sábado, 17 de novembro de 2007

LIMPANDO OS PECADOS DA HUMANIDADE


Aguardaram que eu dissesse algo importante, algo que mudasse o mundo, que colorisse o futuro, que removesse as manchas do passado como se o passado fosse uma vidraça que pudesse ser limpa com um pano e álcool.
Eu não sou mesmo tão poderoso assim.
Mal consigo me defender dos meus próprios erros que me acusam todo o tempo.
Não consigo criar outras possibilidades para meus próprios fracassos.
Tudo o que tenho de belo é uma retórica perfeita de auto-compaixão.
Ultimamente, tenho gasto tempo sentindo piedade de mim mesmo, não tenho mais lágrimas para chorar as dores dos outros.
Viram! Estou mesmo um fraco.
Como podem me pedir uma palavra que possa mudar alguma coisa neste mundo enlouquecido?
Vou dizer para não construírem bombas atômicas, se eles não se preocupam com a fome dos miseráveis?
Vou dizer para pararem com pensamentos de conquistas espaciais se eles sequer conhecem seu semelhante?
De que vale buscar as estrelas, diria, se não conseguimos alcançar nosso próprio coração?
Poderia falar de natureza, mas esta gente toda acha que desenvolvimento econômico e natureza são palavras inconjugáveis em comunhão.
(Eles sequer sabem o que é comunhão....)
Não me peçam para falar nada que possa mudar o mundo, estou infeliz.
Não domino mais meus sentimentos, meu destino.
A desilusão pela vida e pelas pessoas ronda minha porta.
Para que tivesse a arrogância de mudar o mundo, teria primeiro que mudar a mim próprio, penso que essa é a grande receita afinal.
Porque não percebo em ninguém esta capacidade de criar um discurso que possa alterar alguma coisa.
Estamos todos tão preocupados com nós mesmos...
... E isto me entristece, não gostaria mais de ter pensamentos puramente egoístas!
Então, vou pensar primeiro em um discurso para mudar o que é necessário em mim.... Vou resgatar minha humanidade perdida!
Quem sabe, será o primeiro passo que darei para mudar o mundo!

sábado, 10 de novembro de 2007

ORFEU E EURÍDICE


Orfeu (descendo do morro para a cidade [o inferno])


"Não dou daqui, sou do morro. Sou o músico do morro. No morro sou conhecido - sou a vida do morro. Eurídice morreu, desci à cidade para buscar Eurídice, a mulher do meu coração. Há muitos dias busco Eurídice. Todo mundo canta, todo mundo bebe; ninguém sabe onde Eurídice está. Eu quero Eurídice, a minha noiva morta, a que morreu por amor de mim. Sem Eurídice não posso viver. Sem Eurídice não há Orfeu, não há música, não há nada. O morro parou, tudo se esqueceu. O que resta de vida é a esperança de Orfeu ver Eurídice nem que seja pela última vez".


Orfeu da conceição - Vinicius de Moraes

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Tributo à Edith Piaf

Ela chegou por um acidente cinematográfico em minha vida.
Quando estava assistindo ao filme "O RESGATE DO SOLDADO RYAN", do Spielberg, chamou-me a atenção a música que os soldados americanos escutavam enquanto esperavam a máquina de guerra alemã para a batalha que, todos eles sabiam, seriam a derradeira. A morte era certa. Alguém encontra um vinil naquela vila francesa, o coloca num sistema de som e eis que a mágia acontece. Fantástico!
A visão daqueles quatro homens, em uma atitude tranquila à espera da morte escutando Edith Piaf é qualquer coisa de absurdamente belo se visto além da tragédia se mostra à primeira visão, uma visão menos sentimental e sensível. A música e a voz de Edith Piaf nos envolve, sugere, encanta, nos toma pelas mãos e parece nos apontar com seus dedos instigadores e virtuais para a crueldade daquele momento ao mesmo tempo que o pacifica. É como se aquele instante todo as vidas dos quatros soldados fossem uma pintura e a música de Edith Piaf a moldura. Congela-se a expectativa dos bravos, na tela; congela-se nossas respirações e sensações na platéia.
Naquele instante apaixonei-me por Edith Piaf e seu "Non, je ne regrette rien" e "Ne me quitte pas", apaixonei-me por um tempo onde músicas eram feitas de letras com conteúdo e com a voz e o talento dos artistas, ao contrário deste saco de gatos metalizado e robótico que escutamos hoje.
Este post é tão simplório. E Edith Piaf está muito acima disso. Para aqueles que me leiam, perdoem-me, sou pequeno e escrevo como pequeno, portanto, não prestem atenção neste amontoado de vocábulos em andrajos que tentam a todo custo se segurarem em uma frase maltrapilha. Edith Piaf mereceria que as palavras vestissem fraque, smoking e todas essas similaridades que, de forma exógena, enobrecem o homem. Assim, não atentem para o texto e vejam, como eu vi na cena do filme comentado, além do que se mostra. Vejam a minha emoção e minha completa devoção a esta extraordinária artista. Por este prisma, é provável que conheça Vosso perdão por arriscar a escrever sobre Edith Piaf.

sábado, 3 de novembro de 2007

ESPERA


J. G. de Araújo Jorge


Se tivesses mandado uma palavra - "Espera"!
Sem mais nada, nem mesmo explicado até quando,
Eu teria ficado até hoje esperando...
- Era a eterna ilusão de que fosses sincera -
Que importaria a vida, o sol, a primavera,
Se eras a vida, o sol, a flor desabrochando?
Se tivesses mandando uma palavra
- "Espera"!Eu teria ficado até hoje esperando...
Não mandaste. Tu nada disseste, e eu segui,
Sem saber que fazer da vida que era tua,
Procurando com o mundo esquecer-me de ti
E afinal o destino, irônico e mordaz
Ontem, fez-me cruzar com teu olhar na rua,
Ouvi dizer-te, "Espera" e ser tarde demais!

