terça-feira, 23 de agosto de 2011

A VELHA CADEIRA DO LARGO DO RATO


O largo do rato é um bairro especial.
A arquitetura do lugar impressiona, antiga, que remete a época de ouro de Portugal, tempos em que a nação lusa era a grande potência mundial e seus navegantes desbravavam mares desconhecidos em busca de riquezas e novas terras.
Tudo por lá tem a arquitetura do passado ainda que dentro dos comércios em geral reine a sofisticação dos potentes computadores e softwares modernos. A velha história, o passado é bom e lindo mas fica lá fora, aqui dentro, de verdade, habita a modernidade.
Passei em frente a uma loja de antiguidades, mamãe preferiu dizer que era de bugigangas, talvez estivesse certa, talvez não, o que importa é a forma como olhamos as coisas é esta a verdade que emprestamos a elas. Ela estava lá, uma velha e forte cadeira toda trabalhada em seus mínimos detalhes. Acreditei que ela tinha uns duzentos anos, ainda que eu não posso testemunhar isso sobre o livro da verdade. Imaginei quantas pessoas descansaram seus cansaços sobre ela, quantas decisões foram firmadas sendo ela firme testemunha. Provavelmente, ela viu crianças nascerem, tornarem-se homens e saírem para a vida e todas as suas dificuldades, e os viu retornar mais tarde, vitoriosos ou derrotados e a todos recebeu com a mesma honestidade em seu procedimento.
Ela serviu a alguma família, ou famílias, de forma honesta e leal e, de repente, alguém acreditou que uma nova poltrona com motivos modernos, seria mais útil e despejou-a ali, solitária e infeliz num purgatório injusto.
Uma cadeira como aquela mereceria os destaques da sala de estar de uma boa família, honesta e feliz, de gente fraterna e cúmplice, jamais o ostracismo e a periferia de uma loja de antiguidades.
Papai caminhava na frente, mamãe logo atrás e minha mana na sequência e eu, por último, fascinado pela cadeira, encantado pela arquitetura do Largo do Rato.
Olhei para a cadeira, ela olhou para mim.
Nos entendemos facilmente. Os poetas são mais sensíveis e a cadeira talvez tenha abrigado algum deles.
Imaginei uma mesa de jantar e a cadeira no canto principal.
Imaginei nós quatro, aqui ou em qualquer canto do mundo, a jantar e a rir das banalidades do dia.
Segurei uma tristeza incipiente, sabia que meus sonhos e os da cadeira não são e nunca serão compatíveis.
Fui-me embora, sonhando com a cadeira na sala de estar de minha família.
A cadeira ficou lá, quieta, impassível, aguardando uma família para chamar de sua, família esta que sabíamos, não seria a minha…

Ilustração: Antiga foto do largo do Rato, colhida na NET

domingo, 14 de agosto de 2011

A LUA DE SESIMBRA



Nada tens, nada és?

Quem disse isso?

Deus provou-me definitivamente que somos todos importantes, independente do que temos e do que somos, ontem, na belíssima praia de Sesimbra (Portugal) quando me deu de presente uma linda paisagem e a mais linda lua que nascia sobre a serra de Arrápida.


Estávamos todos lá, portugueses e brasileiros, franceses e italianos, indianos e árabes, um mundo de gente que se extasiava com a mesma lua.

Divido convosco, um pouco da emoção do momento....

