domingo, 12 de agosto de 2007

MAIS UMA SOBRE POEMAS




Meus amigos me escreveram para falar de poemas....
Como se os poemas fossem realmente tão importantes...
Os poemas não são mais importantes....
Importante é a queda da bolsa e a ultima crise econômica mundial!

Sou um perdedor na vida,
Não porque não sou rico e nunca o serei!
Isto é uma grande besteira sem igual....
Sou um fracassado por que entre o feijão e o sonho,
Esqueci do sonho e fiquei com o prato de feijão!

Agora, voltei novamente a ter dúvidas,
Afinal esta história era algo que tinha posto um fim.
Tinha dito não aos poemas porque, de alguma forma,
Eles teriam dito não a mim!?

Mas meus amigos abriram-me os olhos!
Oh! Bendita seja Vossa persistência, amados!
Chamaram-me a atenção para o sonho – novamente!
E o sonho é um dos atalhos para os poemas!
E o sonho é um dos atalhos para o amor!

Assim, voltei a pensar em amor, novamente,
Como pode ser isso, achava-me morto para essas coisas?
Poemas e amor andam de mãos dadas.
Se pelos sonhos procuro poemas (de novo!),
Pelos sonhos procuro novamente o amor!

E, que venham os poemas....e o amor!
Com novas faces....
Com novas formas....
Com novos sorrisos em suas caras...
E me façam novamente escrever poesia....
E me façam novamente amar!

Não estou sendo muito exigente,
Com poemas,
Com amor.
Tudo o que quero é escrever poemas....
Tudo o que quero é amar!

- E, depois, comer um bom prato de feijão!!!

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

O VENDEDOR DE SORRISOS

Dedicada inteiramente ao sábio amigo e artesão Aristóteles (Vicentina-MS), o fantástico vendedor de sorrisos.

Apanhou o amigo como colhe uma rosa! Com alegria, satisfação em estar por perto, em poder servir de alguma forma. A generosidade é mesmo a mais nobre entre todas as qualidades humanas. Passou com o carro algo apressado e detectou o amigo a um canto da estrada, com o olhar esquecido de si mesmo, com a auto-estima escorregando como enxurrada pelos esgotos de um cotidiano sofrido. Parou e deu marcha a ré, abriu a porta do automóvel e com um sorriso autêntico convidou-o para entrar.
Seguiram em frente, mesma direção, histórias diferentes, destinos diferentes. Ele falou entusiasmado de seu trabalho com a fabricação de brinquedos, falou das dificuldades, de como as pessoas não valorizam mais o artesanato. Parece mesmo, confessou, que as pessoas esqueceram o valor de um produto inteiramente feito por mãos humanas, entalhado na madeira, com amor, com carinho, com um sorriso nos lábios. Olhou de soslaio para os brinquedos e insistiu na conversa. Porque um brinquedo, quando fabricado por um artesão, disse ao amigo carona, é feito para fazer uma criança sorrir, ele nasce com essa vocação, ele nasce com essa missão. A alegria do artesão não é somente vender, é ver a face satisfeita do comprador, da criança que recebe o mimo. Tem as máquinas este poder? A pergunta ficou no ar, sem a resposta dita, mas encravada na consciência e no olhar de cada um dos homens.
Ele falou de vida, de como consegue viver com pouco, de como são simples os seus sonhos, porque a vida é mesmo simples. Vida simples, sonhos simples, felicidade simplificada. Equação fácil. Sorriu, sentindo-se filosofando. As coisas parecem tão óbvias quando ditas com a confiança que a sabedoria promove.
O carona o ouvia atentamente, como o aluno que escuta o mestre, como se estivesse numa ágora grega para ouvir os grandes filósofos. Sentiu-se pequeno diante de toda aquela simplicidade exultante, daquele olhar sábio em enxergar a vida e suas ramificações. O carro devorava a distância, o tempo se perdia no limbo das horas, com o olhar fixo na estrada e no amigo ouvia as lições e procurava seu entusiasmo no meio da poeira de seus problemas. Insignificante era sua dor, pois sua dor não era algo tão grande assim se comparada a todas as outras tragédias humanas. Sentiu vergonha de se achar infeliz tendo um corpo saudável, a barriga cheia, inteligência, um emprego fixo e algumas possibilidades de escrever destinos diferentes para si mesmo. Quantos, pensou, que não tem essa possibilidade de poder escrever sua própria história?
O homem parou em frente ao seu trabalho. Sorriu com felicidade redobrada, teceu meia dúzia de elogios para ele e o convidou para almoçar qualquer dia desses, em sua casa. Deu-lhe um cartão com um telefone e cobrou um contato a qualquer hora dessas, os amigos, decretou, tem que estar sempre juntos.
Partiu! Partiu como faz o sol quando cumpriu sua missão natural de doar-se sem cobranças, assim ele o foi, uma força da natureza pronto para ajudar, para contribuir, um homem bom e generoso!
O carona ficou ali por um breve momento, olhando o carro afastar-se na distância, já sentindo saudades da sabedoria do colega. Os brinquedos foram sacolejando euforia, órfãos por enquanto de uma criança que os fizessem seus. Mas, o entusiasmo do vendedor de sorrisos, certamente, encontraria para cada um de suas criações em madeira o dono certo, um brinquedo para fazer sorrir mais uma criança neste velho mundo de lágrimas.
O carona foi-se embora, andando devagar, em algum lugar de seu coração o otimismo e o entusiasmo brotavam verdes como brotos que florescem em meio a uma terra árida recentemente irrigada.

