sexta-feira, 28 de agosto de 2026

UM TIRO CERTEIRO

 


Novos tempos trazem novas necessidades.

Novas necessidades exigem novas capacidades.

Novas capacidades ordenam novas responsabilidades.

Dentro da cadeia, é tudo um jogo de gato e rato.

Ladrão abre portas, polícia as fecha.

E, quanto mais portas se fecham, outras tantas o ladrão busca abrir.

Foi assim com os drones.

A polícia fechou tantas portas, que a única que restou foi a de cima.

Os ilícitos começaram a vir para dentro da cadeia nas asas desses aparelhos não tripulados.

Chuva deles nas madrugadas.

A polícia teve que se adaptar.

Portas abertas em cadeia exigem que sejam urgentemente fechadas.

Cadeia é lugar de porta trancada.

Numa dessas muitas madrugadas da penitenciária, em uma dessas muitas viagens de um desses pequenos aparelhos, alguns policiais estavam no teto da cadeia, a observar tudo, a buscar uma forma de capturar o malote de ilícito – atrasar o ladrão é o mais saboroso dos trabalhos da polícia – quando o drone veio e ficou a sobrevoar a tela, tentando encontrar uma brecha que havia sido fabricada pelo ladrão.

É um jogo de gato e rato...

Por um breve momento, o drone ficou parado, quieto, levitando entre o céu e a terra, o policial de cima do telhado o viu, estava uns trinta metros de distância dele, não tinha tempo, ele pegou a sua arma, fez a mirada e sapecou o  balaço, sem pensar, sem pestanejar, fez e pronto.

O tiro foi certeiro.

Acertou em cheio.

O drone caiu fumegante em cima da tela de proteção.

O policial guardou a arma.

Não houve comemorações. Não houve nada...

Saiu em direção daquela parte do telhado para recuperar o diminuto aparelho que ainda fumegava.

De onde estava, podia ver nas boquetas das celas os olhares frustrados dos ladrões, alguns até mesmo espantados com a ação e a qualidade do tiro.

Recuperou o drone, junto com o malote de ilícitos.

Saiu em direção a base.

Trabalho concluído com sucesso.

Havia nele uma satisfação de trabalho bem-feito, atrasar o ladrão é o mais saboroso dos trabalhos da polícia.

E ele fazia bem isso...

Sem arroubos...

Sem comemorações...

Sem medalhas...

Sem recompensas....

Quase sempre no anonimato....

Mas, tudo bem... heróis fazem o que fazem porque essa é a função deles, é para isso que existem...

Seus feitos são contados e recontados nas artérias da quimera em odes e poesias que falam de heroísmo puro.

Viram lendas....

quinta-feira, 21 de maio de 2026

CANÇÃO PARA DIAS DESESPERADOS

 


Não se desespere, meu amor, não se desespere.

Ainda que se fechem todas as cortinas,

E que portas não se abram mais.

Ainda que os rios transbordem

Sufocados por suas lagrimas.

Ainda que noite e dia se revezem

Como espectadores atentos

No teatro de sua dor.

Ainda que tu olhes para os lados

E acredites que todos estejam

Cegos para você.

Ainda que os céus estejam com

As portas e janelas trancadas

Para teus lamentos ajoelhados

Em formas de clamores e orações.

Ainda que algumas bocas ferozes

De alguns túmulos insensíveis

Tenham devorado alguns dos nossos.

Ainda que teus sorrisos e tuas gargalhadas

Sejam apenas decorações de

Poeirentas prateleiras do passado.

Ainda que todas as cargas que suportas

Estejam ainda mais pesadas que o

Dia de ontem;

Ainda que tua fé em todas as coisas,

Nas pessoas, na esperança

Esteja tão pequena

Que não consiga recobrir

Um grão de mostarda.

Sei que nestes instantes as palavras

Perdem poder.

Elas são fracas, tão fracas quanto as

Perspectivas frias que se erguem

À sua frente.

Calo-me! No silêncio finco meus dois pés

E nele me sustento firme e inabalável.

Estarei aqui!

Tu não me honrarás com teu reconhecimento,

Tu não me enxergaras e,

Em alguns momentos mesmo,

Me desprezarás.

Mas, eu estarei aqui!

O tempo cuidará de enxugar as tuas lágrimas

E Deus arrancará de teu horizonte sombrio

As nuvens negras que povoam seu coração.

