sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

FRAGMENTOS DO DIÁRIO NUNCA ESCRITO POR MIM

A realidade é uma só!

Se o Alaska fosse no Brasil, Chris McCandless teria sido enterrado como indigente!

O MAIOR CONQUISTADOR DO MUNDO


Não era um belo rapaz, nunca o foi, nunca o seria. Era de baixa estatura, orelhas de abano, grandes olhos, lábios finos, nariz avantajado. Contudo, era a simpatia em pessoa. Bastavam duas frases e já estava conquistando. Homens e mulheres sucumbiam-lhe sob efeito dominó. Dos homens roubava poder e prestígio para si próprio, sem que percebessem, praticando um salutar tráfico de influências para aumentar sua rede de contatos e assim, partir para as conquistas que realmente lhe interessavam: as mulheres! Ah! Estas caiam como moscas em sua teia de gentilezas e galanteios exagerados. Suas frases eram rebuscadas e possuíam sob a epiderme dos vocábulos, um lirismo imperceptível aos ouvidos masculinos. Para eles, tudo o que dizia era piegas, brega. Para elas, era diferente, tentador, romântico.
Era comum vê-lo ao lado de uma bela mulher, não raro com a mais bela mulher. Sua filosofia barata apregoava para os mais chegados “O segredo é não pilotar “teco-teco”, meu esquema é com os boeings!” E assim seguia, colecionando conquistas em profusão. Quanto mais bela e mais difícil a mulher, mais excitado ficava. A estratégia tinha alguma complexidade. O modo de andar, o jeito de olhar, a abordagem, as palavras escolhidas a dedo, os trejeitos, tudo estudado, tudo em seu devido lugar, um movimento servindo de catarse para outro. Não havia falhas, sua psicologia inapta era uma benção para si, uma maldição para a “vítima” escolhida.
E as mulheres o amavam, e ele amava as mulheres com todo o furor de um sentimento loquaz. Estar ao seu lado era conhecer o Éden com todas as suas maravilhas. Estava sempre armado com uma gentileza, uma generosidade ampla, um sorriso branco que lhe escapava aos lábios e fazia brilhar-lhe toda a face.
Foram varias suas aventuras! Suas conquistas foram inúmeras. Chegou a ser comparado a Don Juan, mas rejeitou o apelido dizendo que o amante espanhol só queria sexo, ele não, abraçava a mulher por inteiro. Era um anjo que veio para tocar a alma feminina, jactava-se.
Um dia qualquer de verão, passeando de pedalinho em um lago dourado, viu não muito longe de onde estava, uma mulher a pedalar seu barquinho, sozinha, indefesa. Examinou-a: seu modo de vestir, seu penteado, apurou as narinas sentiu-lhe o perfume – seus pelos eriçaram, seus olhos brilharam, estava pronta e aquecida a máquina conquistadora, partiu ao encontro da bela musa.
Tudo seguiu seu “script” natural. Bruxo como era tomou das águas do lago o seu frescor e emprestou-lhe à própria pele. Um raio de sol vespertino veio colorir seu sorriso. O vento alisou seu cabelo pixaim. Seus olhos alugaram o azul do céu. Sua voz parecia a voz de uma Sílfide cantando para a alvorada. Falou qualquer coisa grotesca e a moça sorriu-lhe agradecida pela atenção súbita. À frente de seus olhos surgia um fado galante que vinha lhe salvar das terríveis águas da solidão. Num instante estava dentro do pedalinho da musa conquistada e, noutro instante, mais breve ainda, estavam dentro de seu Fuscão Verde 69 cujo ronco parecia (para os ouvidos femininos) o rugir de uma Ferrari.
No outro dia, nosso herói conquistador acordava num quarto de motel barato, ao seu lado o corpo de uma bela mulher descansava, após uma vigorosa noite de amor. Sorriu satisfeito e feliz enquanto suas mãos ternas percorriam lentamente as belas e fêmeas costas morenas...