quinta-feira, 12 de julho de 2007

O REI NEGRO E O DIVINO BRANCO

O tempo desta história não existe e se existe, existe apenas na cabeça daqueles que sonham, tempos onde camisa e jogador se confundiam.
“Seo” João sempre foi uma pessoa apaixonada pelo futebol, pelo bom futebol, cresceu santista, fascinado pelas jogadas do Rei Negro.
Eu era guri quando ele me contou esta história, e seu entusiasmo ao contá-la, só não foi menor que o meu, ao ouvi-la.
Ele não acreditava na história de que havia no Palmeiras, um branquelo que jogava tão bem quanto a Pelé. Diziam que ele era mágico, pois apesar de lento, desafiava tempo e espaço e sempre chegava na frente; era habilidoso com a bola nos pés e o maestro de todo o time da Academia – diziam até que seu apelido era divino. “Seo” João achou uma heresia dar o nome de divino a um mortal, e, ainda mais, um qualquer. Somente Pelé merecia tal distinção. “Seo” João, incrédulo, disse-me que sorria destas invencionices.
Um dia, o Palmeiras veio com o time todo da Academia jogar numa cidade próxima a do “Seo” João, e ele foi lá: “Vou ver com meus próprios olhos se esse branquelo joga alguma coisa mesmo!” Ia armado de uma sacola de críticas pré-concebidas, o olhar treinado para depreciar qualquer jogada de Ademir; as palavras todas ensaiadas para uns xingos. Ademir já entrava em campo condenado previamente pelo “Seo” João, ele confessou-me isso.
A partida começou, o time da casa derrubava suor e sangue para marcar os guerreiros verdes. Com poucos minutos de jogo, Julinho escapou pela direita e deu um centro para a grande área, Vavá olhou fixamente para o capotão e no momento certo subiu testando forte, a bola explodiu no travessão e voltou para o meio da grande área. O zagueiro assustado, mirou para onde o nariz estava virado e deu uma bicuda para o alto, no velho estilo Viva São João, expulsando o perigo de gol eminente. A bola subiu feito um foguete, conta “Seo” João, o brilho dos olhos ainda guardando toda a admiração original e foi em direção ao meio campo, indo na direção do tal branquelo. “Seo” João disse que sorriu naquele momento, antevendo um fracasso no movimento de Ademir da Guia. “Esse ai!” pensou, “Não vai saber o que fazer com a bola!”.
Ademir no meio campo era uma estátua em mármore. Olhou para os lados, parecia onisciente, parecia controlar tudo a sua volta, o movimento do ar, o tempo da bola, seus traços estavam impassíveis quando dominou “o couro” que caia em velocidade vertiginosa. Ele ergueu a perna direita e a bola desceu colada aos seus pés, acariciada. Ela ficou quietinha à sua frente, falou-me “Seo” João. Nunca havia visto algo parecido. A bola não tinha vida própria, obedeceu ao homem e ao seu comando como se somente a ele pertencesse. Aquela matada, nem Pelé faria igual. Depois, driblou o primeiro marcador, tocou para Servilio que devolveu prestativo. Ademir era soberano, o estádio todo em silêncio, escutava-se as suas pisadas leves no gramado. Meteu um chute em rosca e a bola morreu no canto superior direito do goleiro que esticou-se todo e pulou como um gato. Mas não tinha jeito, a bola era de Ademir e somente a ele obedecia. Um golaço!
“Seo” João ficou em silêncio por um momento, seu olhar entretido com as lembranças que acariciavam sua consciência e sentenciou: Ademir da Guia era divino...pertencia aquela classe de jogadores que entendiam o jogo e o dominavam. Se houve um dia em que eu me arrependi de ter entregue meu coração ao Santos, foi naquele, diante daquele time esplendoroso. Daquele jogo em diante, o coração continuou pintado em preto e branco, mas lá no fundo, um pedacinho ficou verde e sempre ficou!
Fui-me embora, sonhando com tempos que não mais existem, e se existem, existem somente na cabeça daqueles que sonham.... Orgulhoso de ser palmeirense! Obrigado “Seo” João!!!

