quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

UM HOMEM INTELIGENTE


Andava pela rua absorto da vida, os pensamentos desligados, os sentimentos em estranha letargia, MP3 no ouvido tocando R.E.M.. Foi, quando de uma curva da esquina ele surgiu, os cabelos bastante ralos, a barba espessa, pedalando com algum vigor. Ele me olhou por um instante, e seu olhar não demonstrou o brilho do reconhecimento. Viu-me como se visse um qualquer, um transeunte, alguém dessa multidão de pessoas que atravessam nosso caminho um dia e desaparecem no tempo, na distância e de nossa lembrança. Apenas mais um para não ser lembrado, sem importância...
Lembrei-me dele. Quando numa época distante encontrávamo-nos em uma locadora de filmes e por alguns momentos, discorríamos sobre clássicos, sobretudo acerca Hitchcock que sempre fora nosso preferido. O debate girava em torno da qualidade dos roteiros, da tecnicidade presente em seus filmes, em como todos os clássicos tinham mais inteligência em sua confecção do que os filmes atuais, que se preocupam mais com fotografia, efeitos especiais e trilha sonora. Não raro, havia dias que o assunto adentrava a seara da literatura, e aí, entravam neste palco Dostoievsky, Flaubert, Tolkien, entre tantos outros.
Chamava-me a atenção sua inteligência ligeira e audaz, que se aliava a uma opinião corajosa e sempre transparente. Isto o transformava num ser polêmico e, pelo que sabia, não tinha muitos amigos. A inteligência, dependendo o lugar geográfico onde ela brota, condena a pessoa ao ostracismo social, à solidão. Ele era um desses párias, amaldiçoado com uma perspicácia rara, vivia trafegando pelas ruas em sua bicicleta, arrastando uma astúcia preciosa que o transformava num fantasma para todos os outros. Aprendi a admirá-lo e sei, intimamente, que ele a mim.
Mas, isso passou, como todas as coisas passam um dia na vida. Eu parti, ele se foi, a vida se fez diferente para nós dois. E, neste dia, quando de assalto, o abordei, as memórias vieram a mim e fiquei feliz por vê-lo. Sinceramente, não sei se ele me reconheceu e se o fez, não entenderei jamais o motivo pelo qual não me cumprimentou. Talvez, estivesse com pressa, entediado, cansado, com fome, enfim, são uma centena de motivos que poderiam explicar o seu olhar indiferente para mim, sem que nenhum o justificasse com virtude. Nada disso importa, eu perdôo esse homem que ele se tornou quando o comparo com o colega que ele me foi um dia. Sob esta interseção da memória, consigo nesse rápido julgamento, defendê-lo de todas as acusações que sua atitude pouca educada deixou-me latente.
Mas, a verdade é que ele enveredou pelo tenebroso caminho das drogas e, provavelmente, muitos daqueles fantásticos neurônios que possuía morreram sufocados pela fumaça dos muitos baseados que deve ter fumado. Soube disso, por intermédio de um colega comum, que um dia o apontou como um cara inteligente e esquisito; e, hoje, lança seu dedo para defini-lo como um “noiado”.
Não me permito quaisquer considerações sobre o caminho que o colega tomou. As pessoas são o que são e, às vezes, determinadas situações nos leva para caminhos que nunca desejávamos para nós mesmos. Todos somos fracos. Todos somos fortes. Depende a situação que se nos apresenta e em como as contingências nos encontra. Preferia, na verdade, que este meu colega tivesse sido menos inteligente e muito mais sábio. Certamente, o que a sua maravilhosa inteligência não o conseguiu libertar, a sabedoria, ainda que em pequenas doses, o livraria. A sabedoria ainda é o mais belo entre todos os caminhos!

Foto: www.olhares.com

sábado, 10 de janeiro de 2009

FRAGMENTOS DO DIÁRIO NUNCA ESCRITO POR MIM

Aprendi a controlar as decepções profundas que me dá quando não te tenho quando te queria ter...

Aprendi a controlar, ainda mais, a efusiva alegria que me toma quando te tenho quando não te esperava ter...

Ainda que deteste transitar pelas extremidades deste relacionamento, ir da decepção profunda à alegria absoluta, sei que tenho de aprender a conviver com isso, pois isso, é o que podes oferecer!

Amar-te não é querer-te do jeito que eu te quero, e sim, aceitá-la do jeito que sabes e podes se doar e amar...