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

A ÚLTIMA VIAGEM DE TAXI


Houve um tempo em que eu ganhava a vida como motorista de táxi. Os passageiros embarcavam totalmente anônimos. E, ás vezes, me contavam episódios de suas vidas, suas alegrias e suas tristezas.
Encontrei pessoas que me surpreenderam. Mas, NENHUMA como aquela noite de 25 para 26 de julho do último ano em que trabalhei na praça!
Havia recebido já tarde da noite uma chamada vinda de um pequeno prédio de tijolinhos, em uma rua tranqüila do subúrbio de Belo horizonte, capital das Minas Gerais.
Quando cheguei ouvia cachorros latindo longe. O prédio estava escuro, com exceção de uma única lâmpada acesa numa janela do térreo.
Nestas circunstâncias, outros teriam buzinado duas ou três vezes, esperariam só um pouco e, então, iriam embora.
Mas, eu sabia que muitas pessoas dependiam de táxis como único meio de transporte a tal hora. A não ser, portanto, que a situação fosse claramente perigosa, eu sempre esperava....
“Este passageiro pode ser alguém que necessita de ajuda”, pensei. Assim, fui até a porta e bati. “Um minutinho”, respondeu uma voz débil e idosa.
Ouvi alguma coisa a ser arrastada pelo chão...Depois de uma pausa longa, a porta abriu-se. Vi-me então diante de uma senhora bem idosa, pequenina e de frágil aparência!
Usava um vestido estampado e um chapéu bizarro daqueles usados pelas senhoras idosas nos filmes da década de 40! E se equilibrava numa bengala, enquanto segurava com dificuldade uma pequena mala...
Dava para ver que a mobília estava toda coberta com lençóis. Não haviam relógios, roupas ou adornos sobre o móveis. Num canto jazia uma caixa aberta com fotografias e vidros...
A velha senhora, esboçando então um tímido sorriso de quem havia já perdido todos os dentes, pediu-me:
“O Senhor poderia me ajudar com a mala?”
Eu peguei a mala e ajudei-a a caminhar lentamente até o carro. E enquanto se acomodava ela ficou me agradecendo...
“Não é nada, apenas procuro tratar meus passageiros do jeito que gostaria que tratassem minha velha mãe”... “Oh!, Você é um bom rapaz!”
Quando embarcamos, deu-me um endereço e pediu:
- “O senhor poderia ir pelo centro da cidade?”
- “Este não é o trajeto mais curto”, alertei-a prontamente.
- “Eu não me importo... Não estou com pressa... Meu destino é o último! O asilo dos velhos”...
Surpreso, eu olhei pelo retrovisor. Os olhos da velhinha brilhavam marejados...
- “Eu não tenho mais família e o médico me disse que tenho muito pouco tempo”...
Disfarçadamente desliguei o taxímetro e perguntei:
- “Qual o caminho que a senhora deseja que eu tome?”
Nas horas seguintes nós dirigimos por toda a cidade. Ela mostrou-me o edifício na Praça 7 em que havia, em certa ocasião, trabalhado como ascensorista...
Nós passamos pelas cercanias em que ela e o esposo tinham vivido como recém-casados. E também pela Igrejinha de São Francisco, na Pampulha, onde comemoraram Bodas de Ouro!
Ela pediu-me que passasse em frente a uma loja de móveis na região da praça da liberdade, que havia sido um grande salão de dança que ela freqüentara quando mocinha!
De vez quando, pedia-me para dirigir vagarosamente em frente a um edifício ou esquina. Era quando ficava então com os olhos fixos na escuridão, sem dizer nada... E olhava. Olhava e suspirava.
E assim rodamos a noite inteira... Quando o primeiro raio de sol surgiu no horizonte, ela disse de repente: “Estou cansada... E pronta! Vamos agora!”
Seguimos, então, em silêncio, para o endereço que ela havia me dado. Chegamos a um prédio rodeado de árvores, uma pequena casa de repouso.
Dois atendentes caminharam até o táxi, assim que paramos. Eram amáveis e atentos e logo se cercaram da velha senhora, a quem pareciam esperar.
Eu abri o porta-malas do carro e levei a pequena mala até a porta. A senhora já sentada em uma cadeira de rodas, perguntou-me então pelo custo da corrida.
- “Quanto lhe devo?” ela perguntou, pegando a bolsa.
- “Nada!” eu disse.
- “Você tem que ganhar a vida, meu jovem!”
- “Há outros passageiros”, respondi.
Quase sem pensar, curvei-me e dei-lhe um abraço. Ela me envolveu comovidamente e devolveu-me com um beijo afetuoso e repleto da mais pura e genuína gratidão” E disse:
- “Você deu a esta velhinha bons momentos de alegria, como não tinha há tanto tempo... Só Deus é quem sabe o quanto você fez por mim! Obrigada, MEU AMIGO! Mil vezes obrigada!!!”
Apertei sua mão pela última vez e caminhei no lusco-fusco da alvorada sem olhar para trás, pois as lágrimas corriam-me abundantes pela face....
Atrás de mim uma porta foi fechada. Era o som do término de uma vida... Naquele dia não peguei mais passageiros. Dirigi sem rumo, perdido nos meus pensamentos. Mal podia falar.
Dois dias depois, tomei coragem e voltei no asilo para ver como estava a minha mais nova amiga. Me disseram, então, que na noite anterior adormecera para sempre, em paz e feliz....
E fiquei a pensar, se a velhinha tivesse pego um motorista mal-educado e raivoso...Ou, então, algum que estivesse ansioso para terminar seu turno...
Oh, Deus! E se eu houvesse recusado a corrida? Ou tivesse buzinado uma vez e ido embora?... Ao relembrar, creio que eu jamais tenha feito algo mais importante na minha vida até então!


