quinta-feira, 21 de maio de 2026

CANÇÃO PARA DIAS DESESPERADOS

 


Não se desespere, meu amor, não se desespere.

Ainda que se fechem todas as cortinas,

E que portas não se abram mais.

Ainda que os rios transbordem

Sufocados por suas lagrimas.

Ainda que noite e dia se revezem

Como espectadores atentos

No teatro de sua dor.

Ainda que tu olhes para os lados

E acredites que todos estejam

Cegos para você.

Ainda que os céus estejam com

As portas e janelas trancadas

Para teus lamentos ajoelhados

Em formas de clamores e orações.

Ainda que algumas bocas ferozes

De alguns túmulos insensíveis

Tenham devorado alguns dos nossos.

Ainda que teus sorrisos e tuas gargalhadas

Sejam apenas decorações de

Poeirentas prateleiras do passado.

Ainda que todas as cargas que suportas

Estejam ainda mais pesadas que o

Dia de ontem;

Ainda que tua fé em todas as coisas,

Nas pessoas, na esperança

Esteja tão pequena

Que não consiga recobrir

Um grão de mostarda.

Sei que nestes instantes as palavras

Perdem poder.

Elas são fracas, tão fracas quanto as

Perspectivas frias que se erguem

À sua frente.

Calo-me! No silêncio finco meus dois pés

E nele me sustento firme e inabalável.

Estarei aqui!

Tu não me honrarás com teu reconhecimento,

Tu não me enxergaras e,

Em alguns momentos mesmo,

Me desprezarás.

Mas, eu estarei aqui!

O tempo cuidará de enxugar as tuas lágrimas

E Deus arrancará de teu horizonte sombrio

As nuvens negras que povoam seu coração.

Ainda que todos digam: não!

O sol iluminará tua vida novamente,

Ele me iluminará,

E tu verás...

Tu verás...

Eu sempre estive aqui contigo!

 

SOBRE DIAS ESPECIAIS E OUTRAS REFLEXÕES

 


Naquele dia, o sol acordou mais cedo

Ansioso para despertar o mundo

Para as quentes novidades

Do novo dia que nascia.

A relva vestiu-se de fraque cor clorofila,

E as folhas das árvores, todas elas,

Elegantemente trajadas de vestidos verdes.

As flores, naquele dia mui especial,

Fabricaram seus mais deliciosos aromas

E, todos estes, ofuscaram

Os mais caros perfumes.

Nas praças de todo o mundo

Sinfonias de pássaros entoavam

Poesias e romances em formas

De alegres melodias campestres.

Tudo estava diferente.

Ainda que para o resto do mundo,

Tudo seguia normal

Dentro da igualdade burocrática

De todos os seus dias opacos.

Parti, naquele dia, numa jornada

Que não distava alguns poucos passos,

Mas dava-me a certeza que a viagem

Duraria a vida inteira.

Parti, saindo de dentro de um sonho

Para chegar numa estação chamada

Realidade, e, quando lá cheguei,

Confesso, não sabia mais o que era sonho,

Nem o que era verdade,

Doce amalgama que me inebriava.

Naquele dia, 24 de outubro,

Foi o dia mais especial,

O mais lindo entre todos os

Dias de minha vida.

Naquele dia...

Naquele dia...

Naquele dia eu me casei com você!

domingo, 17 de maio de 2026

AO REDOR DO CRIME TUDO É ABISMO

 

O que se contava nos corredores da quimera era que quando ele chegou, na rua havia sido um homem com alguma influência.

Na cadeia, ser influente é alguém que tem um bom emprego, um bom salário, família estruturada, portanto, para essa espécie de gente o crime se torna algo distante.

Essa é a crença: a posição social ou econômica afasta as pessoas do crime.

Tudo um engano.

A criminalidade não é resultado do status ou poder da pessoa, a natureza é por si só pecaminosa, são os freios éticos e morais de cada um que impedirão que o mal quebre a castanha da possibilidade e o crime se torna real.