Ainda que todos digam: não!

O sol iluminará tua vida novamente,

Ele me iluminará,

E tu verás...

Tu verás...

Eu sempre estive aqui contigo!

 

SOBRE DIAS ESPECIAIS E OUTRAS REFLEXÕES

 


Naquele dia, o sol acordou mais cedo

Ansioso para despertar o mundo

Para as quentes novidades

Do novo dia que nascia.

A relva vestiu-se de fraque cor clorofila,

E as folhas das árvores, todas elas,

Elegantemente trajadas de vestidos verdes.

As flores, naquele dia mui especial,

Fabricaram seus mais deliciosos aromas

E, todos estes, ofuscaram

Os mais caros perfumes.

Nas praças de todo o mundo

Sinfonias de pássaros entoavam

Poesias e romances em formas

De alegres melodias campestres.

Tudo estava diferente.

Ainda que para o resto do mundo,

Tudo seguia normal

Dentro da igualdade burocrática

De todos os seus dias opacos.

Parti, naquele dia, numa jornada

Que não distava alguns poucos passos,

Mas dava-me a certeza que a viagem

Duraria a vida inteira.

Parti, saindo de dentro de um sonho

Para chegar numa estação chamada

Realidade, e, quando lá cheguei,

Confesso, não sabia mais o que era sonho,

Nem o que era verdade,

Doce amalgama que me inebriava.

Naquele dia, 24 de outubro,

Foi o dia mais especial,

O mais lindo entre todos os

Dias de minha vida.

Naquele dia...

Naquele dia...

Naquele dia eu me casei com você!

domingo, 17 de maio de 2026

AO REDOR DO CRIME TUDO É ABISMO

 

O que se contava nos corredores da quimera era que quando ele chegou, na rua havia sido um homem com alguma influência.

Na cadeia, ser influente é alguém que tem um bom emprego, um bom salário, família estruturada, portanto, para essa espécie de gente o crime se torna algo distante.

Essa é a crença: a posição social ou econômica afasta as pessoas do crime.

Tudo um engano.

A criminalidade não é resultado do status ou poder da pessoa, a natureza é por si só pecaminosa, são os freios éticos e morais de cada um que impedirão que o mal quebre a castanha da possibilidade e o crime se torna real.

Neste caso, estes freios neste indivíduo foram afrouxados pela droga – não se sabe o momento, nem os motivos que o levaram as veredas do vício, sabemos que do vicio para a cadeia foi um pequeno passo – para os abismos poucos passos são mais que suficientes.

Dentro da cadeia, os freios éticos e morais que estavam afrouxados foram imprudentemente destruídos.

Uma vez lá dentro, ajuntou-se com a nata da vagabundagem, com a escória da prisão, estabeleceu intimidade com essa gente e com essa gente abraçou a miséria em seu esplendor e de tal forma acostumou-se com ela que desapareceu no núcleo mais imprestável da penitenciária.

Essa descida para esse abismo foi sem freios, queda vertiginosa, e pelo caminho foi ficando família, dignidade, honra e, por fim, a saúde, tudo escoou por esse ralo chamado leviandade.

A droga levou tudo dele, até mesmo a consciência de seu estado deplorável.

Num instante, começou a ser frequentador da enfermaria, internações viraram rotina; remédios, drogas e procedimentos clínicos tornaram-se seus companheiros diários e, isso tudo, somado a sua vida de abusos o resultado foi o esquife, um ataúde guardou o homem que um dia, chegou a ser considerado influente na cadeia.

O crime não escolhe ninguém, as pessoas escolhem o crime; da mesma forma, são os homens que, por suas escolhas, mergulham nos abismos mais profundos.

Nesse dia, um dia igual e cinza como qualquer outro, esse preso foi engolido pela boca voraz de um tumulo e o que ele foi, o que poderia ter sido ficou esquecido para sempre... para sempre.... dentro do abismo que ele mesmo escolheu.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

NA JANELA DA 44


A madrugada da cadeia é um oceano...

... de silêncio!

Tudo na cadeia é aparência, aqui tudo é fugaz, efêmero, não se sustenta pelos padrões da verdade, justiça e virtude.

A realidade aqui é oculta.

Absurdo isso...

Para enxergar a realidade é ter de escavar, escavar e busca-la como se garimpa ouro, e, quando encontra-la atestar que aquilo que foi encontrado não possui valor... ouro de tolo.