Texto de autoria desconhecida!
Chegou-me através de uma amiga que o conseguiu junto a Procuradoria-Geral de Justiça do Estado de Mato Grosso do Sul, Ministério Público.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

COMENTÁRIOS LITERÁRIOS

Santiago Nassar iria morrer, e todos sabiam disso!
Foi avisado, foi jactado, foi notificado para todos por seus assassinos e, ninguém fez nada!
Santiago Nassar morreu inocente da culpa que lhe imputaram!
A obra “Crônica de uma morte anunciada” do Nobel de Literatura Gabriel García Marques é um livro soberbo, é daqueles que devem constar na biblioteca de todos aqueles que amam a literatura naquilo que ela tem de mais belo.
Possui 177 páginas e é um romance rápido que deve ser lido numa única pegada, sem concessões. E, acredite, você o faz, não se consegue despregar dele por um mero instante. O autor imputa a um personagem do livro a contagem da história, e ele o faz num gênero meio de documentário, colhendo as impressões das personagens e tecendo as suas próprias, fazendo desta colcha de retalhos uma contagem primorosa da história – aliás, característica primeira de Márquez, ser um excelente contador de histórias.
O enredo é bem diferenciado, a história dá saltos aqui e ali e desde o primeiro momento se sabe que Santiago Nassar será morto, mas, mesmo assim, você fica na torcida para que o autor esteja errado, para que algo aconteça e ele não morra. Mas, infelizmente, a omissão, o descaso, o fato de não acreditar, enfim, por diversos motivos, as pessoas deixam Santiago desavisado e quando ele vem saber, já é tarde demais.


“Por último, fizeram as facas cantar na pedra, e Pablo pôs a sua junto a uma lâmpada para que brilhasse.
- Vamos matar Santiago Nassar – disse.”





Sou suspeito de falar de G.G.Márquez, sou fã confesso de seu estilo e de sua literatura. Tenho três livros deles, e todos três maravilhosos, um deles, o Nobel de Literatura de 1982, Cem anos de solidão. Além dele, este ao qual comento agora e mais Memória de minhas putas tristes. A próxima empreitada será O amor nos tempos do cólera, outra famosa obra deste colombiano extraordinário.



“As luzes estavam apagadas, mas logo que entrei senti o cheiro de mulher morna e vi os olhos de leoparda insone na escuridão, e depois não voltei a saber de mim mesmo até que começaram a soar os sinos.”



Espero que leiam e que tenham o mesmo êxtase que tive. A leitura ainda continua sendo o maior de meus vícios e os livros, meus melhores momentos de excitação e prazer.








CRÔNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA, Gabriel García Márquez, Editora Record.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

TUA NUDEZ !!!