terça-feira, 3 de julho de 2007

O HOMEM DO JARDIM


Uma rosa floresceu com a alva, toda oferecida para flertar com o orvalho. O jasmim, de noite, enamorado da lua perfumou-se todo para chamar sua atenção. A grama vestiu seu traje mais reluzente. Os pingos d’ouros asseados, unhas bem cortadas, eram as muralhas a guardar o harém florístico. Um reino em flora a esperar seu senhor!
E quem era o senhor daquele jardim?
Quem era o homem que com seu toque de Midas para a natureza, acariciava as rosas e beijava as tulipas, conversava demoradamente com as margaridas, flertava com as hortênsias e cochichava segredos para os cravos e afiava as espadas de São Jorge?
Quando no jardim, era um homem delicado e dedicado. Amava aquele ofício que transcendia as questões de remissão de pena. As plantas mostravam-lhe o quanto era importante, o quanto ele era necessário. As plantas o amavam, e ele amava as plantas – um amor entregue, sem sacrifícios fúteis, buscas oportunas ou pedidos interesseiros, o amor pelo amor, simplesmente.
Porque, na verdade, detestava o amor dos homens. Amor insano, imperfeito, de duplas intenções. Os homens davam e pediam algo em troca: sua vida; sua submissão; às vezes, sua honra; sua dignidade, sempre.
No jardim, entretanto, as manhãs eram festas plenas. As plantas esperavam-no como aguardavam o sol, com sua melhor roupa, com seu melhor aspecto, com o melhor dos eflúvios.
No jardim entre as plantas, sentia-se importante. Sua decisão era respeitada e acatada, pois todas elas sabiam que tudo o que ele fazia era para o bem delas. Uma democracia, que funcionava de verdade, onde a maioria era privilegiada e jamais, jamais, deixou que suas vontades pessoais sobrepujassem o interesse do jardim. Como poderia? Ele era parte do jardim, a parte mais feia e, ainda assim, com sua importância. Ele aprendeu isso no jardim, na natureza que o rodeava. Somos todos partes de um grande ser chamado PLANETA TERRA e todos nós somos importantes, todos precisamos uns dos outros para sobreviver, ninguém é mais importante que o outro.
Os homens não entendem dessas coisas, os pulhas!
Mas não queria mais pensar em homens. Eles não têm a pele aveludada como as rosas e suas pétalas; seus cheiros são fétidos; não possuem cores vibrantes. Seres desprezíveis, os homens. Alguém lhe disse que na biblioteca da cadeia tinha um livro que falava de um homem que ao acordar pela manhã havia se transformado em um inseto. Isto! É isto que os homens são, insetos!
De repente um grande barulho de portões se abrindo tira-o de seus pensamentos. Surge por entre a muralha de ferro uma linda jovem. Ela sorri e o cumprimenta gentilmente.
Ele retribui o sorriso, corta uma linda rosa e a oferta para a moça. Ela agradece, educadamente, e vai embora algo satisfeita com o mimo.
Ele deixa o olhar entreter-se nela até perder-se com ela nos corredores da Unidade Penal. Ele controla um impulso... Selvagem... Um desejo a muito sufocado luta para renascer. Um desejo animalesco, que tira dele o que ele tem de pior, um desejo que somente aplaca-se com sangue...sangue alheio. Os homens são mesmo desprezíveis, pensa, só servem para adubo. Uma rosa chama sua atenção, volta-se por completo ao jardim...enquanto isso, algo dentro dele se acalma...se acalma...adormece...e dilui-se junto com a água que irriga o belo jardim da cadeia.