ORAÇÃO DO BOM COLEGA DE TRABALHO


Senhor, meu Pai querido do céu,
Eu sou fraco e mortal e sozinho
Não sou nada do que penso ser!
Então, dê-me forças e bom humor
Para começar bem o meu dia.
Que eu chegue sempre cedo ao trabalho,
E substitua com alegria meus colegas de serviço.
Que esteja atento para minhas obrigações,
Que não seja omisso em minhas responsabilidades.
Que eu tenha a energia para enfrentar tudo
O que houver para ser enfrentado.
Senhor, alimente meu senso de justiça,
E encha meu ser de sabedoria
Para que eu saiba tomar as melhores decisões.
Dê-me a capacidade para decidir e
A coragem de assumir as responsabilidades.
Preencha meus olhos e o coração
com amor para dedicá-lo aos meus colegas,
E aqueles aos quais me relaciono no trabalho.
Que meus colegas não sejam os outros apenas,
Que eu os veja como extensão de mim,
Como verdadeiros irmãos!
Que suas necessidades sejam minhas necessidades,
E que eu tenha sempre uma mão estendida
Para ajudar aqueles que tropeçarem pelo caminho.
Dê-me forças, Pai Celeste, dê-me forças
Para que minhas fraquezas
Eu consigo por mim próprio satisfazê-las.
Não quero ser pesado para ninguém!
Faça-me mais bondoso, paciente, compreensivo,
Generoso, dê-me alegria para trabalhar
E que o trabalho seja minha alegria.
Inculca em minha vontade o desejo da excelência,
Excelência nos procedimentos,
Excelência no comportamento,
Excelência na qualidade do meu trabalho.
Senhor, que eu tenha a capacidade de elogiar
As boas ações e o bom trabalho que o colega tenha feito.
Que minha boca se abra apenar para edificar
E que a maledicência minha e dos outros
Estejam sufocadas para não fermentar fofocas e intrigas.
Que o resultado de minhas tarefas seja uma benção
Para mim, meus companheiros,
E engrandeça a instituição que eu trabalhe.
E que minha pessoa e meu proceder glorifiquem seu nome.

Amém!



Foto: www.olhares.com

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

O bebê

E não é que o sujeito despertou pela manhã, bem cedinho, nove horas da madrugada e ao seu lado, estava deitado tranqüilo e sorridente, um bebê.... Um bebê.... Ao seu lado, naquele quarto escuro, situado no décimo oitavo andar do Edifício Kafka. Tentou entender a situação. Todas as janelas trancadas, as portas hermeticamente fechadas. Ninguém em casa, afinal, como devia de ser, morava sozinho já há alguns anos. Como aquele bebe fora parar ali, em sua cama. Procurou em sua roupinha alguma pista, e nada encontrou, nem roupa, nem pista. Que pista, afinal? O guri, repentinamente, como se houvessem ligado um botão, abriu a boca no mundo e começou a chorar. Ele cochichou no ouvido do petiz, pediu calma. Pareceu piorar. Pegou um resto de batata frita que restava em um pacote encima do criado mudo (desejou que o criado não fosse mudo para lhe aconselhar alguma coisa! Para que servem criados mudos?) e ofereceu ao nenê. Nada. Não quis. O choro aumentou de volume. Ligou uma música. Tocou, Raimundos. O garoto chorou mais alto. Axé music. Mais alto. Pagode. Mais alto. Soltou fank music, e piorou de vez o “choreiro”. Desligou o rádio, percebeu que o bebê além de chato, tinha péssimo gosto musical. Pegou um copo de água, e estendeu frente ao guri. Ele não o pegou. Desajeitadamente, pegou o bebê e tentou enfiar o liquido goela abaixo. Viu que não gostou. Não recriminou-o, pensou. Água para mim, considerou, só em último caso.
Pegou o nenê no colo, ele parou de chorar tal qual tinha começado. Envaideceu-se. Seu colo era mesmo irresistível, confessou com seus botões. As meninas adoram, jactou-se. Não sabia o nome do guri, resolveu chama-lo de K. Isto em homenagem a primeira palavra que lhe veio na cabeça quando o viu pela manhã.
K sorria-lhe. Ele próprio estava mal-humorado. O que fazer com aquele pedaço de gente em seu apartamento. E logo hoje que iria com uma turma para uma boca livre. De onde você veio, perguntava-se sem encontrar nenhuma resposta convincente e que não lhe parecesse maluca.
Em um momento, pensou ser chacota dos amigos. Mas ninguém tinha a chave de seu apartamento e o zelador, já havia ligado para ele, disse que não havia emprestado a chave dele para ninguém. Não era habito dele. Descartada esta hipótese, achou-se num desses programas tolos de televisão que fazem câmera escondida e babaquices do gênero. Tirou um sorriso bonito da cartola, penteou o cabelo e esperou a entrada do apresentador. Meia hora depois, desistiu desta suposição, chateado pela perca da notoriedade súbita e acidental.
Improvisou uma mamadeira com uns instrumentos quaisquer que é melhor não mencionar e deu leite de vaca para a criança que, sem entender, tinha aparecido um litro na geladeira. Nem sabia que leite de vaca era branco, sempre achava que era verde, por causa do pasto. Enfim...Nem ligou.... depois de aparecer um bebe do nada, leite de vaca era algo irrisório perto deste mistério.
Deitou-se novamente com o guri ao seu lado que, por seu lado, pequeno lado, já ressonava pesado, como se fora gente grande. Enraivecido e assustado em meio a esta situação estapafúrdia, acabou adormecendo, dizendo que assim que acordasse, iria entregar o guri ao Conselho Tutelar. Eles que resolvessem a parada.
Dormiu a tarde inteira, a noite inteira.
Acordou no dia seguinte, assustado. O bebê. O bebê. Olhou para onde o havia deixado. Nada. Somente o vazio. Correu os olhos pelo quarto, andou pelo apartamento, abriu a porta, ganhou o corredor, nada... nada do guri.... sumiu!!! Ligou para o Zelador. Perguntou do bebê. Ele disse que não sabia nada de bebe e ainda recomendou que parasse de beber. Andava com perguntas e jeito estranho. O bebê? O bebê? Onde estava o bebê? Quis ficar feliz... não conseguiu..... Flagrou-se com uma lágrima correndo pelo canto dos olhos. Chorava com saudades do bebê. Do bebê... Mas que bebê? De quem era o bebê? Não sabia. Chorava com saudades do bebê.....