A aparência é falsa.

A realidade é espúria, maligna, desprovida de virtude, e, sem virtude, o que nos resta?

Em uma dessas madrugadas silenciosas, quando a realidade repousava em sua toca de engodo, um preso qualquer se assentou na janela de sua cela 44.

Quieto.

Absorto.

Pensativo.

Agarrado às grades olhava para o mundo lá fora, perto e longe, esticando olhares como se buscasse respostas, como se quisesse encontrar o sentido de sua vida, como se estivesse a fazer uma profilaxia de sua alma.

Estava tudo tão quieto, a única coisa que se via (e ouvia) era o seu quadro recortado na parede do cárcere, sua figura enquadrada na janela de sua cela.

Era... era... triste...

Ainda assim, com o olhar correto, via-se alguma beleza poética no homem pensativo – o pensador que buscava entender a sua vida.

De repente, muito de repente, como são as coisas na cadeia, as águas do silêncio deste mar foram agitadas.

O policial da torre via rádio anunciou: drone!

No monitor, vi o homem sentado à janela 44 se agitar, saiu de seu estado de contemplação, ficou atento na movimentação lá fora buscando onde estava o aparelho voador, empunhou um cambão que retirou de algum lugar oculto da cela onde estava e iniciou tentativas vorazes de “pescar” o ilícito que, como num passe de mágica, vinha pelos ares.

Levantei, saí correndo, de onde estava até a cela 44 era longe e tinha de “atrasar” o ladrão, antes dele pegar o malote, pensava, pegarei eu.

Ah, cadeia, cadeia, sua megera....

Tua aparência de bonitinha e tranquila é sempre falsa.

Tua verdade, cadeia, é um caldo de sarcasmo e engano.

Nada é o que realmente parece na cadeia...

sábado, 8 de novembro de 2025

Saudades da chuva


Eu sentirei saudades da chuva...

Do som da chuva...

Do cheiro da chuva

De quando ela cai na terra.

Eu sentirei saudades da chuva...

Do frescor do ar

Tocando a minha pele quente.

Da paz que suavemente

Navega por e através de

Minhas lembranças mais lindas.

Eu sentirei saudades da chuva...

Da umidade em todas as coisas,

Da umidade que brota em meus

Olhos quando nesses dias,

Deitado em nossa cama,

A escutar a chuva,

A cheirar a chuva,

Eu dizia: Eu te amo!

E tu me olhavas profundamente,

E delicadamente,

Me abraçava num convite de amor!

Eu sentirei saudades da chuva...

Da chuva...

DA chuva...

De fazer amor com voce, meu amor!!!

Com você, meu amor!

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

COMO UM RIO

  


Eu quero ser como o rio,

Como o rio que sonha com o mar,

Que contorna as barrancas

Sem se enroscar nos galhos secos

Ou em pedras verdes de musgo.

Como o rio que recebe em seu leito

O beijo do sol e das flores primaveris

Que caem das ousadas árvores

Que se debruçam sobre os barrancos

Para bisbilhotarem o rio, o rio que passa

Charmoso em seu ininterrupto andar.

Eu quero ser como o rio,

Como o rio que sonha com o mar,

A imensidão do mar,

A beleza do mar,

A profundidade do mar,

E, enquanto corre para o mar,

O rio canta a sua linda canção

Que fala de busca, de sonhos,

Uma canção que ensina a amar,

E declama em cada onda tímida

Poesias apaixonadas para o mar,

Para o mar...

Eu quero ser como o rio,

Como o rio que sonha com o mar,

O rio que todos os dias sonha em

Suas águas cristalinas no mar desaguar...

Em você desaguar...

Voce é meu mar...

Meu mar...

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

A FLOR DE TODOS OS MEUS DIAS

 

Colho seus dias

Como se colhesse flores,

E com elas,

Cada uma delas,

Enchesse um vaso de ouro

E o colocasse

Na mais bela prateleira

De todos os meus dias.

Sei que para uns é rosa,

Para alguns outros é jasmim,

Para mim, meu lindo amor,

És o meu lindo jardim!

E neste jardim,

Tem dias que és perfume.

Tem dias que és suavidade,

Tem dias que és cores,

Em todos os dias é flores,

Onde todos os meus amores

Encontram você!

sexta-feira, 6 de junho de 2025

REI MORTO...

