sexta-feira, 18 de outubro de 2013

A SERPENTE DO FIM DOS DIAS


Para a mulher, quando a última procissão partiu já não lhe restava mais nada a fazer – o combate tinha sido realizado, percebeu-se, a olhos vistos, ganhos e perdas, mas o resultado final, esse não seria revelado ali, naquele instante em que todas as horas se encontravam e se encerravam para ela.
A vida continuava na pequena cidade.

Para a família que se despedia da mulher, era um grande e triste evento, não para a urbe, que não dedicou reverência necessária para o acontecimento.
Houve uma época que, à passagem do defunto, os comerciantes corriam para baixar as portas de suas casas de comércio, os homens arriavam os chapéus sobre o peito e veneravam a matéria morta em orações silenciosas. Na igreja, os sinos lamentavam se mesclando aos “ais” das mulheres que escondiam suas faces por uma tela de renda que lhes caiam gentilmente sobre as faces compungidas, de alguma forma, tudo cessava por alguns momentos à passagem do morto.

Mas não agora neste tempo de internet e facebooks.

Olhava-se para a procissão que passava serpenteando nas lagrimas de dor de toda uma gente, com o mesmo olhar ranzinza que se joga para o cotidiano estéril, sem paixão, sem poesia, sem amor, desprovido da carne das boas virtudes e valores; um olhar feito de interesses adiposos e ambições raquíticas de sabedoria.

Nem no trânsito a procissão encontrava respeito. Os carros possantes e rápidos demais construídos para pessoas mais apressadas ainda, costuravam a fila chorosa com uma urgência desatinada, como se, para eles, os dias se acabariam ali, naquele momento.

Eles seguiriam... A vida somente não mais existia para a mulher que seguia sendo levada pelos seus, chorada somente pelos seus, conduzida a passos firmes para a sua última morada.

... e, quando já se chegava no cemitério, dois senhores já carregados de anos e montados em suas bicicletas foram surpreendidos pela procissão. Apearam e um ficou de pé, olhos fixos no chão, chapéu na cabeça esquecido, respeitando a morte. O outro meio em pé meio sentado na bicicleta, tirou seu chapéu e o colocou no peito, olhando para o céu como se em oração estivesse. Um apontava para a morte, o outro para a vida, pois que sem um jamais haverá o outro.

... e, quando o último carro passou, subiram em suas bicicletas e voltaram para o seu caminho, só que desta vez, mais atentos para a vida e suas coisas – tudo é mesmo tão frágil, pensavam.


... e, no cemitério, a boca feroz de um túmulo engoliu a quase centenária mulher e toda a sua história – esta para o pó retornava. 

Um comentário:

✿ chica disse...

Belo texto, tão bem escrito, cheio de detalhes desse momento que chega para todos... abraços, tudo de bom,chica