Dez coisas que levei anos para aprender...

por Luis Fernando Veríssimo

1. Uma pessoa que é boa com você, mas grosseira com o garçom ou empregado, não pode ser uma boa pessoa.(Esta é muito importante. Preste atenção, nunca falha).

2. As pessoas que querem compartilhar as visões religiosas delas com você, quase nunca querem que você compartilhe as suas com elas.(Está cheio de gente querendo te converter!).

3. Ninguém liga se você não sabe dançar. Levante e dance.(Na maioria das vezes quem está te olhando também não sabe! Tá valendo!).

4. A força mais destrutiva do universo é a fofoca.(Deus deu 24 horas em cada dia para cada um cuidar da sua vida e tem gente que insiste em fazer hora-extra!).

5. Não confunda sua carreira com sua vida.(Aprenda a fazer escolhas!).

6. Jamais, sob quaisquer circunstâncias, tome um remédio para dormir e um laxante na mesma noite.(Quem escreveu deve ter conhecimento de causa!).

7. Se você tivesse que identificar, em uma palavra, a razão pela qual a raça humana ainda não atingiu (e nunca atingirá) todo o seu potencial, essa palavra seria 'reuniões'.
(Onde ninguém se entende... Com exceção das reuniões que acontecem nos botecos...)


8. Há uma linha muito tênue entre 'hobby' e 'doença mental'. (Ouvir música é hobby... No volume máximo às sete da manhã pode ser doença mental!).

9. Seus amigos de verdade amam você de qualquer jeito. (Que bom!)

10. Lembre-se: nem sempre os profissionais são os melhores. Um amador construiu a Arca. Um grande grupo de profissionais construiu o Titanic.(É verdade!).

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Durante um tempo,

escrevi muito poesia...
Hoje não consigo mais!
Não me pergunte os motivos,
Nem mesmo eu os sei!

Sinto saudades delas todas,
Das poesias que me visitavam constantemente.
Enquanto estive com elas,
Na ponta da caneta,
nos olhos,
na consciência

e no coração,
fui uma pessoa melhor!!!


Sinto saudades delas todas.....
de fazer poesia como um menino fazia travessuras!

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

O EREMITA URBANO



Eu sumi dos jornais.
Dificilmente me verão andando pelas ruas de Fátima.
Mesmo na virtualidade visito alguns poucos points que
Meus prazeres mais intrínsecos e originais
Não me deixam esquecê-los,
Não me deixam abandoná-los.
Virei um eremita, um eremita urbano.
Recluso.
Esquecido.
Abandonado por si e por todos os outros.
Prisioneiro dentro de uma ostra,
Uma ostra de... deixa para lá.
Se quero sorrir, me engano em viagens,
Umas viagens ao passado
Com baldeações em épocas específicas de minha vida.
Reminiscências são meu ópio.
A verdade é que sumi da vida.
Não me enxergarão onde houver sorrisos.
Gargalhadas soam-me um som estranho.
Sou este eremita bizarro,
Entretido em meditações pífias e mesquinhas,
Entretido em lamber as próprias feridas.
Se olho no espelho, fecho os olhos.
Não me enche de sabor a boca e o coração
Olhar meu próprio rosto.
Estou envergonhando... a mim mesmo!
Eu sumi do palco das decisões
Eis a verdade que não se cala
E me acusa o tempo inteiro.
As decisões exigem novos caminhos
E novos caminhos trazem suas conseqüências.
Acreditem, não tenho medo dos novos caminhos,
Minha história está cheio deles.
Sei como sobreviver neles e a eles.
Meu medo não são minhas próprias lágrimas.
Meu medo é ver as lágrimas dos inocentes
Pela força de minhas decisões.
Então....
... Deixem sorrir os inocentes,
Eu choro tudo o que se há para chorar por eles!
Enquanto isso...
Eu sumo do amor e da felicidade
Para esconder-me dentro de mim mesmo!



FOTO: olhares.com