 


        ...rei posto.

Em nenhum lugar como na cadeia essa expressão popular ganha força como nesse ambiente fechado na busca pelo poder constante – na cadeia, esse ditado ganha ares de novidade diária, ali sempre há um rei tombando e, no segundo seguinte, outro se ergue para tomar o seu lugar.

A cadeia não derrama lágrimas pelo que vai embora, a tristeza é elemento estranho nesses casos; cadeia não segue e nem conhece funerais de reis, e sim, celebra o surgimento do novo monarca que se levanta sobre os escombros da queda do antigo imperador.

Tudo é muito simples e facilmente administrado pelo lugar, ao que cai, o esquecimento; ao que se levanta, o poder e toda a sua rica periferia.

E o que se eleva o faz do meio do populacho, geralmente fazia parte do antigo séquito, não existe escrutínio ou eleição aparentes – algumas vezes, quando existe tempo, o rei que se vai coroa o rei que vem, quando não o há, o séquito se reúne e aponta o sucessor que é arrancado das entranhas da plebe.

Do mesmo jeito que as elegias de despedida são descartáveis, não há para o que ascende um ritual de coroação ou um decreto que o estabeleça, no momento seguinte à queda, ao abrir o sol da cadeia, o novo rei se senta em seu trono (um puf velho e desbotado) e pronto – ele é quem manda, os ninjas agora são dele e a população carcerária do pavilhão seus súditos.

De modo geral, nada muda, nada se aperfeiçoa, é mais do mesmo, o que se fazia antes, será feito agora, ele seguirá a mesma cartilha que foi escrita pelo seu antecessor e por toda a dinastia antes deles, alimentará a matilha com o fruto da corrupção diária do lugar que são arrancados das mazelas humanas estabelecidas dentro da cadeia: drogas, poder, lascívia e dinheiro, as sementes do diabo que fazem os homens aos montes se perderem rumo ao inferno.

No segundo que antecede a assunção ao poder do novo rei, neste casulo imediato uma metamorfose ocorre e chama a atenção pela rapidez e pelo extraordinário, a humildade do homem que foi servo escapa por um ralo qualquer e o que emerge é um novo rei arrogante e autoritário.

E a cadeia segue seu fluxo de rotinas engessadas, vidas enclausuradas, perspectivas limitadas ao hedonismo que tem como seu maior expoente e protagonista o “voz”, o rei do lugar... até que outro tome o seu lugar... e outro... e outro....

sábado, 10 de maio de 2025

SE FOSSE HOJE A ULTIMA NOITE DO BODE DO GAÚCHO...

 

... o que faria ele, se ele o soubesse?

Sentaria na relva e olharia para as estrelas,
contaria cada uma delas em
meio as reminiscências de toda a sua vida?
Chamaria as ovelhas para um bate-papo
e conversariam algumas banalidades,

E, depois de algum tempo,

Filosofariam sobre a existência fugaz?

Mergulharia em debates sobre o
que vem depois da morte
sem relatar para os demais que
no dia seguinte,
naquelas mesmas horas,
ele mesmo seria apenas uma memória?
Buscaria algumas ovelhas

E pediria perdão por alguma coisa

Que por ventura tivesse feito?
Mandaria aviso para um velho bode

Que hoje residia em um outro pasto,
e diria para ele que “sentia muito”

Por ter tomado o seu espaço
naquele lugar onde agora vivia

Seus últimos instantes de vida?

Se entregaria para Cristo?
Buscaria em Jesus a paz que

Agora insistia em lhe fugir?
O que faria o bode do gaúcho

Se ele soubesse que essa

Seria a sua última noite?
Entenderia, finalmente, que tudo

Aquilo que desprendeu tempo

E recursos vitais, agora,
no fim, era tudo trivialidade?

Entenderia que a sua vida teria

Sido mera banalidade?
Se não houver amanhã,

O que é a nossa vida?
Esta é a última noite
do bode do gaúcho...

... e morrer não é o maior drama...

... não estar preparado...

Ah! Essa sim é a grande tragédia!

Esta é a última noite do bode do gaúcho...

quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

Breve conversa entre presos no banho de sol

 

- Vejo você sempre lendo a Bíblia...

- Leio...

- Por que lê tanto?

- Porque é a Palavra de Deus entendeu?

- Hum... hum...

- E a Palavra fala com a alma da gente...

- Hum... hum...