Neste caso, estes freios neste indivíduo foram afrouxados pela droga – não se sabe o momento, nem os motivos que o levaram as veredas do vício, sabemos que do vicio para a cadeia foi um pequeno passo – para os abismos poucos passos são mais que suficientes.

Dentro da cadeia, os freios éticos e morais que estavam afrouxados foram imprudentemente destruídos.

Uma vez lá dentro, ajuntou-se com a nata da vagabundagem, com a escória da prisão, estabeleceu intimidade com essa gente e com essa gente abraçou a miséria em seu esplendor e de tal forma acostumou-se com ela que desapareceu no núcleo mais imprestável da penitenciária.

Essa descida para esse abismo foi sem freios, queda vertiginosa, e pelo caminho foi ficando família, dignidade, honra e, por fim, a saúde, tudo escoou por esse ralo chamado leviandade.

A droga levou tudo dele, até mesmo a consciência de seu estado deplorável.

Num instante, começou a ser frequentador da enfermaria, internações viraram rotina; remédios, drogas e procedimentos clínicos tornaram-se seus companheiros diários e, isso tudo, somado a sua vida de abusos o resultado foi o esquife, um ataúde guardou o homem que um dia, chegou a ser considerado influente na cadeia.

O crime não escolhe ninguém, as pessoas escolhem o crime; da mesma forma, são os homens que, por suas escolhas, mergulham nos abismos mais profundos.

Nesse dia, um dia igual e cinza como qualquer outro, esse preso foi engolido pela boca voraz de um tumulo e o que ele foi, o que poderia ter sido ficou esquecido para sempre... para sempre.... dentro do abismo que ele mesmo escolheu.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

NA JANELA DA 44


A madrugada da cadeia é um oceano...

... de silêncio!

Tudo na cadeia é aparência, aqui tudo é fugaz, efêmero, não se sustenta pelos padrões da verdade, justiça e virtude.

A realidade aqui é oculta.

Absurdo isso...

Para enxergar a realidade é ter de escavar, escavar e busca-la como se garimpa ouro, e, quando encontra-la atestar que aquilo que foi encontrado não possui valor... ouro de tolo.

A aparência é falsa.

A realidade é espúria, maligna, desprovida de virtude, e, sem virtude, o que nos resta?

Em uma dessas madrugadas silenciosas, quando a realidade repousava em sua toca de engodo, um preso qualquer se assentou na janela de sua cela 44.

Quieto.

Absorto.

Pensativo.

Agarrado às grades olhava para o mundo lá fora, perto e longe, esticando olhares como se buscasse respostas, como se quisesse encontrar o sentido de sua vida, como se estivesse a fazer uma profilaxia de sua alma.

Estava tudo tão quieto, a única coisa que se via (e ouvia) era o seu quadro recortado na parede do cárcere, sua figura enquadrada na janela de sua cela.

Era... era... triste...

Ainda assim, com o olhar correto, via-se alguma beleza poética no homem pensativo – o pensador que buscava entender a sua vida.

De repente, muito de repente, como são as coisas na cadeia, as águas do silêncio deste mar foram agitadas.

O policial da torre via rádio anunciou: drone!

No monitor, vi o homem sentado à janela 44 se agitar, saiu de seu estado de contemplação, ficou atento na movimentação lá fora buscando onde estava o aparelho voador, empunhou um cambão que retirou de algum lugar oculto da cela onde estava e iniciou tentativas vorazes de “pescar” o ilícito que, como num passe de mágica, vinha pelos ares.

Levantei, saí correndo, de onde estava até a cela 44 era longe e tinha de “atrasar” o ladrão, antes dele pegar o malote, pensava, pegarei eu.

Ah, cadeia, cadeia, sua megera....

Tua aparência de bonitinha e tranquila é sempre falsa.

Tua verdade, cadeia, é um caldo de sarcasmo e engano.

Nada é o que realmente parece na cadeia...