Tua nudez é um assombro!
Habitam em teu corpo
A maledicência,
A concupiscência,
O obsceno,
O impuro,
O profano.
Tua nudez é mais que erótica,
Concubina dos olhos masculinos.
Tua nudez encerra em teus vestidos,
Derrotados guerreiros da decência,
A incapacidade de emprestar-lhes virtude.
Teus olhos.
Teus cabelos.
Tua boca.
Tudo em você transpira sensualidade.
Tua nudez excita maldições
Aos felizardos e incautos dedos que a toca.
Tua nudez foi concebida por Deus,
Feita impura pelo demônio,
Emprestada perfeita aos homens,
Para conduzi-los, em grandes bandos,
Como cicerone às portas do inferno!

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Meus queridos!!!

Acabei de ler "CRÔNICA DA MORTE ANUNCIADA" do G.G.Márquez, escritor colombiano que está entre os meus prediletos. Estou em estado de extâse profundo tamanho o prazer da leitura, este post é somente para informar-lhes isso, mais tarde, venho com outro para dar considerações mais aprofundadas.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009


O servo anunciou ao rei: “Senhor, o santo Narottan nunca se dignou entrar no teu templo real. Ela canta louvores a Deus sob as árvores, em campo aberto. Ninguém mais vai adorar no templo. Todos se reúnem em torno dele, como abelhas ao redor de um lótus branco, e deixam vazio o jarro dourado para o mel”.

O rei ficou profundamente irritado. Foi até o campo onde Narottan rezava, sentado na relva, e lhe disse: “Pai, porque abandonas o templo com a cúpula de ouro, e ficas aí, sentado no chão, para anunciar o amor de Deus?”

Narottan respondeu: “É porque Deus não está em teu templo”.

O rei olhou com desagrado, e disse: “Não sabes que foram gastos vinte milhões em ouro para construir aquela obra de arte, e que depois o templo foi consagrado a Deus com ritos custos0s?”

“Sei disso” – respondeu Narottan.
“Sei também que ele foi construído naquele ano em que o fogo destruiu a casa de centenas de famílias do teu povo, e que elas em vão se prostraram à tua porta, pedindo ajuda. E Deus já dizia: ‘Pobre criatura que não pode oferecer abrigo a seus irmãos, e pretende construir a minha casa!’ Deus foi fazer companhia aos desabrigados, debaixo das árvores do campo... Essa pompa de ouro de que estás falando não tem dentro dela nada mais que o ardente vapor de teu orgulho”.

O rei se enfureceu e gritou: “Vai embora de meu Reino!”

O santo lhe respondeu tranquilamente: “Sim, expulsa-me para onde expulsaste o meu Deus”.



Rabindranat Tagore (1991, poema 34), do livro A Colheita, Edições Paulinas
Foto: Poeta indiano Rabindranath Tagore


Rabindranth Tagore é um poeta indiano nascido em 1861, Calcutá, e morto em 1941, Bengala. Foi músico, poeta, contista, teatrólogo e filósofo, foi Prêmio Nobel de Literatura em 1913. Sua obra e poesia remete a Deus e a natureza fazendo uma junção perfeita entre estas duas maravilhas. O amor, em todas as suas manifestações, também é bastante cantado em seu modo todo peculiar de escrever. Aprendi a gostar de Rabindranath a algum tempo atrás, quando por acidente, um livro seu chegou-me as mãos. De lá para cá, de quando em quando, volto a ler a sua obra e sempre que possível, dou um jeito de adquiri um livro de sua bibliografia.

Agora, acabei de ler “A COLHEITA”, livro lançado pelas Edições Paulinas, em 1991, na coleção Vida e Meditação. O livro é uma antologia de poemas escritos em diversas fases da vida do poeta indiano, uma coletânea com 86 obras primas poéticas e místicas do autor. São poemas que nos encantam não tão somente pela sua beleza textual, mas, sobretudo, eu acredito, pela sabedoria que eles possuem em sua essência. Rabindranath faz de sua poesia algo não tão somente para nos encantar em belas tardes nas varandas de nossas casas, e sim, um instrumento poderoso para enxertar de sabedoria e ensinamentos os nossos corações.


Vou pronunciar o teu nome quando estiver sozinho,sentado entre as sombras dos meus pensamentos silenciosos.
Vou pronunciá-lo sem palavras e sem motivo.
Sou como a criança que chama cem vezes por sua mãe,alegre de apenas poder falar "mãe".
(Rabindranat Tagore (1991, poema 82), do livro "A Colheita", Edições Paulinas")