- ... cabe ao homem ouvir... ou não...

- É...

- Eu prefiro ouvir!

- Mas você continua aqui... o que mudou com isso?

- Tudo!

- Como? Como mudou? Como pode ter mudado se voce continua preso?

- Meu corpo sim! Temporariamente preso... mas a alma está livre!

quinta-feira, 10 de outubro de 2024

Só voce!

 

Oito bilhões de pessoas no mundo...

... e tem momentos,
muitos momentos,
que me parece,
muito me parece,
que só existe voce!!!!

quarta-feira, 19 de junho de 2024

REMINISCÊNCIAS

 

Lembrei de você hoje,

Quando entretido com a

Tecelagem das obrigações diárias.

Chegastes montada em um Pégaso

De alvas lembranças,

Uma epifania,

Um sopro de possibilidades

(se perto estivesses...),

Suspirei profundo

E esse suspiro era pura saudades.

Fiquei esquecido de mim,

Afagando você no desejo

De ter contigo uma oportunidade

Arrancada a fórceps

Desse dia de responsabilidades.

Voei até você... num sonho...

(sonho de olhos abertos)

Atravessando a distância

Que mais me parecia um deserto,

Minha vontade de te ver

Fazia o longe ficar perto.

 

Quando o dia me chamou

E tive de prosseguir com a jornada,

Segui como segue o rio

Em sua caminhada,

O destino do rio é buscar o mar

E eu, minha linda, é te amar,

Amar, amar, sem nunca acabar!

Sobre Deus e deuses

 

Procuras teu deus nos palácios,

Dentro das cortes mais reais,

Meu Deus não O verás nos luxos,

Meu Deus nasceu entre os palhais.

 

Procuras teu deus nas ruas de Roma,

Nas faces dos poderosos do mundo.

Meu Deus é um Deus de estábulos,

Meu Deus vive entre os moribundos.

 

Teu deus é o deus das realizações,

E no sucesso oferece para ele oblações,

Não percebes... aí está suas limitações?

 

Com meu Deus o fraco é sempre forte.

Com meu Deus perder é boa sorte.

Com meu Deus jamais verei a morte!

sexta-feira, 3 de maio de 2024

EQUIPE MULTIDISCIPLINAR

 

Muito tempo atrás que já se perde na memória até dos mais antigos, existiu um pavilhão que o distinguiu pelos seus cuidados exacerbados com a disciplina do lugar.

Era algo inacreditável para uma cadeia daquele porte.

Encima da disciplina da polícia, que naqueles tempos era muito rígida, os internos colocavam a sua própria e, pasmem senhores, ninguém, absolutamente nenhum dos presos do lugar escorregava na obediência...

... e estamos a falar de bandidos, alguns de alta periculosidade e acostumadas ao mundo do crime e aos sofrimentos da cadeia, mas, dentro daquele pavilhão se adequavam em fina sintonia ao regramento imposto pelo ambiente.

Eu nunca me enganei com eles!

Ali ninguém era (e nunca foi) santo. A rígida disciplina era uma estratégia recheada de alguma sabedoria aleijada que tirava a atenção e os olhares da polícia de sobre o lugar – a fórmula era quase matemática –  sem problemas, polícia longe; com problemas, polícia perto.

Assim, diante de tal equação que se transformou em um lema, o voz do lugar organizou uma equipe de profissionais competentes multidisciplinares que somente se apresentavam quando se faziam exigidos os seus serviços – estas ocasiões apareciam quando algum preso, de alguma forma, apresentava-se na grade de segurança para incomodar a polícia – então, estes competentes profissionais escalados a dedo pela liderança do pavilhão entravam em cena despejando excelência e profissionalismo inigualáveis no desempenho de suas funções.

A formatação dessa equipe, reconhece-se, foi um achado, um daqueles golpes de sorte que a vida raramente oferta. Qual a chance de encontrar todos esses valorosos operários do saber juntos, ao mesmo tempo, no mesmo lugar? Quase nenhuma... mas nesta época, conseguiu-se esta façanha graças a visão do líder do pavilhão, um homem a frente de seu tempo.

A equipe, se ainda me lembro, tinha alguns terapeutas ocupacionais, psicólogos, psiquiatras, um fonoaudiólogo que ensinava aos coitados com pouca dicção a falar a língua do lugar, entre outros que a memória falha me faz esquecer.