sábado, 23 de junho de 2007

PRIMEIRAS IMPRESSÕES SOBRE A CADEIA

Como sempre, lá estava ele, em seu posto, atento. Olhava a tudo e a todos, em suas celas, todos os movimentos dos reclusos cuidadosamente estudados. Observava um velho senhor negro, cabelos brancos, tomando um banho demorado, ensaboando-se com tamanha vontade que parecia querer tirar todos os pecados do corpo com água e sabão. Na cela inferior, um jovem mal-encarado fumava absorto, pensando na vida, tentando encontrar outros culpados para pecados exclusivamente seus. Em um outro cárcere, um rosto apareceu na janela e gritou uma blasfêmia qualquer. Desabafava suas agruras e tristezas para si próprio, para todos os deuses surdos que o escutava. Um outro qualquer comia o restante do conteúdo frio de sua marmita com relativo prazer, na cadeia a fome é o melhor tempero.
A cadeia é silenciosa à noite, a melancolia monta guarda na madrugada da penitenciária. Pode-se ouvir os passos dos agentes no grande corredor central, o guinchar dos ratos no jardim, os sons da longa noite de insônia dos prisioneiros. Pode-se descortinar alguns sorrisos aqui e ali, mas não se pode dizer que há alegria suficiente neles para mover os moinhos da felicidade. Sorri-se, invariavelmente, para esquecer a dureza de um ambiente onde todos na verdade gostariam de estar longe. A cadeia é um local de aparências, cortinas abstratas escondem as verdades que estão sepultadas nestes endurecidos corações humanos. A tristeza veste sorrisos fantasiando uma alegria que não existe. O ódio dissimula-se com a rotina e a disciplina. A liberdade fica em “stand by” aguardando em forma de crisálida para nascer como borboleta, com o abrir voluntário dos portões; ou romper o casulo de forma furtiva como uma mariposa fugitiva. O diálogo surge como intruso quando as facas são forçosamente trancafiadas nos “mocós” de lares que não são doces.
A cadeia é um lugar de aparências, a tranqüilidade é uma visita agradável ansiosamente aguardada, mas que todos sabem que tem hora para ir embora. As cortinas são obrigatórias na cadeia, são elas que de uma forma artificial sustenta a tranqüilidade. Tudo são aparências na cadeia, aparências.....reconhecer isso e lembrar-se permanentemente disso, é manter-se vivo.
E como sempre, lá estava ele, em seu posto, atento. Olhava a tudo e a todos, percrustando, tentando divisar algum movimento ilícito, alguma atitude impensada, alguma ação não permitida. A cadeia é um organismo vivo que contamina todos os que nela adentram. Ele viu seu coração, percebeu um lado resistente, ainda resplandecente; o outro negro, corrompendo-se com esta realidade trancafiada em grades. Desde o dia em que conheceu a cadeia e seus devaneios de megera, suas dores não eram mais tão doídas, sua alegrias não mais tão prazerosas, perdeu-se nele a humanidade. O sofrimento alheio era uma realidade, e a realidade é feita para manchetes de jornais, não para os frontispícios do próprio cotidiano.
Alguém apareceu, rendeu-o em seu posto, a vida continua na madrugada gelada da cadeia. Olhou uma última vez para as cenas solitárias de todas as janelas das celas que encenavam dramas particulares, solitários e comuns a todos os internos. De algum lugar viu brotar novamente a poesia, de algum lugar em que a havia esquecido, no passado, sufocada por sua covardia em não querer encarar sua própria humanidade. Ela ainda sobrevivia, sentiu um alívio por isso. Sentiu compaixão por aqueles seres humanos....sentiu compaixão por ele próprio. O agente ainda era gente, afinal, gente....