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

PORTUGAL: PRIMEIRAS IMPRESSÕES

Passadeiras (Portugal) - Faixa de pedestres (Brasil

Está muito quente o verão europeu.
É um calor abafado, baixa umidade e mesmo para um homem dos trópicos como eu, acaba sentindo a sua intensidade.
Mas, não reclamo jamais, prefiro sempre o calor ao frio. O aeroporto de Lisboa é enorme, e demorou "pacas" para pegar o visto de entrada no País. Conosco, mamãe e eu, foi tudo tranquilo, os brasileiros têm grande facilidade para entrar em Portugal.  As avenidas e as ruas são muito limpas, tudo que é público é organizado e bem cuidado. Os peões (assim são chamados os pedestres) possuem sempre privilégio no trânsito, pisou na passadeira (faixa de pedestre) e os automóveis automaticamente param. Os autocarros (ônibus) são novos e não se vê lotações dentro deles ou desespero para pegá-los, como, por exemplo, vi em São Paulo, ainda que, a bem da verdade, em São Paulo tudo é superlativo, tanto nas benesses, quanto nos problemas. É relativamente barato para se trafegar no transporte público em Lisboa. Por 12 euros você faz um cartão chamado “LISBOA VIVA”, é necessário exato 24 horas para se obtê-lo sem maiores burocracias do que a apresentação de alguns documentos, endereço e foto 3x4. O grande barato é que se o indivíduo se apresentar sem foto, existe uma máquina do lado do guichê que fotografa por 3 euros com impressão em minutos – praticidade pura. Ao ver esta máquina, lembrei-me imediatamente do filme “O fabuloso destino de Amelie Poulain” quem assistiu, sabe do que falo.  Enfim, conquistado o cartão Lisboa Viva, você compra uma senha por 42 euros, chamada passe, você tem acesso ao metrô (aqui eles chamam de metro) e a toda rede de ônibus, sem pagar mais nada. Este cartão também dá desconto no cinema, no oceanário e em outros locais bastante interessantes. A arquitetura é diversificada, o velho e o novo misturam-se sem maiores problemas. Não existem praças feias e ou mal cuidadas em Lisboa. São todas belas e sempre apresentam algo de chamativo que convida a todos para conhecê-las. Outra coisa que vi diferente são as refeições, o Português gosta de comer bem e muito, e os jantares possuem as entradas, os queijos, os molhos e ou as sopas, e, fundamentalmente, um bom vinho de acompanhamento. Feita a refeição, não é raro toda a família dirigir-se para um café, para tomar um expresso bem encorpado. Todavia, separando este aspecto de aprendizado que uma viagem como essa sempre traz, existe o sentido maior que é o sentimento que nutro por este País que sempre fez parte de mim, minhas raízes estão encravadas aqui e conhecê-lo é um sonho realizado. Todas as emoções estão sendo fortes e deliciosamente saboreadas pela minha sensibilidade, e, já sofro agora, pelo dia que terei de partir, mas, deixa isso para o momento oportuno… não vou ficar sofrendo de véspera, não é mesmo? Chau!!!

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

A CURA PARA TODOS OS MALES

Descobrimos isto numa viagem pelo metrô de Lisboa, em uma de suas muitas estações, estava sobre um banco dentro do vagão. Minha irmã viu primeiro e convidou-me para apreciar esta propagada do Professor Mamadu, o homem que garante ter a receita para solucionar todos os males.

Fica aí, como curiosidade para uns, e como possibilidade para outros, afinal, a fé pode remover montanhas.

Transcrição do folheto de propaganda:

PROFESSOR MAMDU
Astrólogo - Grande Médium Vidente

Especialista de todos os trabalhos ocultos. Resultados rápidos e garantidos. Dotado de dom herditário (?). Ele resolve todos os problemas mesmo os casos mais desesperados: amor, negócios, casamento, impotência sexual, insucessos, depressão, doenças espirituais, sorte ao jogo, protecção, retorno imediato e definitivo de quem amar, harmonia matrimonial e fidelidade absoluta entre esposos. Se quiser prender uma vida nova e pôr fim a tudo o que lhe preocupa, contacte o MESTRE MAMADU, ele tratará o seu problema com rapidez, honestidade e eficácia. Consultas das 9h às 22h de Segunda a Domingo, pessoalmente ou por carta. Pagamento depois do resultado.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

CÁ ESTOU!!!

...e, de repente,  PORTUGAL nasceu em mim...

E eu... Nasci em PORTUGAL!


Foto: ODIVELAS

terça-feira, 19 de julho de 2011

PELAS ESTAÇÕES DA VIDA


Quero que saibas como eu sou
Para que entendas o mundo que represento.
Todos nós somos um universo,
Cada qual com suas próprias considerações,
E um vasto arsenal de particularidades.
Somos o que somos,
E tudo o que somos é resultado
Desta fórmula pouco comum,
Que junta nossos desejos com o destino,
Que junta nossas idiossincrasias
Com as minúcias que formam o outro.
Convergir tudo isso para um caminho comum,
É a grande matemática da vida,
Coisas têm de ser perdidas no trajeto,
Coisas têm de ser adquiridas no trajeto,
E tudo misturado dentro da gente.
Ás vezes dá certo,
E segue-se junto para todo o sempre.
Ás vezes não dá,
E vamos ficando pelo caminho
Nas muitas estações que se oferecem.