Sei que quando eram acionados, se aproximavam com uma calma franciscana do preso que estava dando problemas, o relações públicas (a equipe também possuía um) convidava num sussurro delicado para que o indisciplinado o acompanhasse, o abraçava com um carinho quase exagerado passando o braço num gesto afável pelo pescoço do reeducando e o levava para uma cela que servia as vezes de consultório.

Algumas vezes, raras vezes, o preso indisciplinado tentava argumentar mas o relações públicas (somente ele falava) os outros da equipe somente observavam, dizia: Calma! Vamos conversar, vamos conversar, vamos resolver tudo lá dentro...

(Lá dentro era o famoso consultório...)

Que trabalho excepcional!

O convite, a entonação da voz que passava segurança para o preso que seria atendido, as palavras cuidadosamente escolhidas em frases quase que poéticas, a forma do abraço, tudo era extraído de uma perfeita didática construída aos labores de anos de cadeia e estudos arqueológicos e sociais, uma performance digna de ser estudada em universidades e que eu muito parcamente tento registrar – meu testemunho não faz jus a esses profissionais, reconheço e me desculpo.

Quando o indisciplinado entrava na cela (ops! consultório) a porta se fechava e a terapia começava, aí sobressalta outra qualidade dessa gente singular – odiavam a exposição desnecessária, detestavam a publicidade, o anonimato era o seu segredo, sua realização pessoal e seu prazer era bem realizar o seu trabalho.

Nunca se soube, pelo menos até onde eu conheça, que houve um preso submetido a estas terapias que retornou para dar problema... reincidência com essa gente, não existia.

O sistema deveria aprender com eles....

terça-feira, 23 de janeiro de 2024

O PREGADOR

 


Todos diziam na cadeia que aquele preso não era certo...

Certo aqui aponta para problemas mentais...

Todas as manhãs, antes da troca do plantão, antes mesmo da realização do confere geral, colava seu rosto na boqueta de sua cela e orava para Deus e todo mundo, isso não sendo força de expressão.

Aos domingos, nos dias de visitas, vestia um terno que havia ganho e que deveria ser uns dois números maiores que ele e saia com sua Bíblia para o solário, andava por aqui, andava por ali, entretido consigo mesmo em meio à multidão de internos e externos que se misturavam nas caminhadas.

De repente, iniciava um sermão, pregava alto como se o céu devesse escutar, falava sobre arrependimento de pecados, salvação e do sacrifício de Jesus pela humanidade.

Pregava direitinho...

Mas, como não era certo, segundo a teoria em voga na cadeia, pouca gente o escutava.

Ele sabia disso...

Não se importava...

Arrancava da memória falha, aqui e ali, alguns versículos bíblicos bem pertinentes com o sermão e seguia em frente em seus alertas escatológicos: Jesus está voltando! Arrependam-se!

Naquele dia, em especial, um policial penal pegou-se a prestar atenção nele e em sua pregação no deserto árido da cadeia – ele estava sozinho, sozinho em meio à multidão que caminhava entretida com as coisas da carne.

A uma certa altura de sua prédica, mandou um questionamento que serviu como retórica: “Sei que vocês pensam que sou louco...” Deu uma pausa e olhou para a multidão que passava, em seguida respondeu a ele mesmo. “Sou louco por Jesus!”

O policial entretido com o sermão do pregador, pegou-se a perguntar-se: “Será que esse preso é louco mesmo? ”

A pergunta ficou no ar, flutuando, esvaindo-se no vento, esquecida de uma resposta.

Então, levantou-se para os afazeres rotineiros e sua alma respondeu:

“Louco ou não, nesta tarde, ele é o homem mais lúcido desta cadeia. Jesus está mesmo voltando...”

sexta-feira, 22 de setembro de 2023

QUEM COM O FERRO FERE...

 


... pelo ferro será ferido.

O ladrão colou na área de segurança do pavilhão e pediu seguro.

A polícia fechou os bretes isolando o preso num limbo e depois o retirou com segurança, a ele e a sua tralha que consistia numa sacola velha de roupas sujas, um colchão surrado e fino e um monte de bugigangas.

Seguiu-se a praxe: geral no preso e em seus pertences, assinatura no papel que caracterizava a medida preventiva de segurança pessoal e, na sequência, o preso sendo isolado em pavilhão específico para essas situações.

