
Se me pedirem para registrar a data de nascimento deste grande amor, frustrarei todas as expectativas. Sim. Por que essa paixão nasceu em mim e permaneceu adormecida durante o tempo que passava do andar de gatinhas para o ereto. Então, em um belo dia de sol, com a brisa fresca beijando meu rosto, quando questionado sobre o clube do meu coração, tasquei sem quaisquer hesitações: PALMEIRAS!
Não posso negar que o nascimento desta revelação não deixou de trazer grandes surpresas. Meu pai sempre foi santista, daqueles que viram Pelé jogar e com o Rei conheceu o futebol e o que há de mais mágico neste esporte verdadeiramente tupiniquim. Mas com os amores que nascem com a gente não se discute, não se briga, e apesar da resistência e esforço paterno, minha paixão floresceu e criou sólidas e fortes raízes verdes em meu coração ainda juvenil.
Então fui crescendo, o amor sedimentando. Este sentimento alvi-esmeraldino resistiu à década perdida. Naqueles dias áridos de conquistas e grandes batalhas, saciava a minha sede bebendo no cálice do passado glorioso. Os adversários e seus cultos não me atemorizavam. Os santistas com Pelé; os corintianos, de Rivelino; os tricolores, com Leônidas – exorcizava a todos com Ademir da Guia, depois do Rei, o maior de todos.
Ademir, o maestro, a elegância, a alma da academia. Quantas e quantas vezes, embevecido na retórica, esbaldava-me no campo dos sonhos, narrando para meus amigos os lances de Ademir e Dudu, da Academia. Naqueles momentos, via os jogos que não assisti, comemorava os gols que não presenciei, chorava os campeonatos que não vi serem vencidos.
Algum tempo depois, na década de 90, os títulos voltaram com força total, as vitórias ululavam nos relvados de todo o País e o Mundo reconheceu novamente a força e o espírito vencedor deste gigante esmeralda.

Um dia, porém, alguém me disse que os grandes times se equivalem, não existe esta história de distinção. Infeliz, esta é a minha definição para este colega. Por que somente em parte esta sentença é verdadeira. Se fosse ele como eu contagiado por esta paixão chamada PALMEIRAS, saberia ele, como eu sei, que esta verdade é valida para todos os outros grandes clubes de nosso País, a exceção é o nosso Alviverde.
Para nós, os palmeirenses, a conquista é uma metáfora de nossa força. O vencer pelo vencer, é profano. A vitória pela vitória, é ufanismo. A conquista para o PALMEIRAS é feita primeiro com a alma, com o coração, para depois, ganhar os gramados e as durezas dos prélios.
Para nós, os palmeirenses, a honra, a coragem, o companheirismo, a humildade, a paixão, são sentimentos que vestem nossa conquista, seja ela qual for, em que País estejamos. Não existe para o PALMEIRAS, um título que possa ser contestado, porque já entramos na batalha vencendo, só partimos para o convencer definitivamente, nossos adversários e a nós próprios.
Porém não é sobre os tablados e os pódios, levantando troféus e taças que mostramos nossa grandiosidade. É nos momentos adversos, quando a derrota nos arremessa suas garras cruéis que nós mostramos o que é galhardia e honradez. Caímos, com a mesma honra com que conquistamos. Nossas lágrimas são sempre enxugadas com o respeito de nossos adversários. Suas vitórias são sempre antológicas, quando conquistadas conosco à frente da batalha. Somos sempre pioneiros, exemplo, referência, não há como falar de bom futebol, de magia, de espetáculos, sem que nosso nome não seja lembrado e proferido em vociferante som.
Que me perdoem todos os outros, grandes por sinal, sob a concepção trivial de um torcedor comum. Mas, para o torcedor do PALMEIRAS, grande tem outra dimensão, desgarrada da acepção da vitória, da conquista pura e simples. Grande, para o palmeirense, vincula-se estritamente a nossa paixão, ao nosso amor, a esta emoção que nos impulsiona e direciona nossas vidas no cotidiano; uma emoção que nos ensina a excelência em nossa conduta; uma emoção chamada PALMEIRAS!