quinta-feira, 21 de junho de 2007

O Senhor de toda a gratidão

Tinha acabado de fechar o portão que dá acesso para as galerias de internos no interior do Pavilhão, quando se aproximou de mim um jovem, e ficou por ali marcando tempo, com aquela expressão perdida e despreocupada daqueles que sabem qual será a sua rotina diária pelos próximos muitos anos. Uma grade nos separava – ele para o lado dentro, eu para o lado de fora –, me olhou, percebi que esperava um momento adequado para se aproximar – a cadeia é mesmo assim, fica muito caro o preço a pagar quando se escolhe o momento errado em qualquer coisa, a cadeia desconhece o perdão e sempre cobre suas dívidas.
- Eu me lembro do senhor!
Disse após tomar a certeza de que era o momento certo.
(Quando é o momento certo?)
Fiquei em estado de alerta.
- Desde o dia em que eu cheguei aqui, eu me lembro do senhor!
Revirei todas as gavetas da memória, tirei o pó de algumas coisas que estavam lá no fundo do grande baú de lembranças, sacudi o tapete das reminiscências, até investiguei algumas chateações que estavam depositadas no grande arquivo morto da inconsciência, mas que.... Nada do rosto do sujeito aparecer. A cadeia tem dessas coisas, você se esquece do interno, o interno jamais esquece de você.
Como me mantinha em silêncio, estratégia encampada para entender a situação, ele insistiu.
- No dia em que eu cheguei, a minha Bíblia caiu no chão. O senhor a pegou e me entregou.... Nunca esquecerei disso!
Neste instante, houve luz em minhas lembranças. O rosto tristonho do sujeito, suas coisas espalhadas pelo chão depois da revista, o seu medo no olhar, o Livro Sagrado no chão.... no chão....
Senti sinceridade nas palavras dele e senti que aquela era a forma que ele sabia, ou encontrou, para me dizer Obrigado!
Sorri de uma forma circunspecta, a cadeia é um lugar que algumas manifestações emotivas devem ser suprimidas, e respondi sóbrio:
- Veja bem! Lembre-se sempre do Senhor e tudo estará bem, para mim e para você.
Eu me afastei, fui cuidar de outros afazeres e lá, de onde estava em meu posto, pude vê-lo uma vez mais, a um canto qualquer, meditando, olhando para mim, seu olhar atravessando as grades. De certa forma, fiquei assustado, era a primeira vez que a gratidão me visitava na cadeia.