Antes disso, o policial perguntou ao preso o motivo do seguro, já que esta medida é sempre extrema (pelo menos devia ser...), porque não existe dignidade para o preso em sair jogado do raio, além do mais, o isolamento para onde se vai é um pavilhão onde as dificuldades florescem que nem mato sob sol e chuva.

O interno, não se fez de rogado e entregou o jogo.

O “voz” do raio chegou até ele, no início do banho de sol, e alertou que a sua cabeça estava a prêmio e não tinha como garantir a sua segurança pessoal e não queria problemas no raio, pois isso atraía a polícia. Ladrão tem alergia a polícia. E, terminou dizendo, como querendo fazer piada que “defuntos sempre fedem...”.

Com esta informação alcançada pela polícia foram tomadas as devidas precauções para a segurança deste preso que chegou na cadeia com uma etiqueta de preço colada na testa – havia matado em sua cidade o filho de um figurão e alguém tinha dado a missão: apresentem o cadáver do assassino e o pix será feito na hora. Essas coisas inflamam a bandidagem...

O seguro foi alojado e a cadeia seguiu o seu fluxo massacrante de rotina, os dias viraram meses e os meses se amarelaram em anos e tudo sobre esta história parecia realmente esquecido, nem mesmo o preso que fora seguro se lembrava mais que sobre ele pesava uma sentença e um preço.

Um dia, dia qualquer, tão gorduroso de rotina quanto qualquer outro dentro da quimera, o preso que fora seguro amanheceu dependurado numa cela e, como sempre, ninguém viu nada, ninguém sabia de nada.

Cadeia é bicho estranho... traiçoeiro mesmo...

Deus perdoa sempre... o homem perdoa as vezes... cadeia não perdoa nunca...

É... Quem com o ferro fere, pelo ferro será ferido...

terça-feira, 18 de abril de 2023

PERTO DE VOCE

 

Quero estar perto de você,

Bem perto,

Tao perto que o estar perto

Será apenas um eufemismo

De proximidade.

Se fores orvalho,

Serei a relva.

Se fores a lua,

Serei a noite.

Se fores o sol,

Serei o girassol.

Se fores um beija-flor

Serei a mais atrativa rosa.

Se fores um rio,

Serei um peixe.

Se fores o ar,

Serei o pulmão.

Se fores o céu azul,

Serei as brancas nuvens.

Se fores castanheira,

A rainha da floresta,

Serei o solo para suas raízes.

Estarei sempre em você,

Tao perto de você,

Tão unidos

Que sem você

Jamais poderá haver a mim.

E, aos olhos de Deus

(e dos homens)

Seremos apenas um...

Eu e você... apenas um!

domingo, 19 de março de 2023

IN MEMORIAN

 


Acordei ouvindo um som estranho...

Olhei o relógio...

Mais tarde que o habitual.

Aticei com o aguilhão da preocupação

Os ouvidos em direção aos sons da casa.

Somente o som estranho... longe...

Não ouvi o liquidificador batendo papas,

Não ouvi os chinelos preocupados esfregando

Em um eterno ir e vir no frio chão da casa...

Não ouvi comprimidos e mais comprimidos

E mais comprimidos sendo descascados...

Portas de guarda-roupa se mantiveram fechadas...

Cadeiras de rodas descansavam...

Descansavam...

Descansavam...

Recomendações de cuidados diversos foram enfiadas

Numa enorme gaveta de silêncio...

Silêncio...

O chuveiro aguardava ansiosamente a

Cadeira de rodas que aguardava alguém

Para empurrar esse alguém até o chuveiro,

Ambos esperavam,

Esperavam por um flerte que não mais aconteceria.

Duas gotas d’água escapavam do bocal do chuveiro

Tristes com a ciência dessa notícia...

Frente a casa nenhuma motocicleta

Acionava sua buzina nervosa

Nos convocando para buscar mais remédios...

Remédios...

Remédios...

Remédios...

Para que serve isso?

A casa toda mergulhada num enorme silêncio,

Físico, sólido, pesado.

À volta um buraco gigantesco

Que somente o tempo e graça

Poderia encher...

Continuei ouvindo o som estranho...

Levantei...

Coloquei a roupa rapidamente...

Corri até o som...

Vi você meu amor de costas para mim

Na cozinha de nossa casa...

Chamei...

Descobri o som estranho...

Era você que chorava...

Te abracei...

Choramos juntos....