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Missão Cumprida, Dani!!!!

A idéia foi da Dani Kopsch!
A proposta era simples, pegar o primeiro, o primeiro livro que houvesse à sua direita e ler a 5ª frase da página 161.
Ora, de minha parte, não haviam livros ao lado direito, mas havia do lado esquerdo e peguei o primeiro que botei os olhos: Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, um pocket Book lançado pela Editora Globo em 1997.

Resgatei a frase sugerida:

- Pregar uma peças destas a mim! – repetia constantemente o Arquichantre. – A mim!

Não sei se a missão está inteiramente cumprida e se o foi com galhardia. Entretanto, um pedido da Dani deve ser sempre respeitado e procurei dar o melhor de mim nesta tarefa.

Gostaria que fosse uma frase mais emblemática, que mudasse espíritos, pois somente com mudanças de espíritos ocorrem as verdadeiras revoluções.

Se queres você também, que ora me visita, entrar nesta brincadeira para lá de interessante, faça isso também, poste a 5ª frase da página 161 do primeiro livro que houver à sua direita.
E nos avise, para que possamos lê-la e aprender um pouco com a eventualidade deste achado!

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

VIDAS ENQUADRADAS – Parte I

por Daniela Kopsch, direto de Curitiba/PR

Uma noite nunca é silenciosa no centro de Curitiba. Quando o barulho da rua parece diminuir e ouve-se apenas eventuais sirenes, é o vizinho que briga com a mulher ou o bebê que chora. É à noite que todo som tem um significado diferente, uma história a ser contada. A causa da sirene, do choro, da briga.
Em frente à minha janela tem um prédio de dez andares de janelas amplas. A maioria dos apartamentos não tem cortinas, o que os tornam palcos para uma pessoa curiosa.
A primeira janela mostra um casal assistindo TV. Mesmo com a luz apagada, a televisão ilumina a sala com um tom azulado que vai variando e absorve a atenção dos dois. Não pronunciam uma palavra. Parece que já não há mais o que desperte curiosidade um no outro. Acabou o motivo da conversa, a não ser que o programa seja mesmo muito interessante.
Na janela ao lado há vários jovens ao redor de uma mesa. Talvez joguem baralho ou algum jogo de tabuleiro. Enquanto um deles pula e parece gritar, o som de “truco” quase chega aos meus ouvidos. Somente em dois andares abaixo encontro movimento. Uma moça alta vestindo pijama anda pelo apartamento sem parecer muito ocupada. Me identifico de imediato. Sempre sozinha e sempre vagando pelo apartamento em busca de ter o que pensar. Logo ao lado há outra mulher, gorda e com idade avançada. Parece nervosa teclando num computador. Imagino se seria uma profecia do futuro da jovem de pijama. Sozinha teclando com alguém que acredita falar com uma loira, alta, de olhos azuis e 20 anos. Mesmo assim ela ainda pode estar só digitando uma monografia.
No último apartamento com movimentação há dois rapazes na janela. Possivelmente entediados. Provavelmente vendo a luz vermelha da minha câmera. Talvez pensando o mesmo que eu. Observar a vida de outras pessoas enquadrada pela câmera é muito útil para quem não tem mais o que fazer, ou não quer enfrentar o que tem dentro da própria janela.


Post Scriptum: Foto: Tela de Salvador Dali

"Obra de arte em imagem emoldurando uma obra de arte em texto"

VIDAS ENQUADRADAS – parte II


(a partir de um pensamento de Daniela Kopsch)

A cadeia é silenciosa a partir de algumas horas da noite, e este silencio é ainda mais angustiante que a algazarra e os alvoroços do dia. A cadeia dói na alma dos presos, durante o dia, mas dói muito mais durante a noite, quando os pensamentos dos internos se elevam para deuses surdos, quando seus olhos se voltam para horizontes limitados, quando seus ouvidos escutam apenas o som de suas próprias lástimas.

Estou atento em meu posto, nestes instantes. Sou um dos atalaias que vigiam, que tenta filtrar deste silêncio os sons que denunciam os maus pensamentos. Sou feito para que seus deuses continuem surdos, para que seus horizontes continuem ainda mais limitados e, se der, que as lástimas sejam atenuadas ou substituídas. Na clausura, as novas lágrimas parecem ser menos sofridas que as antigas.

Na cadeia, tudo é quadrado. Prédios quadrados, janelas absolutamente quadradas, vidas enquadradas, sentimentos quadrados, se é que me entendem? Num desses eqüiláteros, um homem fuma seu cigarro demoradamente, absorto no tempo, o tempo esquecido dele. Em um outro, um jovem (juventude perdida!) grita uma blasfêmia qualquer, o eco parece devolver o xingamento – Deus! Nem mesmo os ecos respeitam essa gente! Um estuprador derrama uma lágrima, depois da milionésima, na cadeia, eles são santos e castos. Em outro enquadramento, o homicida arrota sua arrogância, num reino que cultua a violência eles são reis.

Em outro quadro, alguém assovia uma triste canção. Parece querer que o som espante sua tristeza. A infelicidade é feita de silêncio, a alegria necessita de som para sobreviver. Aparências, nada mais que aparências, elas são necessárias neste lugar, sobre elas estão as bases desta consciência enclausurada.


Um espelho salta para fora de uma janela e busca a mim em seu reflexo. O reflexo me vê, atento, vigilante. O espelho se vai, frustrado, recolhendo-se para uma outra oportunidade.
Não será ainda desta vez, eu penso!
Não será ainda desta vez, eles pensam!
E a vida de todos nós continuará enquadrada por mais algum tempo!