quinta-feira, 2 de agosto de 2007

O VENDEDOR DE SORRISOS

Dedicada inteiramente ao sábio amigo e artesão Aristóteles (Vicentina-MS), o fantástico vendedor de sorrisos.

Apanhou o amigo como colhe uma rosa! Com alegria, satisfação em estar por perto, em poder servir de alguma forma. A generosidade é mesmo a mais nobre entre todas as qualidades humanas. Passou com o carro algo apressado e detectou o amigo a um canto da estrada, com o olhar esquecido de si mesmo, com a auto-estima escorregando como enxurrada pelos esgotos de um cotidiano sofrido. Parou e deu marcha a ré, abriu a porta do automóvel e com um sorriso autêntico convidou-o para entrar.
Seguiram em frente, mesma direção, histórias diferentes, destinos diferentes. Ele falou entusiasmado de seu trabalho com a fabricação de brinquedos, falou das dificuldades, de como as pessoas não valorizam mais o artesanato. Parece mesmo, confessou, que as pessoas esqueceram o valor de um produto inteiramente feito por mãos humanas, entalhado na madeira, com amor, com carinho, com um sorriso nos lábios. Olhou de soslaio para os brinquedos e insistiu na conversa. Porque um brinquedo, quando fabricado por um artesão, disse ao amigo carona, é feito para fazer uma criança sorrir, ele nasce com essa vocação, ele nasce com essa missão. A alegria do artesão não é somente vender, é ver a face satisfeita do comprador, da criança que recebe o mimo. Tem as máquinas este poder? A pergunta ficou no ar, sem a resposta dita, mas encravada na consciência e no olhar de cada um dos homens.
Ele falou de vida, de como consegue viver com pouco, de como são simples os seus sonhos, porque a vida é mesmo simples. Vida simples, sonhos simples, felicidade simplificada. Equação fácil. Sorriu, sentindo-se filosofando. As coisas parecem tão óbvias quando ditas com a confiança que a sabedoria promove.
O carona o ouvia atentamente, como o aluno que escuta o mestre, como se estivesse numa ágora grega para ouvir os grandes filósofos. Sentiu-se pequeno diante de toda aquela simplicidade exultante, daquele olhar sábio em enxergar a vida e suas ramificações. O carro devorava a distância, o tempo se perdia no limbo das horas, com o olhar fixo na estrada e no amigo ouvia as lições e procurava seu entusiasmo no meio da poeira de seus problemas. Insignificante era sua dor, pois sua dor não era algo tão grande assim se comparada a todas as outras tragédias humanas. Sentiu vergonha de se achar infeliz tendo um corpo saudável, a barriga cheia, inteligência, um emprego fixo e algumas possibilidades de escrever destinos diferentes para si mesmo. Quantos, pensou, que não tem essa possibilidade de poder escrever sua própria história?
O homem parou em frente ao seu trabalho. Sorriu com felicidade redobrada, teceu meia dúzia de elogios para ele e o convidou para almoçar qualquer dia desses, em sua casa. Deu-lhe um cartão com um telefone e cobrou um contato a qualquer hora dessas, os amigos, decretou, tem que estar sempre juntos.
Partiu! Partiu como faz o sol quando cumpriu sua missão natural de doar-se sem cobranças, assim ele o foi, uma força da natureza pronto para ajudar, para contribuir, um homem bom e generoso!
O carona ficou ali por um breve momento, olhando o carro afastar-se na distância, já sentindo saudades da sabedoria do colega. Os brinquedos foram sacolejando euforia, órfãos por enquanto de uma criança que os fizessem seus. Mas, o entusiasmo do vendedor de sorrisos, certamente, encontraria para cada um de suas criações em madeira o dono certo, um brinquedo para fazer sorrir mais uma criança neste velho mundo de lágrimas.
O carona foi-se embora, andando devagar, em algum lugar de seu coração o otimismo e o entusiasmo brotavam verdes como brotos que florescem em meio a uma terra árida recentemente irrigada.

Um comentário:

costaito disse...

Olá!Muito bom esse seu blog!É aqui me delicio com seus poemas, com sua sensibilidade!!Amo vc. meu querido amigo, amo seus poemas!!vc. é tudo de bom!!!!!!