quinta-feira, 21 de junho de 2007

O Senhor de toda a gratidão

Tinha acabado de fechar o portão que dá acesso para as galerias de internos no interior do Pavilhão, quando se aproximou de mim um jovem, e ficou por ali marcando tempo, com aquela expressão perdida e despreocupada daqueles que sabem qual será a sua rotina diária pelos próximos muitos anos. Uma grade nos separava – ele para o lado dentro, eu para o lado de fora –, me olhou, percebi que esperava um momento adequado para se aproximar – a cadeia é mesmo assim, fica muito caro o preço a pagar quando se escolhe o momento errado em qualquer coisa, a cadeia desconhece o perdão e sempre cobre suas dívidas.
- Eu me lembro do senhor!
Disse após tomar a certeza de que era o momento certo.
(Quando é o momento certo?)
Fiquei em estado de alerta.
- Desde o dia em que eu cheguei aqui, eu me lembro do senhor!
Revirei todas as gavetas da memória, tirei o pó de algumas coisas que estavam lá no fundo do grande baú de lembranças, sacudi o tapete das reminiscências, até investiguei algumas chateações que estavam depositadas no grande arquivo morto da inconsciência, mas que.... Nada do rosto do sujeito aparecer. A cadeia tem dessas coisas, você se esquece do interno, o interno jamais esquece de você.
Como me mantinha em silêncio, estratégia encampada para entender a situação, ele insistiu.
- No dia em que eu cheguei, a minha Bíblia caiu no chão. O senhor a pegou e me entregou.... Nunca esquecerei disso!
Neste instante, houve luz em minhas lembranças. O rosto tristonho do sujeito, suas coisas espalhadas pelo chão depois da revista, o seu medo no olhar, o Livro Sagrado no chão.... no chão....
Senti sinceridade nas palavras dele e senti que aquela era a forma que ele sabia, ou encontrou, para me dizer Obrigado!
Sorri de uma forma circunspecta, a cadeia é um lugar que algumas manifestações emotivas devem ser suprimidas, e respondi sóbrio:
- Veja bem! Lembre-se sempre do Senhor e tudo estará bem, para mim e para você.
Eu me afastei, fui cuidar de outros afazeres e lá, de onde estava em meu posto, pude vê-lo uma vez mais, a um canto qualquer, meditando, olhando para mim, seu olhar atravessando as grades. De certa forma, fiquei assustado, era a primeira vez que a gratidão me visitava na cadeia.

Um comentário:

costaito disse...

Ola querido!!Muito legal isso que vc. escreveu!As vezes fazemos coisas que para nós é tão simples,mas para as pessoas que prestamos o favor,é um gesto talvez inesquecivel!Vivemos da gratidão!