Eu poderei, algum dia,
Ficar em uma dessas estações.
E quando o teu trem partir
E teu rosto ficar colado na janela
Olhando para trás
E para tudo o que poderia ter sido,
Quero que vás com minha benção,
E tente na próxima parada
Encontrar para ti
O que eu não consegui ser para você.
Não te condenarei pelo que não fostes para mim.
Não haverá culpas entre nós,
Não percamos tempo em busca de culpados,
Busquemos a felicidade em outros rostos,
Porque a vida é curta
E não dá para ficar, para sempre,
Lamentando o passado.


Eu ficarei aqui, perdido numa estação fria,
Seguirei meu curso e tentarei ser feliz.
Mas quero que saibas que
Todas as noites,
Antes de me deitar,
Eu me lembrarei de você
E de seu corpo quente e branco.
Sentirei um arrepio de prazer
Ao lembrar-me das noites que fizemos amor,
E, em um breve instante,
Como se domando a vontade do destino,
Estarei contigo novamente.


E, se em algum lugar,
Voce pensar em mim dessa forma.
Lembrar-se de minha mão tocando teu corpo,
Os arrepios em sua pele sugerindo paixão.
A gente vai estar junto novamente...


Quem sabe,
Numa próxima estação,
A gente não se encontre de novo...


... E tudo pode ser diferente!

quinta-feira, 7 de julho de 2011

O INCÊNDIO

Tocaram fogo no mato.
E o fogo, por sua própria natureza arredia, que jamais reconhece e se submete a quaisquer senhores, ganhou uma proporção enorme. Ninguém controla o fogo, o fogo se controla.

Era outono e as noites nesta estação são mais ligeiras no chegar, lentas no partir.

Ainda que o quadro fosse de descalabro e todas as tragédias se mostrassem em cores vivas, havia naquele inicio de noite uma beleza macabra no fogo. O som do crepitar das chamas, o avanço inexorável e poderoso do incêndio, as labaredas altas que dançavam um tango “caliente”, o clarão que se erguia na noite expulsando-a com uma luminosidade tênue. Era o belo que escondia a fera, era o fogo.

Mas esse pensamento de admiração durou apenas um minuto, durou apenas o tempo de um espasmo de tolice, a razão tomou o seu lugar. Imaginei todas as mil tragédias que se escreveram naquele lugar, naquela tarde. Assisti a fuga dos lagartos e calangos; vi os coqueiros aterrorizados morrerem impassíveis e caírem silenciosamente – os coqueiros morrem com nobreza; ouvi o lamento dos quero-queros que voavam em círculos chorando o ninho que ardia; milhões de insetos fugiram e outros milhões pereceram nas lambidas do fogo. Quantas histórias malditas não serão contadas nesta noite?

De repente, o som da sirene, chegavam os combatentes das chamas, os soldados que destroem o fogo e, por este ofício, é quem mais o respeita. Trabalharam rápido, organizado, eficiente, mataram o incêndio e partiram da mesma forma que vieram, sem avisos na chegada, sem alardes na saída, alguém mais os reclamava e eles se foram.
Ficou a fumaça incômoda e a lembrança quente do incêndio. A natureza se recuperaria, ela sempre se recupera. A natureza somente sucumbe ao homem...

... foi quando, num canto qualquer do mato, um estralo de madeira soou e vi uma pequena labareda que surgia.
Ela olhou para mim...
Eu olhei para ela...
E antes de tudo e qualquer coisa, pisei-a no seu olho que, arrogante, me desafiava. Era o recado do fogo: Venceram-me nesta batalha, mas, eu volto, eu sempre volto, eu sou eterno...

Esqueci-me de recados e do próprio fogo, orei pelos bombeiros e fui em frente, a vida, este sim, um incêndio delicioso, me convidava para dançar...