domingo, 17 de junho de 2007

UMA QUIMERA E MIL SACIS

Depois que a cadeia fecha, o silêncio toma conta das galerias. Apesar das muitas luzes, o ambiente ganha tons lúgubres. Aqui ou ali se ouve um grito qualquer, um preso chamando outro; outro grito de um louco buscando sanidade no horizonte trancado dos muros; um louvor ao Deus de todos nós, um louvor triste que soa como um lamento; uma oração, dez orações, cem orações; um delinqüente solitário olhando para o grande olho da lua, pensativo em mil patifarias; um bandido sentado agarrado às grades, os pés para fora, balançando-se ao sabor do vento fresco da noite, grita, esperneia, xinga, chora e ri, tudo sozinho, com ele mesmo, ele e a droga maldita que toma conta de sua consciência atrofiada. Mas, o silêncio está ali, presente, constante, como se fosse um ente, um ser vivo, dá medo o silêncio da noite na cadeia, o silêncio de mil homens trancados, liberdade sufocada pela força do aço das grades, o silêncio na cadeia é calmaria que antecipa as tempestades.
De repente, sobem os agentes, a polícia da cadeia, os coletes, os cinzentos, indesejados por uns, odiados por todos; a quimera agita-se, se contorce num espasmo, rompe-se a placenta do silêncio e surge um assovio longo e agudo formado por um coral de mil sacis. Fiu... Fiu..... Fiu..... O alarme está dado, os agentes vêm chegando, é hora de sufocar os gritos, de esconder os radinhos[1], guardem as facas, tome logo este último gole de Maria Choca[2], tapem os mocós[3], a polícia vem vindo.... Vem vindo!
Apesar da calmaria, a cadeia nunca dorme inteiramente, ela é um monstro, uma quimera de mil corações, mil pares de olhos, mil olfatos e têm mil vidas para serem desperdiçadas. A cadeia nunca dorme, tem sempre um olho acordado para vigiar, atalaia patife e insone, um saci para acordar os outros sacis e soar o grande coral de alarme da cadeia. É impossível colher a grande quimera desprevenida, não há formas de emboscá-la em seu habitat maldito ou vacilando no seu eterno plantão; ela está sempre atenta com seus mil pares de ouvidos que escutam tudo e em toda a parte.
Os agentes chegam e fazem seu trabalho, rotina ou extraordinário, não importa, em todas as boquetas[4] olhares rompem a noite, atentos, analisando, odiando, tecendo mil maldições... Maldições das sentinelas sacis... E de todos os demais demônios!
Será que maldição de saci pega?
Os agentes vão embora, despreocupados, rindo de alguma mula[5] qualquer... Talvez seja essa a grande vacina para as maldições dos sacis e de todos os demônios que habitam as entranhas desta quimera... O bom humor!
De repente, as risadas e os passos vão ficando distantes no corredor, um fechar de cadeado, de dois cadeados, mil cadeados trancados... O silêncio retorna ao seu descanso vigilante, a cadeia retorna a sua rotina – o que é patifaria retorna para o esgoto onde vive; as orações retornam cheias de fé e de tristeza, a fé é maior dentro da cadeia! O silêncio é mesmo democrático na cadeia, a quimera suporta a oração com a mesma apatia com que ouve as maldições.
Não se ouve mais os agentes, seus passos, suas chaves, suas risadas, suas preocupações, todas as maldições de um ofício que desconhece bênçãos foram-se com eles.... Só se ouve o silêncio... O silêncio e todas as suas malditas possibilidades.....
Dormem os sacis, por enquanto!



[1] Celulares.
[2] Aguardente artesanal fabricada na cadeia (de forma ilícita).
[3] Esconderijos ilícitos dentro das celas ou nas dependências da cadeia.
[4] Pequena janela colocada na porta da cela.
[5] Zombaria, picardia de cadeia.