornava algo emocionante.
A juventude é esquecida. Ela não entende disso.
Depois que ele passava, eles se levantavam e adentravam em sua casa.
O sol amigo já começava a ficar zangado e o aconchego do lar se tornava mais convidativo. Sombras também tem seu valor. Quando se envelhece isso fica muito claro, tudo tem o seu tempo.
Eles entravam e aguardavam o novo dia. Sabiam que o homem viria.
E para o passante, que se ia desapercebido do bem que esparramava, ficava no seu coração a alegria de ver os dois, ali todos os dias, um frente ao outro, conversando das coisas antigas que lapidaram sua história.
Enquanto pensava isso, um pensamento sombrio entrou nesse solar de meditações radiantes.
Nem sempre as sombras têm valor...
Um dia, o pensamento sinistro sugeriu, eles não estarão mais lá...
Afastou aos trancos e barrancos tal ideia.
Eles estão lá agora e é isso que importa.
Devemos viver o agora porque o amanhã não nos pertence.
Quando esse dia chegar, pensou, entenderei que a vida é um doce sonho que passa e o gosto que ela deixa é de saudades.