terça-feira, 3 de julho de 2007

O HOMEM DO JARDIM


Uma rosa floresceu com a alva, toda oferecida para flertar com o orvalho. O jasmim, de noite, enamorado da lua perfumou-se todo para chamar sua atenção. A grama vestiu seu traje mais reluzente. Os pingos d’ouros asseados, unhas bem cortadas, eram as muralhas a guardar o harém florístico. Um reino em flora a esperar seu senhor!
E quem era o senhor daquele jardim?
Quem era o homem que com seu toque de Midas para a natureza, acariciava as rosas e beijava as tulipas, conversava demoradamente com as margaridas, flertava com as hortênsias e cochichava segredos para os cravos e afiava as espadas de São Jorge?
Quando no jardim, era um homem delicado e dedicado. Amava aquele ofício que transcendia as questões de remissão de pena. As plantas mostravam-lhe o quanto era importante, o quanto ele era necessário. As plantas o amavam, e ele amava as plantas – um amor entregue, sem sacrifícios fúteis, buscas oportunas ou pedidos interesseiros, o amor pelo amor, simplesmente.
Porque, na verdade, detestava o amor dos homens. Amor insano, imperfeito, de duplas intenções. Os homens davam e pediam algo em troca: sua vida; sua submissão; às vezes, sua honra; sua dignidade, sempre.
No jardim, entretanto, as manhãs eram festas plenas. As plantas esperavam-no como aguardavam o sol, com sua melhor roupa, com seu melhor aspecto, com o melhor dos eflúvios.
No jardim entre as plantas, sentia-se importante. Sua decisão era respeitada e acatada, pois todas elas sabiam que tudo o que ele fazia era para o bem delas. Uma democracia, que funcionava de verdade, onde a maioria era privilegiada e jamais, jamais, deixou que suas vontades pessoais sobrepujassem o interesse do jardim. Como poderia? Ele era parte do jardim, a parte mais feia e, ainda assim, com sua importância. Ele aprendeu isso no jardim, na natureza que o rodeava. Somos todos partes de um grande ser chamado PLANETA TERRA e todos nós somos importantes, todos precisamos uns dos outros para sobreviver, ninguém é mais importante que o outro.
Os homens não entendem dessas coisas, os pulhas!
Mas não queria mais pensar em homens. Eles não têm a pele aveludada como as rosas e suas pétalas; seus cheiros são fétidos; não possuem cores vibrantes. Seres desprezíveis, os homens. Alguém lhe disse que na biblioteca da cadeia tinha um livro que falava de um homem que ao acordar pela manhã havia se transformado em um inseto. Isto! É isto que os homens são, insetos!
De repente um grande barulho de portões se abrindo tira-o de seus pensamentos. Surge por entre a muralha de ferro uma linda jovem. Ela sorri e o cumprimenta gentilmente.
Ele retribui o sorriso, corta uma linda rosa e a oferta para a moça. Ela agradece, educadamente, e vai embora algo satisfeita com o mimo.
Ele deixa o olhar entreter-se nela até perder-se com ela nos corredores da Unidade Penal. Ele controla um impulso... Selvagem... Um desejo a muito sufocado luta para renascer. Um desejo animalesco, que tira dele o que ele tem de pior, um desejo que somente aplaca-se com sangue...sangue alheio. Os homens são mesmo desprezíveis, pensa, só servem para adubo. Uma rosa chama sua atenção, volta-se por completo ao jardim...enquanto isso, algo dentro dele se acalma...se acalma...adormece...e dilui-se junto com a água que irriga o belo jardim da cadeia.

Um comentário:

costaito disse...

Menino o que é isso?Muito lindo,caramba essa e demais!!So´vc. mesmo meu querido,Deus te deu esse dom, e vc. a sabe usar com muita sensibilidade continue assim meu querido!Estarei sempre te visitando para ver o que há de novo!!Parabens!!Abraços!